Entrevista

Celso Moretti, presidente da Embrapa

O Brasil não acordou para o potencial da bioeconomia

Sérgio Lima/Istoé

O Brasil não acordou para o potencial da bioeconomia

Com mais investimento público e privado em pesquisa e desenvolvimento, o País poderia liderar a economia verde com o uso sustentável da fauna, flora e microrganismos presentes na Floresta Amazônica

Lana Pinheiro
Edição 16/10/2021 - nº 182

Com 70 milhões de hectares cultivados e um Valor Bruto de Produção projetado de US$ 1 trilhão em 2021, o brasileiro tem que lutar diuturnamente com a pecha de vilão do meio ambiente. Isso, afirma o presidente a Embrapa, Celso Moretti, a despeito de adotar práticas sustentáveis únicas no mundo. Entre elas o plantio direto e o modelo Integração Lavoura-Pasto-Floresta (ILPF). Ainda assim, para o executivo, há fahas como a miopia sobre a economia de baixo carbono e a falta de comunicação do setor com o mundo externo. “Durante muitos anos, falávamos só para o rural. Só que é fácil pregar para convertido. Temos que falar com o público urbano nacional e internacional”, disse à RURAL.

RURAL – Durante visita ao Brasil, o presidente da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 26), Alok Sharma, esteve na sede da Embrapa. Como foi o encontro?
celso moretti – Mais positivo, impossível. Foi uma fantástica oportunidade de mostrar ao presidente Alok Sharma e ao embaixador do Reino Unido no Brasil, Peter Wilson, o mundo real do agronegócio, um setor que alimenta 800 milhões de pessoas, exporta para 180 países e ainda preserva quase dois terços do território.

Que assuntos nortearam a conversa?
Comecei explicando sobre os seis biomas brasileiros com ênfase à informação de que a Amazônia não é um vazio demográfico como imaginam. Falamos também da história da agropecuária brasileira nas últimas cinco décadas, entrando em temas como tecnologia, plantio direto, fixação biológica de nitrogênio. Eles não conhecem o Brasil.

Falta ao País educar o mundo sobre o agro nacional?
O mundo e o brasileiro. Essa é uma mudança estratégica que estamos fazendo na comunicação da Embrapa. Durante muitos anos, falávamos só para o rural. Só que é fácil pregar para o convertido. Temos que falar com o público urbano nacional e internacional. Temos que mostrar que a ciência está no café-da-manhã, no almoço e no jantar das pessoas. Do pãozinho que tem o trigo desenvolvido com tecnologia da Embrapa até a alface que foi adaptada aos trópicos.

Mesmo com todas as tecnologias sustentáveis desenvolvidas pela Embrapa, o uso da terra continua sendo a maior fonte de emissões de gases de efeito estufa do Brasil. O que é preciso fazer para o agro passar a sequestrar carbono?
O Brasil já avançou bastante nos últimos anos. Hoje, dos 70 milhões de hectares cultivados, 50% já adotam o sistema de plantio direto, o que mantém o carbono no solo. Já ao se calcular o impacto da fixação biológica do nitrogênio, considerando apenas o cultivo da soja, chegamos a uma economia de mais de 100 milhões de CO2 equivalente (quantidade de GEE em termos equivalentes da quantidade de carbono) no ano passado. Ainda temos a Integração Lavoura-Pasto- Floresta (ILPF), a carne carbono neutro e outras. O que falta é aumentar a capacidade de levar a tecnologia de forma mais rápida aos pequenos produtores e incluí-los neste novo modelo produtivo. A inclusão produtiva é uma das frentes estratégicas da Embrapa.

Qual a situação da exclusão no campo?
Em 1991, o Brasil deixou o agro manco da perna da assistência técnica e extensão rural quando acabou com o Sistema Embrater. Se imaginarmos que 85% das propriedades são de pequenos produtores, fica fácil inferir que existe uma parcela grande que está fora do processo tecnológico.

Como o setor e a própria sociedade podem se articular para acelerar essa inclusão produtiva?
De fato só conseguiremos avançar na inclusão com a participação dos diversos atores. Desde as secretarias de agricultura municipais, passando pelas estaduais, pela Agência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (Anater), universidades, o Sistema S, a Embrapa e o setor privado. Lá fora, impressiona ver o quanto o setor privado participa do financiamento da indústria. Eles têm um sentimento de orgulho atrelado ao campo. Infelizmente, a gente não vê isso acontecer no Brasil.

Financiamento é um problema no Brasil?
De certa forma. Nos Estados Unidos, por exemplo, os próprios produtores criam fundos para financiar desenvolvimento de tecnologias em entidades e universidades. Eles trabalham juntos nos problemas.

Qual seria o maior desafio da inclusão? Falta de informação, de recursos ou de estrutura?
Realmente precisamos de investimento robusto e de uma organização dos atores, mas tem outro ponto: o uso do digital esbarra no fato de que hoje somente 30% das propriedades têm internet. Se não melhorarmos a conectividade no campo, não vamos chegar às 6 milhões de propriedades rurais que temos no Brasil.

No desafio imposto pelo ESG (ambiental, social e de governança), a agropecuária está sob escrutínio por estar associada à expansão de áreas de biomas nativos. É possível construirmos um modelo de desenvolvimento sustentável?
Apesar de algumas iniciativas, o Brasil não acordou para o potencial da bioeconomia. Temos 25% das espécies de fauna e flora do mundo. Só na Amazônia temos um estoque de microrganismos que ainda nem conhecemos e que podem ser a solução para vários problemas, inclusive do agro.

Temos exemplos na Embrapa?
Vários. Um deles é o biofertilizante chamado BiomaPhos. Na busca da solução para corrigir a carência de fósforo no solo brasileiro (hoje importamos mais de 80% da demanda), nossos pesquisadores encontraram duas bactérias do gênero Bacillus que atuam em dobradinha, uma no solo e a outra na planta, liberando o fósforo que está preso no solo para a planta absorver. Na safra 2019/20, esse biofertilizante foi utilizado em 300 mil hectares de milho e soja. Na safra 2020/21, em 1,5 milhão de hectares e na 21/22 a perspectiva é que chegue a 4 milhões de hectares. Nós avaliamos 238 áreas de produção de soja e o ganho líquido foi de 4 sacas/ha.

A Embrapa é uma ilha de excelência em um país que despreza a ciência em termos de financiamento e retenção de pesquisadores. Como a iniciativa privada pode suprir esse vazio?
O primeiro ponto é avaliar os resultados. Ao longo dos 48 anos da Embrapa mostramos que dá certo. Quando a gente mostra a economia associada ao uso de fertilizantes à base de nitrogênio, ou o quanto o zoneamento de risco climático pode evitar em desperdício de recursos para o Brasil, damos uma prova inequívoca de que vale investir no agronegócio nacional. E aí retomo o ponto que não temos essa visão no País. Já ouvi de empresários que eles já pagam muitos impostos, então se negam a financiar pesquisa porque acreditam que cabe somente ao governo este papel. O governo já faz um investimento de mais de R$ 3 bilhões na Embrapa para oferecer uma organização pronta para que a iniciativa privada use e ajude a financiar. Grandes marcas já estão conosco nessa jornada, mas tem espaço para mais.

Quando falamos em economia verde, o Brasil está sendo tachado de vilão. Os Estados Unidos estão na lista dos que mais atacam, mas há um documento produzido pelo agronegócio americano (Farms Here, Forest There) que alerta o governo sobre os impactos negativos da expansão brasileira. Como conciliar interesses?
Isso é do jogo. Os produtores americanos vão defender que os Estados Unidos sejam os grandes provedores de alimentos do mundo. Do nosso lado, temos que mostrar que nós produzimos mais e melhor do que qualquer outro país. E fazemos isso com sustentabilidade e com tecnologia. Hoje alimentamos 800 milhões de pessoas, com uma produção de mais de 260 milhões de toneladas de grãos (safra passada). Em cinco anos, a produção brasileira de grãos vai passar para 300 milhões, sem a necessidade de derrubar a floresta Amazônica ou a Mata Atlântica. Vamos fazer isso incorporando passagens degradadas e melhorando a produtividade nas propriedades rurais com agricultura de baixo carbono.

A população mundial passará de 7 milhões para 10 milhões de pessoas em 30 anos. Como garantir o Brasil como o principal provedor de alimentos?
Temos que atuar em duas frentes. Aumentar a produtividade e a eficiência, são juntas uma delas, e já estamos fazendo isso. Há 15 anos, a soja colhia cerca de 2 milhões de toneladas por hectare. Hoje, chega a 6 milhões. Devemos ter também um salto de produtividade com um trigo tropical desenvolvido pela Embrapa. De nossa demanda de 12 milhões de toneladas, produzimos somente metade em 2,3 milhões de hectares. A média de produtividade no Sul é de 2,9 toneladas. Já no Cerrado está chegando a 8 toneladas/ha graças à tecnologia. Não tem outro lugar do mundo com produção deste cereal em área tropical.

E a outra?
Aumento de produção. Vamos produzir mais. Temos no Brasil 90 milhões de hectares de pastagens com algum grau de degradação. Isso é 11% do território brasileiro. A nossa contribuição para alimentação global passará de 12% para 20% usando áreas já abertas, ou seja, sem avançar nas florestas.

Qual será o papel da agricultura nacional na economia de baixo carbono?
No Brasil estamos no segundo ciclo do Programa de Agricultura de Baixo Carbono e temos sete programas nessa linha. Entre eles estão o sistema ILPF, plantio direto, florestas plantadas, tratamento de dejetos de animais, entre outros. Se há um setor econômico de um país que pode afirmar de forma assertiva que está fazendo a descarbonização é o agro brasileiro.

Mas há um problema que foge a este cenário que são os ilegais que se beneficiam de um mercado interno que não consegue pagar pelo prêmio dos produtos sustentáveis.
A questão do problema social em que vivemos e da nossa incapacidade de fiscalizar são problemas postos. A solução é gerar renda e, em alguns casos, distribuir renda. Do ponto de vista de uma empresa de tecnologia e ciência, o que estamos fazendo é buscar soluções que sirvam aos pequenos, médios e grandes produtores.

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