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O impacto do coronavírus no agronegócio

Os produtores rurais do Brasil alimentam o mundo. Em tempos de pandemia, mais do que nunca, a saúde e a economia dependem daquilo que sai do campo. Entre os desafios de quem planta, cria e exporta está o de conciliar a essas atividades um novo fator: proteger a imagem que o Brasil semeia no exterior

Crédito: montagem com fotos istock
Agricultura familiar – Fechamento temporário de restaurantes deixou pequenos produtores sem ter para quem vender (Crédito:Divulgação)

A pandemia da Covid-19 deve levar a uma recessão estimada de até -3% no PIB global este ano, segundo estimativa do Fundo Monetário Internacional (FMI).

No Brasil, a projeção do próprio Ministério da Economia é que o recuo chegue a 4,7%.

O encolhimento da economia afetará mercados, câmbios e o crescimento do consumo nos países ricos, que são os grandes compradores das commodities agrícolas brasileiras.

E nesse que é um dos anos mais difíceis da história moderna, o Brasil tem sua imagem internacional prejudicada tanto pela forma como enfrenta a pandemia quanto pelo descaso com o meio ambiente.

Futuro – incerto Recuo do PIB global, queda na renda e alta no desemprego afetarão preços dos alimentos e o retorno aos produtores (Crédito:Wenderson Araujo)

Em abril, o desmatamento da Amazônia foi o maior dos últimos 10 anos, com 529 quilômetros quadrados de área destruída e aumento de 171% em comparação com o mesmo mês de 2019, segundo o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). Ao devastar a floresta, o Brasil destrói não apenas seu patrimônio ambiental, mas também sua imagem perante o mundo.

Campanhas como “Compre do seu bairro” dão alívio ao pequeno produtor

É sob o olhar atento de quem importa alimentos e fibras made in Brazil que o País atravessa sua maior crise de saúde e assistência social em mais de um século.

O saldo tem sido de milhares de vítimas, o que evidencia a falta de coordenação entre as esferas de poder e o despreparo do governo federal em lidar com o avanço pandemia.

Qual o efeito de tudo isso sobre o agronegócio? E quais as oportunidades que esse setor oferece para a retomada econômica no pós-pandemia? Em busca de respostas para essas duas perguntas, a reportagem da Dinheiro Rural ouviu uma dezena da especialistas, entre líderes setoriais, autoridades de governo e produtores.

As páginas a seguir apresentam uma síntese de como a crise do novo coronavírus atingiu o campo, além do que pode e deve ser feito para minimizar esses impactos.

Divulgação

De acordo com a estimativa da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o Brasil deve se tornar o maior produtor mundial de alimentos ainda em 2020, dado suficiente para que a produção agrícola recebesse a merecida atenção do governo federal, por meio de medidas como a antecipação da operacionalização do Plano Safra, a queda dos juros cobrados pelo BNDES, e maiores investimentos em infraestrutura logística para escoar a safra.

O agronegócio contribui com quase 25% do PIB brasileiro. Só os grãos produzidos aqui alimentam cerca de 1,2 bilhão de pessoas em todo mundo, segundo a Embrapa. O setor garante 20% dos empregos gerados no País, realiza 40% das exportações. Apesar de ter um papel central na economia brasileira, o agronegócio nacional enfrenta ameaças contínuas. Se a alta do dólar pode baratear os produtos brasileiros no exterior, facilitando as exportações, o financiamento de insumos para a safra 20/21, especialmente na forma de Barter (pela qual é possível adquirir insumos com a produção futura) tende a encarecer em níveis alarmantes. Outra preocupação dos exportadores de grãos é se os chineses vão aumentar a compra de soja dos Estados Unidos e reduzir
as importações do Brasil.

“Cadeias produtivas estão sendo afetadas em menor ou maior grau. Não há caixa ilimitado e alguns produtores não vão sobreviver” Gustavo Junqueira Secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo (Crédito:GABRIEL REIS)

Para quem não exporta o que produz, os problemas e dúvidas sequer estão no horizonte. Eles começaram junto com a pandemia.

O isolamento social fechou as portas de restaurantes, food services e feiras livres. Muitos produtores, especialmente os pequenos, ficaram sem conseguir escoar suas vendas. Foram semanas de agonia para as cadeias de hortaliças, frutas, flores, pescados, leite e ovos, que possuem milhares de pequenos e médios produtores — e que representam 85% das propriedades brasileiras com menos de 100 hectares. “No início da pandemia, o foco principal do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) foi definir as atividades essenciais que não podiam parar, garantindo a continuação do abastecimento de alimentos”, afirma Eduardo Sampaio, secretário de Política Agrícola do MAPA. “Na sequência, fizemos o protocolo do transporte de cargas, para tranquilizar os agentes que operam no setor, assim como os prefeitos e autoridades estaduais sobre os cuidados necessários. Com providências corretas, o risco é baixo”, diz.

“No cenário pós-pandemia, o agronegócio terá uma missão na segurança alimentar da população do Brasil e de outras nações” Ana Maria Valentin Secretária de Agricultura de Minas Gerais (Crédito:Divulgação)

Na esteira dessas ações, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) montou um comitê de crise e articulou com os ministérios da Agricultura e Infraestrutura novas regras de produção e distribuição de alimentos, através de programas públicos de aquisição direto dos produtores rurais. “Defendemos junto aos ministérios de Agricultura e Educação a manutenção do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que assegura a entrega de alimentos aos alunos da rede pública mesmo sem as aulas”, disse o superintendente técnico da CNA, Bruno Lucchi. “Os produtos alimentícios continuaram a ser distribuídos para as famílias desses estudantes, enquanto os produtores preservaram seu canal de comercialização”, diz Lucchi.

Com a interrupção de funcionamento de feiras livres, escolas, bares, restaurantes e hotéis, outro segmento fortemente atingido pela pandemia foi o de comercialização de produtos da agricultura familiar. Para viabilizar a volta das feiras livres nas cidades brasileiras, o Sistema CNA/Senar lançou no início de abril o Guia Feira Segura, orientando municípios sobre como promover feiras livres evitando o contágio por coronavírus. A publicação foi enviada aos sindicatos rurais de todo o País.

A CNA também levou ao governo a necessidade de prorrogação dos financiamentos e de crédito novo aos produtores rurais. “As medidas anunciadas pelo governo federal precisam de ajustes para que sejam, de fato, a favor do setor”, afirma Lucchi.

Além da Covid-19, a questão ambiental se impõe sobre a agropecuária

Flores e espinhos – Enquanto o setor de floricultura teve queda de 90% nas vendas devido ao isolamento social, as exportações de soja, carne e derivados registraram aumento de 24%, de fevereiro a abril (Crédito:Divulgação)
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CENÁRIOS DISTINTOS Nem mesmo notícias normalmente positivas para a indústria — como a disparada neste ano de cerca de 20% nos preços do suco de laranja em Nova York, devido à maior demanda pela fonte de vitamina C em função do coronavírus, são tranquilizadoras. A cotação do dólar em máximas históricas, que costuma ser bom para um setor majoritariamente exportador ­(dominado por poucas e grandes indústrias processadoras, como Citrosuco, Cutrale e Louis Dreyfus) não traz alívio aos citricultores, pois os custos aumentaram com insumos dolarizados, além de elevação nos gastos com transporte e de outras medidas sanitárias adotadas contra o novo coronavírus.

Wenderson Araujo

As cadeias produtivas do agronegócio, portanto, estão sendo afetadas de maneira diferenciada, em maior ou menor grau. “O setor canavieiro foi duramente impactado por essa crise, com queda de até 60% no consumo de etanol no início da quarentena e depois ficando entre 30% e 40% abaixo da média, mesmo numa economia tão grande e diversa como a de São Paulo”, diz Gustavo Junqueira, secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado. Nesse momento de preços baixos da cana, acontece a safra 20/21, sendo que essa mercadoria não se estoca. Colhida, ou é moída ou se perde. Outros mercados que têm sofrido em São Paulo, segundo o secretário, são o de pescado, flores, legumes e verduras, devido à falta ou redução significativa dos canais de distribuição. “Essas cadeias produtivas estão sendo afetadas e foram rompidas em menor ou maior grau. Não há caixa ilimitado e alguns produtores não vão sobreviver”, prevê.

“Esperamos que o Brasil saia da crise como um exportador ainda maior do que é hoje” Eduardo Sampaio Secretário de Política Pública do Ministério da Agricultura (MAPA)

Presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), Marcello Brito questiona: “Qual o impacto da crise econômica e do desemprego sobre a demanda mundial?” Ele se diz convicto de que a nossa agricultura estará pronta para atender e abastecer a população nessa área de primeira necessidade. Mesmo assim, não descarta uma certeza: “O mundo sairá mais pobre e mais desigual dessa pandemia”. Ele entende que será necessário “um enorme esforço de reconstrução e união das forças políticas para que o País atravesse de forma mais tranquila os imensos desafios já postos”. Um desses desafios diz respeito à floricultura, segmento que está entre os mais prejudicados pela quarentena. Com o fim das festas, eventos, casamentos e até velórios, houve uma redução de 90% nas vendas.

“O agro é o principal setor para a recuperação da economia” Silas Brasileiro Presidente do Conselho Nacional do Café (CNC) (Crédito:Divulgação)

O setor movimenta cerca de R$ 8 bilhões por ano, em uma cadeia que emprega principalmente mulheres. Houve uma campanha de sensibilização para o Dia das Mães e o mercado teve uma ligeira recuperação. As vendas para a data ficaram 40% abaixo da previsão anterior à pandemia. Tirso de Salles Meirelles, vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp) diz que outras campanhas importantes estão sendo promovidas para estimular outros setores. Entre elas estão “Compre do seu bairro”, que visa aquecer o consumo de pequenos comércios, frutarias e sacolões de bairro, e “Abasteça com etanol”, a fim de e favorecer a cadeia produtiva do biocombustível, que emprega 2,5 milhões de pessoas. O Brasil, até agora, não sofreu ameaça de desabastecimento. “O único produto que sumiu temporariamente do mercado foi o álcool gel”, diz Eduardo Sampaio, do Ministério da Agricultura.

Feira segura – Manuais com orientação sobre como evitar o contágio permitiram manter atividade (Crédito:Divulgação)

O consumo de etanol foi fortemente afetado pela queda do preço do petróleo, que barateou a gasolina e tornou o combustível derivado da cana-de-açúcar menos competitivo nos postos. Por outro lado, a queda no preço do diesel, que chegou a 30% em algumas regiões, teve o efeito positivo de reduzir o custo da operação no campo, já que o combustível é bastante usado em maquinário agrícola e no frete.

Mais frutas – Setor prevê exportar US$ 1 bilhão este ano e vê espaço para aumento das vendas no mercado doméstico (Crédito:Wenderson Araujo)

Evidentemente, nem tudo são flores – o que no caso do coronavírus é até bom. Na fruticultura, as exportações tiveram oscilação mínima, com queda de apenas 2% no primeiro trimestre em comparação ao mesmo período de 2019. A previsão para as exportações do setor em 2020 é de US$ 1 bilhão, segundo Guilherme Coelho, presidente da Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas). “Tivemos problemas pontuais de abastecimento com o mamão e a banana, por exemplo, mas já foram restabelecidos”. A laranja e o limão, inclusive, tiveram aumento de consumo. “Ninguém no setor está reclamando”, diz Coelho. E há espaço para crescer nas vendas domésticas. A ingestão de frutas no Brasil é, em média, de 57 quilos por habitante ao ano, enquanto o recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) é de 140 quilos.

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Na cafeicultura, o segmento mais impactado foi o de cafés especiais, principalmente as cafeterias independentes e algumas microtorrefações, que tiveram uma redução média de 76% em seus negócios no Brasil, com muitas tendo fechado suas portas. “Quem menos perdeu, nesse nicho, registrou queda de pelo menos metade de sua receita”, relata Silas Brasileiro, presidente do Conselho Nacional do Café (CNC). Nos supermercados, as vendas de café cresceram 35% em março, suprindo parte da queda no consumo que deixou de ocorrer nas cafeterias. “Olhando para o agro e, claro, para o nosso café, que tem o Brasil como grande provedor mundial, entendo que precisamos manter, internacionalmente, uma linha própria de condução e negociação com países e grupos de países” analisa Silas Brasileiro. “Digo isso porque o agro é o principal setor para a recuperação da economia.”

O café gera 8,4 milhões de empregos ao ano em toda a cadeia produtiva e, nesse cenário de milhares de demissões devido ao fechamento dos comércios, o grão eleva sua importância social e econômica em mais de 1.900 municípios do Brasil, pois sua colheita recoloca no mercado muitas dessas pessoas, permitindo que elas aqueçam os comércios locais e, principalmente, levem comida às mesas de suas famílias.

“O mundo sairá mais pobre e desigual da pandemia, exigindo enorme esforço de união das forças políticas” Marcello Brito Presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Crédito:Divulgação)

EXPORTAÇÕES Em janeiro e fevereiro, a receita cambial com as exportações do agronegócio sofreu com a diminuição das compras dos Países asiáticos e alguns europeus, que se ajustavam no combate ao coronavírus. Já em abril, a receita atingiu seu recorde histórico, rompendo os US$ 10 bilhões, cifra 25% superior à observada no mesmo mês de 2019. Um dos fatores que impulsionou o volume embarcado foi a retomada da China às compras após o controle parcial da pandemia da Covid-19 no País. Das 120 milhões de toneladas de soja que o Brasil deve produzir nesta safra, 77 milhões serão voltados para a exportação, sendo 66 milhões de toneladas para os chineses. “Esses números reforçam a importância da parceria comercial entre os dois Países e mostram sinais de aquecimento do mercado de grãos em meio à pandemia”, ressalta Bartolomeu Braz, presidente da Aprosoja.

A soja brasileira é a mais competitiva e sustentável do mundo. É a que possui o mais alto teor de proteína e óleo, o que resulta em mais eficiência para a produção de carnes. No Brasil, devido ao clima, é possível produzir de duas a três safras de grãos por ano, algo que não existe em outro lugar do mundo. “Apesar desses aspectos, que são alguns dos diferenciais da nossa competitividade, a rentabilidade do produtor tem sido achatada devido aos cada vez maiores custos de produção, principalmente com insumos como defensivos, sementes e combustíveis”, pondera Bartolomeu Braz. Na média, a saca da atual safra vendida antecipadamente ficou em torno de 80 reais. Em Minas Gerais a safra de grãos que está sendo colhida em 2020 também será recorde, segundo Ana Maria Valentini, secretária de estado de Agricultura e Abastecimento. Ela informa que o café também terá um resultado expressivo no estado, com a safra estimada em mais de 30 milhões de sacas.

“As medidas anunciadas pelo governo federal precisam de ajustes para que sejam, de fato, a favor do setor” Bruno Lucchi Superintendente técnico da CNA (Crédito:Divulgação)

Durante a quarentena ou saindo dessa situação, muitos países demandarão alimentos do Brasil. “E Minas Gerais poderá ocupar uma posição estratégica neste cenário, como importante fornecedor de proteína animal e de produtos de origem vegetal”, diz. “O momento é complexo e de muitas incertezas. A variação do câmbio vem elevando os custos de produção, e a valorização de algumas commodities agrícolas têm onerado as atividades da pecuária, aumentando os desafios para o setor.”

A Secretaria de Comércio Exterior do Ministério da Indústria e Serviços (SECEX) divulgou que nos cinco primeiros dias de maio, o Brasil exportou 53,5 mil toneladas de carne bovina in natura, com média diária de 10,7 mil toneladas e incremento de 89,31% se comparado com o ano anterior, que registrou uma média de 5,65 mil toneladas. A expectativa é ultrapassar 200 mil toneladas até o fim do mês e, se acontecer, será um recorde. Nenhuma unidade produtiva na área de bovinos foi paralisada no País por conta da pandemia.

Vários indicadores sinalizam que haverá um empobrecimento geral da média da população após a pandemia, levando o mercado a priorizar os produtos mais acessíveis e de melhor qualidade. É importante a diversificação na produção, tanto de produtos da pauta exportadora como para o mercado interno, para aumentar a resiliência dos sistemas produtivos. O Brasil terá a oportunidade de valorizar e aprimorar seu papel como produtor mundial de alimentos, respeitando os critérios de sustentabilidade. “No cenário pós-pandemia, a sociedade deverá priorizar a aquisição dos gêneros de primeira necessidade e o agronegócio terá uma missão na segurança alimentar da população do Brasil e de outras nações”, diz a secretária de Agricultura de Minas Gerais, Ana Maria Valentini.

O valor bruto da produção (VBP) agropecuária no País em 2020, apesar da pandemia, está calculado em R$ 697 bilhões pelo Ministério da Agricultura – R$ 7 bilhões a mais do que era previsto em março, e 8,6% superior ao de 2019. “O mundo está nos olhando. É muito importante mantermos o mercado neste momento e tratar bem os clientes quando estão frágeis. Esperamos que o Brasil saia da crise como um exportador ainda melhor e maior do que é hoje”, afirma Eduardo Sampaio, secretário do Ministério da Agricultura.

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