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O caçador de negócios

Conheça a estratégia da trading americana Archer Daniels Midland, companhia global que fatura US$ 60 bilhões e que tem apostado em uma nova gestão corporativa para continuar crescendo no Brasil

Crédito: Montagem sobre foto de Claudio Gatti

Colheita: o CEO da ADM para a América do Sul, Domingo Lastra, diz que a companhia aposta na sustentabilidade dos negócios e no relacionamento com o produtor (Crédito: Montagem sobre foto de Claudio Gatti)

De olho: o CEO mundial da ADM, o argentino Juan Luciano, esteve no Brasil para a inauguração da maior fábrica da América Latina para processamento de proteína de soja (Crédito:AP Photo/Richard Drew)

O argentino Domingo Lastra começou a trabalhar na lavoura de soja da família aos 12 anos de idade, em Los Toldos. O povoado de 15 mil habitantes fica na província de Buenos Aires, onde também nasceu Evita Perón, um ícone da política desse país que viveu no começo do século passado. A função de Lastra, naquela época, era caçar lagartas. Ele era bom no negócio. Para não perder a conta, mantinha no bolso um livreto de anotação das lagartas sequestradas. Cada uma que ele tirava da lavoura tinha o seu valor. Por isso, a ponta do lápis fazia parte de seu controle para, no fim do dia, prestar contas ao avô. Lastra nunca perdeu esse costume. Ainda hoje, aos 50 anos, mantém no bolso o seu inseparável livreto de anotações. Mas, em vez de lagartas, ele anota ideias. Desde setembro do ano passado, Lastra é o presidente da ADM América do Sul, unidade de negócio da companhia americana Archer Daniels Midland (ADM). Com sede em Illinois e listada na Bolsa de Nova York, a empresa fundada no início do século passado por George Archer e John Daniels é hoje uma das maiores tradings globais. No Brasil, a empresa desembarcou em 1997. Forma com a Bunge, a Cargill e a Dreyfus, o grupo conhecido como “ABCD”. Entre as dez maiores que atuam no País, as receitas globais das quatro somam US$ 259,3 bilhões e representam 43,7% do total das tradings (confira na pág. ao lado). “Nós estamos nos comunicando mais com o mercado, atuando mais intensamente com os produtores e os consumidores dos nossos produtos”, diz Lastra. “Isso tem feito a diferença”.

Logística: no porto de Barcarena, no Pará, foram investidos R$ 1,5 bilhão para ampliar a estrutura portuária e escoar seis milhões de toneladas de grãos por ano (Crédito:Divulgação/ADM)

A ADM faz parte de um movimento global de estruturação desse tipo de companhia, em busca de maior eficiente nos negócios. E saiu na frente. Não por acaso, no ano passado a receita global foi de US$ 60,8 bilhões, 2,4% abaixo do ano anterior. No entanto, o lucro líquido, ou seja, o que de fato sobrou no bolso, aumentou na casa de dois dígitos: foi de US$ 1,6 bilhão, 24,7% acima de 2016. Lastra afirma que as reestruturações na trading começaram em 2011, ao contrário da maior parte do setor que tem se mexido com maior intensidade nos últimos quatro anos. Há sete anos, a empresa iniciou dois movimentos. O primeiro foi intensificar as aquisições. O segundo movimento, no início deste ano, tem sido para a sua gestão corporativa. A ADM foi fatiada em quatro divisões: soluções em carboidratos, nutrição, oleaginosas e originação. Lastra, que já havia trabalhado no Brasil no início dos anos 2000 e que estava na Europa, no comando da reorganização da empresa naquele continente, foi enviado ao Brasil justamente com a missão de orquestrar esse movimento no País. “O mundo é muito diverso do que era uma década atrás e a companhia vai se reinventando”, diz ele. “Lógico que em toda estruturação há perdas e ganhos, mas acreditamos que com unidades de negócio separadas é mais fácil olharmos para as cadeias de valor.” A base do movimento, que já foi feito nos Estados Unidos e na Europa, é a operação. A ADM faz originação de grãos de soja, milho, girassol e trigo, processa ingredientes para a indústria de alimentos para humanos e animais, produz biodiesel, farelo e óleo de soja para o mercado interno e para exportar. São 57 milhões de toneladas commodities processadas. “O aumento das atividades da companhia no País entrou definitivamente na nossa pauta”, diz Lastra. “Os Estados Unidos detém a maior parte da companhia, seguido da Europa. Mas em alguns casos, o Brasil já ultrapassa esse continente, como no caso dos negócios com a soja.”

Por isso os investimentos realizados no País. O mais recente, em junho, foi a inauguração de uma fábrica construída em Campo Grande (MS). Com recursos aplicados da ordem de US$ 240 milhões, a ADM colocou de pé a maior fábrica da América Latina para processar soja e produzir óleo. São derivados texturizados, alimentos que entram na composição de hambúrgueres, salsichas, empanados, cereais, sucos, entre outros produtos e bebidas. A capacidade, em 25 mil metros quadrados de área construída, é para processar 50 mil toneladas de produtos por ano. A meta é colocar 70% da produção no mercado brasileiro e exportar 30% para países vizinhos e também outros, como a Arábia Saudita, por exemplo. Para Jaime Verruck, secretário de Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico, Produção e Agricultura Familiar de Mato Grosso do Sul, que esteve na inauguração da unidade, a companhia agrega um valor importante para o crescimento da região. “A maior planta de processamento de soja da América do Sul consolida nossa estratégia em agregar valor à produção local”, diz ele. “O Estado está aberto a mais indústrias”. Há alguns anos, o Mato Grosso do Sul, com o apoio do Fundo de Desenvolvimento do Centro-Oeste (FDCO), tem traçado uma política de atrair investimentos industriais, de olho na saturação dos Estados de São Paulo e do Paraná.

Proteção: para receber certificação, a lavoura precisa ser sustentável e estar em harmonia com o meio ambiente (Crédito:Rodrigo Baleia / AE)
“Iniciativas de mãos dadas com os produtores resultam em melhor desempenho” Aline Maldonado Locks, presidente da Aliança da Terra (Crédito:Pedro Dias / Ag. Istoe)

Isso porque a agricultura vai continuar crescendo nas próximas décadas, como ocorreu no último ciclo. De acordo com dados do Censo Agropecuário 2017, divulgados no final de julho pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), são 350 milhões de hectares, área 5% acima de 2006, data do censo anterior, distribuídos por 5,1 milhões de propriedades rurais. Desse total, 57,8 milhões são terras destinadas a lavouras anuais e aí a soja reina absoluta. Por isso, a ADM vem apostando ainda mais na commodity. Na América do Sul, a empresa origina por ano 11 milhões de toneladas de soja, milho, algodão, palma e girassol.

Somente no Brasil, a soja corresponde a 75% do volume de produtos processados. Do total de 5,3 milhões de soja, milho e girassol comprados no Centro-Oeste, quatro milhões foram da oleaginosa. Na exportação, entre soja, farelo e milho, a ADM embarcou 7,6 milhões de toneladas no ano passado, de acordo com agências notícias. “Sim, no ano passado batemos recorde de originação no Brasil e o plano é continuar aumentando esse volume”, afirma Lastra. “O País tem importância como exportador e também é dono de um grande mercado interno para explorar, de 200 milhões de habitantes.” O também argentino Juan Luciano, CEO mundial da ADM, tem confirmado a estratégia de reorganização da companhia, nas conferências da empresa. A visita mais recente ao País foi na inauguração da fábrica de Campo Grande.

“Já avançamos muito, mas ainda temos um longo caminho” Marina Born, presidente da RTRS (Crédito:Divulgação)

Para monitorar e prestar auxílio aos produtores, a ADM aposta em certificações e controles no campo. De acordo com André Nassar, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais, essa é uma fronteira que as empresas estão rompendo. “A certificação é o próximo passo e vem cada com as empresas, criando seus nichos”, afirma Nasser. Uma das 13 empresas associadas à Abiove é justamente a ADM. No campo, o caminho da empresa passa pela adesão à Associação Internacional de Soja Responsável (RTRS), organização da sociedade civil que monitora práticas sustentáveis de produção, como por exemplo, a recusa por parte das empresas seguidoras em não comprar o grão de área de desmatamento ilegal. A ação serve de exemplo. Na ADM, nos últimos anos, a originação nessa certificação tem sido de cerca de 665 mil toneladas. No ano passado, o total para o Brasil foi de 3,4 milhões de toneladas de soja, volume equivalente a 82,9% de toda soja certificada no mundo com o selo RTRS. “Já avançamos muito, mas ainda temos um longo caminho”, disse a argentina Marina Born, presidente da RTRS, em maio, quando todos os países signatários, entre eles Brasil, Argentina, China, Índia, Moçambique e vários europeus se reuniram em Lille, na França. A empresa também é signatária do programa “Produzindo Certo”, coordenado pela Aliança da Terra, uma organização que reúne 458 fazendas que ocupam uma área de 1,5 milhão de hectares nos Estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Goiás, Pará, Tocantins e Bahia. A ADM aderiu ao programa em 2008. “A união em torno de uma ideia mostra que iniciativas de mãos dadas com os produtores resultam em melhor desempenho social, ambiental e produtivo”, afirma Aline Maldonado Locks, diretora da Aliança da Terra. “Em parceria com a ADM, estamos diagnosticando e mapeando as necessidades dos produtores.”

Fábrica: a ADM tem investido em infraestrutura, em todos os setores, para processar ingredientes destinados à indústria de alimentos para humanos e animais (Crédito:Daniel Acker)

Para o engenheiro Marcelo Prado, da consultoria MPrado, de Uberlândia (MG), a ADM tem mostrado competência na originação de grãos e no processamento de alimentos, um setor muito competitivo e de margens apertadas. “É importante ser eficiente em gestão de custos e de despesas, sim”, diz Prado. “Mas ser excelente em logística.” Para sair pelos portos do Norte, a empresa fez uma parceria com a Glencore em 2015, na qual investiu R$ 1,5 bilhão em estrututura portuária em Barcarena, no Pará. Assim, a empresa aumentou o escoamento de grãos de 1,5 milhão de toneladas para seis milhões de toneladas.

Lastra diz que todo o trabalho de campo é para não perder mercado lá fora, principalmente o chinês. A empresa tem se esforçado em nível global para isso. Somente a área de pesquisa 700 cientistas e engenheiros registraram cerca de 200 patentes desde 2009, nas áreas de processo, química e biotecnologia, nutrição animal e aplicações de alimentos e bebidas. Para isso são 39 centros de inovação. Tudo que ocorre no resto, em termos de avanço de tecnologia, é consequência direta desse grupo. Em todo o mundo são 500 unidades de compras de culturas agrícolas, 270 instalações de processamento de ingredientes e. “Sabemos que a demanda vai continuar crescendo, embora haverá cada vez mais disputa por mercado e aumento da oferta mundial de commodities”, diz ele. O executivo cita, por exemplo, a região do Mar Negro, entre a Europa e o Cáucaso. “Antigamente, ela não era importante, mas hoje fornece soja, milho e aumenta sua produção a cada dia.”

Não por acaso, a empresa tenta estreitar sua presença no mundo. No mês passado, a ADM fechou uma parceria com a Cargill no Egito, para dividir uma fábrica de processamento de alimentos. Lastra afirma que esse tipo de ação deve se intensificar entre as tradings de modo geral. “Se há sinergias, por que não fazer parcerias. Nós íamos construir uma fábrica e desistimos. Não há problema nisso”, diz ele. A Cargill é o maior concorrente que alguém poderia ter. No ano passado, a empresa faturou US$ 109,7 bilhões, é a maior do setor. Mas, de acordo com o executivo, hoje as companhias estão muito mais maduras para trabalhar nesse sentido: sentar e fazer negócio. “A possibilidade de trabalhar em conjunto não é um risco, é uma forma inteligente de cumprir o seu propósito”, afirma Lastra. Os esforços nas aquisições globais completam o trabalho. No mês passado, a empresa investiu e 1,5 bilhão na compra da francesa Neovia, uma das mais importantes companhias globais de nutrição animal. No mês anterior, ela já havia comprado a inglesa Probiotics International (Pil), por US$ 243 milhões. “Nosso olhar é para o mundo”, diz Lastra. Para Ásia, principalmente, porque é lá que ele vai crescer. No caso do Brasil, na década de 1990, a China importava dois milhões de toneladas, hoje são 53 milhões. “A China tem a sua política de segurança alimentar, que é de Estado”, diz Lastra. “Nós vamos ajudar para que não falte comida lá.”

“A certificação é o próximo passo e vem, cada vez mais, com as empresas criando seus nichos” André Nassar, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Crédito:Andrea Cebukin)