Aurélio Pavinato, diretor- presidente do grupo gaúcho SLC Agrícola, estava preocupado no fim de fevereiro. Uma das maiores produtoras de algodão, soja e milho do País, com 344 mil hectares plantados, a SLC teria de enfrentar um risco adicional, além das incertezas do clima: o mercado internacional. “Os preços estavam desabando”, diz ele. A soja negociada em Chicago havia caído 34%, recuando para US$ 20,79 por saca (US$ 9,60 por bushel), ante US$ 31,62 em 2014. Não por acaso, as ações da SLC haviam recuado 3,4% na bolsa em fevereiro de 2015, retornando aos níveis da crise de 2009. No entanto, nas três primeiras semanas de março, Pavinato e os investidores da SLC – segunda colocada em gestão corporativa entre as grandes empresas do Agronegócio Direto, na edição de 2014 de AS MELHORES DA DINHEIRO RURAL – puderam comemorar uma alta de 21% nos preços das ações. A volta ao azul teve um motivo verde: até o dia 23 de março, o dólar subiu 10,5%. No segmento comercial, que pauta as operações de importação e exportação, a moeda americana chegou a ser negociada a R$ 3,30, nível do crítico mês de abril de 2003. “A alta do dólar praticamente compensou a queda de preços das commodities”, diz Pavinato.


“A alta do dólar compensoua queda de preços das commodities.” Aurélio Pavinato, diretor-presidente da SLC Agrícola

Se a alta do dólar foi um alívio para produtores como Pavinato, para executivos como Luiz Carlos Aguiar, presidente da Cantagalo General Grains (CGG Trading), ela é motivo de comemoração. Criada em 2010 em um investimento conjunto da mineira Coteminas, do empresário Josué Gomes da Silva, e da japonesa Sojitz Corporation, a CGG Trading é uma grande produtora e também atua como trading. Em 2014, ela faturou R$ 3,3 bilhões, tanto produzindo quanto comercializando soja e milho. Por isso, Aguiar pode falar com propriedade dos dois lados do balcão. No lado da produção, diz ele, o avanço do câmbio deve ser contabilizado como lucro. “Na safra 2014/2015, o agricultor comprou insumos com o dólar a R$ 2,43, e está vendendo o grão com o dólar a R$ 3,10”, diz. Injeção de ganhos nas contas da CGG, que possui 150 mil hectares de terras no Mato Grosso, no Piauí, em Goiás e em Minas Gerais, dos quais 60 mil cultivados com soja e milho. Nem mesmo a queda internacional das commodities assusta Aguiar. “A tendência para a safra 2015/2016 indica que teremos um período de preços firmes”, diz ele. “Os produtores já começaram a fazer vendas antecipadas da soja que ainda vai ser plantada no fim do ano.”

O benefício foi ainda mais nítido na trading. “Para nós, o movimento do câmbio é só alegria, pois os contratos de exportação de grãos são fechados em dólares, mas as despesas administrativas são negociadas em reais”, diz Aguiar. No fim de março, a CGG iniciou as operações do Terminal de Grãos do Maranhão (Tegram), no complexo portuário de Itaqui, em São Luís, com o carregamento do primeiro navio graneleiro. Ao lado de sócios de peso como a anglo-suíça Glencore, o grupo francês Louis Dreyfus, a NovaAgri, do fundo Pátria e o grupo mato-grossense Amaggi, a CGG investiu R$ 600 milhões no novo terminal. Apenas nesta safra o Tegram deve escoar dois milhões de toneladas de grãos. Mas não há pressa. “Ainda há muito grão para ser vendido, os produtores estão capitalizados e têm segurado mais as vendas do que em anos anteriores”, diz ele. “Só em março eles começaram a entrar no jogo para valer.” Se­­gundo Aguiar, os mercados asiáticos vão continuar comprando mui­­to, a despeito do desaquecimento chinês, o que garante uma demanda mais ou menos cativa. “O consumo de alimentos é menos afetado pela desaceleração da economia.”


“Para nós, o movimento do câmbio é só alegria.” Luiz Carlos Aguiar, presidente da CGG Trading

A justificativa para a animação de produtores e exportadores é aritmética. “A alta do dólar em relação ao real torna os produtos brasileiros mais competitivos em relação às commodities produzidas nos Estados Unidos ou em outros países com a moeda mais forte”, diz Andréia Cristina de Oliveira Adami, economista do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Esalq/USP. Em março de 2013, quando o dólar valia R$ 2,30, o importador precisava de US$ 0,43 para comprar um real em produto brasileiro. Agora, com o dólar a R$ 3,10, ele precisa de apenas US$ 0,32 para fazer esse mesmo negócio. “O custo de aquisição do produto brasileiro caiu 24% só por conta da desvalorização do real”, diz ela. “Só isso é uma enorme vantagem.”

De acordo com o Cepea, ainda que o faturamento do produtor em moeda estrangeira diminua devido à queda internacional dos preços, o exportador pode ganhar mais em reais. Os economistas do Centro esperam uma recuperação das cotações internacionais do café, das carnes e do suco de laranja, devido à redução do desequilíbrio entre oferta e demanda. “Não deve haver reduções significativas de preços para esses produtos”, diz Andréia.

Por qualquer métrica, o setor agrícola permanece sustentando a balança comercial brasileira. Em 2014, o agronegócio exportou US$ 96,7 bilhões, uma queda de 3,2% em relação ao desempenho de 2013, e gerou um superávit de US$ 80,1 bilhões, inferior aos US$ 82,9 bilhões de 2013. No entanto, quando convertidas em reais pelo dólar do fim de dezembro de cada ano, as vendas ao mercado externo cresceram 9,8%, para R$ 256,9 bilhões. Com as importações do agronegócio passou-se o mesmo. Em dólares, elas recuaram 2,4% em 2014, para US$ 16,6 bilhões, embora tenham subido 10,7% quando convertidas em reais.


O fiel da balança: colheita de soja no Mato Grosso: em 2014, apesar dos preços internacionais em queda, o agronegócio gerou um superávit de US$ 80,1 bilhões na balança comercial brasileira

No entanto, há dois problemas. O primeiro é que esse benefício não se distribui de maneira uniforme pela economia. “A alta beneficia o exportador, que recebe em dólar, mas afeta o importador e o produtor que está endividado em dólares, pois ele terá de usar mais reais para pagar a dívida”, diz Andréia. O segundo problema é que o produtor vende sua produção em dólares, mas boa parte dos insumos é importada. Assim, uma alta nas taxas de câmbio também infla os custos.

Essa é uma preocupação para Jaime Alfredo Binsfeld, presidente da trading de grãos Fiagril, com sede em Lucas do Rio Verde (MT) e que espera faturar R$ 2,8 bilhões na safra 2014/2105. Cerca de 70% dos custos da produção de soja são, em maior ou menor grau, influenciados pelo dólar. Isso obriga – ou deveria obrigar – os produtores a buscarem proteção contra os solavancos cambiais, por meio do mercado futuro de dólar. O problema é que essa proteção, cujo nome técnico é hedge cambial, custa caro. E esse preço tem aumentado devido à volatilidade ampliada da moeda americana. “A instabilidade de curto prazo da moeda, com oscilações fortes, é preocupante, porque nem todo produtor fez hedge, e coloca em risco o faturamento”, diz Binsfeld. Por isso, ele considera que períodos de volatilidade acentuada do câmbio, como os vivenciados nas primeiras semanas de março, são mais danosos para o agronegócio do que períodos prolongados de baixa.

Um bom exemplo é o cenário da soja no Mato Grosso. Pelas contas de Binsfeld, na safra 2013/2014 foram plantados oito milhões de hectares a um custo médio de US$ 400 por hectare, totalizando um custeio de US$ 3,5 bilhões. Segundo ele, ainda há US$ 1 bilhão a serem pagos pelo produtor, cerca de 30% do total, que não estão protegidos contra a variação cambial. “Esse descasamento é a única pedra no sapato do produtor, porque reduz a rentabilidade e eleva os riscos”, afirma. O preço atrativo devido ao câmbio não se traduz automaticamente em ganhos elevados para quem ainda tem de pagar o custeio. “E ainda tem a pressão de baixa nas cotações devido à supersafra americana.”


“A instabilidade do câmbio preocupa, porque nem todo produtor se protege.” Jaime Binsfel,d presidente da Fiagril Trading

Isso não ocorre apenas com a soja. As cotações dos outros produtos importantes na pauta de exportações brasileira – milho, café, açúcar e algodão – recuaram, em março de 2015, para os patamares de 2010, logo após a crise financeira internacional. Mesmo assim, avalia, a rentabilidade do produtor ainda deverá ficar no azul. E há duas razões para otimismo com a safra 2015/2016. Um deles é que os custos de logística interna e mão de obra, cotados em reais, deverão ficar atrativos. O outro é que as novas compras de insumos deverão ocorrer com um dólar já ajustado. “Lá na frente as duas pontas se encontram”, diz Binsfeld.


“O custo do produto brasileiro caiu 24%, o que é uma enorme vantagem.” Andréia de Oliveira Adami, economista do Cepea, ligado à Esalq/USP

Os especialistas destacam que a elevação súbita das cotações do dólar em março encontrou um agronegócio mais preparado do que no grande solavanco mais recente. Há uma década, na safra de 2004 / 2005, as cotações do dólar desabaram de R$ 2,90 na época do plantio para R$ 2,40 no momento da colheita. Os produtores compraram insumos com o câmbio em alta e venderam o grão com o câmbio em baixa. O resultado dessa depreciação de pouco mais de 17% no dólar foi catastrófico. Fosse pouco, a conjugação entre uma seca que atingiu em cheio as principais regiões produtoras e a entrada da ferrugem asiática comprometeu ainda mais o desempenho dos produtores. “Muitos quebraram ou tiveram de carregar dívidas por várias safras”, diz o agrônomo Carlos Alberto Mercante, diretor comercial da Mosaic Fertilizantes, empresa que nasceu da fusão das áreas de insumos das americanas Cargill e IMC Global. Não por acaso, a partir de 2004 teve início um processo de profissionalização do setor, com o surgimento das associações de produtores. Hoje, avalia Mercante, o setor está mais profissionalizado e mais capacitado para gerir os riscos. “O produtor vai para o mercado no melhor momento de compra de insumos e de venda do grão”, diz ele.


“O produtor vai para o mercado no melhor momento de compra de insumos e de venda do grão.” Carlos Alberto Mercante, diretor comercial da Mosaic Fertilizantes

Segundo Mercante, no Mato Grosso, região em que os custos de produção são os maiores do Brasil, o custeio da próxima safra está avaliado em US$ 650 por hectare, sem considerar depreciação, financiamento e arrendamento de terra. “Com o preço internacional onde está, o lucro por hectare será de US$ 150, o que é um resultado muito bom, e com dólar acima de R$ 3 vai ficar melhor ainda”, diz ele. “Se está bom para o produtor na região de maior custo, imagina nas demais.”

Mesmo assim, os especialistas sugerem um reforço nas estruturas de crédito, para evitar o descasamento de moedas – por exemplo, comprando insumos em dólares, mas acertando a venda da produção em reais. Mesmo assim, quem conhece o campo não hesita em recomendar cautela. “Se o melhor cenário é plantar a safra com um determinado câmbio e colher seis meses depois com o dólar mais alto, o pior dos mundos é colher com um dólar desvalorizado em relação ao do plantio”, diz o engenheiro agrônomo Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricul-tura e presidente do Conselho do Agronegócio da FIESP. “Aí, você descapitaliza o produtor.”


“O melhor cenário é plantar com um câmbio e colher seis meses depois com o dólar mais alto.” Roberto Rodrigues, ex-Ministro da Agricultura

Ele avalia que os custos deverão subir para a próxima safra, o que indica uma colheita com margens mais apertadas. “Brasil e Argentina devem colher safras recordes de soja e milho e, no Hemisfério Norte, as safras serão ainda maiores que as deste ano”, diz ele. A consequência serão aumento de estoques e a tendência de os preços caírem ainda mais. “Assim, vai depender quase que totalmente do câmbio se haverá ou não margem na colheita do ano que vem”, diz Rodrigues.
Colaborou: Fábio Moitinho