Finanças

O futuro é dos tokens

A conversão de ativos reais em tokens negociáveis em ambientes digitais já chegou ao campo e pode abrir espaço para um novo modelo de negócios atrativo para produtores e investidores

O futuro é dos tokens

Desde o início de julho, a cooperativa de cafeicultores Minasul, de Varginha, Minas Gerais, começou a comercializar a Coffee Coin. Trata-se do primeiro criptoativo de café no Brasil, disponível para qualquer investidor interessado no setor, por meio da corretora Stonoex. Cada Coffee Coin vale um quilo de café verde arábica no padrão commodity, e seu preço é atrelado ao valor real do grão no mercado. A iniciativa é um passo importante rumo a uma revolução que está ganhando força no mundo e no agronegócio: a tokenização, processo em que ativos reais são convertidos em tokens, que podem ser negociados em um ambiente digital.

Cada coffee coin emitida pela cooperativa minasul vale 1 quilo de café

Esse mercado ainda está em estágio inicial no campo, mas vem evoluindo rapidamente. A comercialização da Coffee Coin, por exemplo, é a mais recente etapa de um processo de digitalização que teve início há cerca de dois anos. “Tudo começou em 2019, no Fórum Internacional do Café, com um questionamento nosso sobre como fazer uma operação digital de barter”, disse Luis Henrique Albinati, diretor de novos negócios da Minasul. A resposta, de acordo com o executivo, estava no desenvolvimento de uma moeda própria, inicialmente disponível apenas aos cooperados.

“O token Coffee Coin é um ativo muito seguro, tanto em
termos tecnológicos quanto de volatilidade ” Luis Henrique Albinati Minasul (Crédito:Divulgação)

Ao fazer uma compra em uma das lojas da Minasul, o produtor pode optar por pagar usando a Coffee Coin. O sistema, então, faz a conversão do valor em quilos de café e desconta da compra. Esse grão precisa estar no estoque da cooperativa, que é a responsável pela remuneração direta dessa loja. A vantagem é que o produtor pode usar essa moeda digital em qualquer negociação, seja a compra de um chapéu ou de maquinário agrícola.

A moeda foi lançada em agosto do ano passado, e esse período foi importante para garantir a segurança da operação. Foi assim que a cooperativa estabeleceu o formato de tokenização que agora está disponível. Os tokens negociados são lastreados apenas em café de propriedade da Minasul – o produtor não pode tokenizar a sua produção diretamente. E a emissão de novos tokens é feita com aprovação dos diretores da empresa. “É um ativo muito seguro, tanto em termos tecnológicos quanto em termos de volatilidade. Sua faixa de valorização é diferente, não tem a oscilação de um Bitcoin”, disse Albinati.

Mais tokens A Coffee Coin, no entanto, não é a única iniciativa do setor. Outros exemplos importantes vêm da vizinha Argentina, país com forte tradição agrícola. É o caso da Soya, primeiro criptoativo lastreado em grãos de soja, desenvolvido pela startup Agrotoken. Sob o comando de Maria Gabriela Roberto Baró, a empresa criou um modelo diferente, em que a emissão do token é feito em parceria com tradings.

A commodity é depositada pelo agricultor em estoques de tradings. É só a partir da emissão de um certificado de localização da soja que a Agrotoken gera um token, equivalente a uma tonelada do grão, e cobra uma pequena taxa pela operação. Esse ativo digital poderá ser comercializado em corretoras de criptoativos, e eventualmente usado no financiamento de sua produção.

Por enquanto, menos de mil toneladas foram tokenizadas, e a Soya ainda não está disponível para negociação. Mas a ambição da startup é grande: Baró espera atingir 5% da produção mundial nos próximos anos. Para isso, pretende expandir as operações, hoje restritas à Argentina, a outros países, como Brasil e Paraguai. Com o sucesso do token de soja, o objetivo é oferecer o mesmo modelo para outros grãos, como o milho.

 

Divulgação

Também argentina, a startup Bitnoa quer fazer algo semelhante com o açúcar. Por isso, lançou a Sucoin, um criptoativo que será lastreado na commodity. Cada Sucoin equivale a uma saca de 50 quilos de açúcar, armazenada sob a custódia da Bitnoa, e seu valor também está atrelado ao mercado real do produto. Assim como a Soya, no entanto, a negociação da Sucoin ainda está um pouco distante. Em breve, a startup permitirá a compra dos tokens apenas em seu escritório físico, instalado na província de Tucumán.

No futuro, os tokens podem garantir ao produtor acesso a linhas de crédito que levam em conta sua capacidade produtiva

Segurança na operação

Os criptoativos ganharam relevância no noticiário financeiro nos últimos meses principalmente por conta da volatilidade das moedas digitais. É o caso do Bitcoin, cujo valor pode subir por conta de uma declaração do bilionário Elon Musk, CEO da Tesla, no Twitter, ou cair a partir de decisões do governo chinês de não aceitá-la como forma de pagamento. Mas é preciso entender que embora tanto o Bitcoin quanto os tokens mencionados usem a mesma tecnologia de blockchain, tratam-se de ativos completamente diferentes. “Não dá nem para colocá-los na mesma conversa”, afirmou Ray Nasser, analista de criptoativos da Inversa.

De acordo com o especialista, o lastro em um ativo real, como as commodities, reduz o risco de oscilação do preço. Nenhum investidor terá ganhos imensos de um dia para o outro, mas a valorização do token baseada no mercado real dá mais segurança à negociação. Esse ambiente menos volátil e, de certa forma, mais previsível, pode trazer ainda mais investidores ao setor. Nasser disse ainda que vê outras vantagens, como a descentralização do setor.
Para o produtor, a tokenização abre uma nova possibilidade de custear sua produção, ou uma parte dela. No futuro, pode oferecer acesso a linhas de crédito personalizadas, a partir do momento em que sua produção pode ser rastreada e a procedência é garantida pelo ativo digital.

Divulgação

“A tokenização é inevitável. É só uma questão de tempo”, afirmou Nasser. A maturidade desse mercado virá com a regulamentação de órgãos como a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), com a entrada de mais players, oferecendo um leque maior de oportunidades de negócios, e com a criação de padrões de tokens que poderão ser negociados e reconhecidos mundialmente. Outro fator é a educação tanto de investidores quanto de produtores. “Precisamos mostrar para as pessoas que são ativos seguros e rentáveis. Que dá para comprar sem ter nenhum problema”, disse Nasser.