Edição nº 163 10.10 Ver ediçõs anteriores

Entrevista

O modelo de seguro rural deve ser simples e acessível ao produtor

Claudio Gatti

O modelo de seguro rural deve ser simples e acessível ao produtor

Wady Cury, presidente da Comissão de Seguro Rural da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg), fala sobre os desafios do setor e como seria possível melhorar o seguro rural

Cauê Vizzaccaro
Edição 08/10/2017 - nº 152

Nas últimas safras, nenhum tema tem sido mais espinhoso ao produtor do que o seguro rural. Plantar e colher com garantia parece quase uma miragem no campo. Isso porque, embora se fale muito sobre esse tema em eventos do setor e em salas de negociação com o governo, pouco se avançou para levar ao campo uma proposta de seguro que se encaixe no orçamento da gestão do negócio rural, dando tranquilidade para tocar lavouras, cultivar árvores ou criar o gado. Para essas atividades, o País utiliza cerca de 240 milhões de hectares, com quase nenhuma proteção. Nas últimas safras, o governo vem diminuindo a subvenção ao seguro, anunciando ou contingenciando os valores pré-determinados. Na safra passada, dos R$ 400 milhões iniciais apenas R$ 180 milhões chegaram aos produtores. Para a safra atual estão prometidos R$ 550 milhões. “É impossível dizer se haverá contigenciamento ou não por parte do governo”, afirma o engenheiro Wady Cury, presidente da Comissão de Seguro Rural da Federação Nacional de Seguros Gerais (CSR FenSeg), que há 36 anos atua no setor. Em entrevista à DINHEIRO RURAL, Cury disse que sem a subvenção podem aumentar as quebras de contratos e isso é um entrave às seguradoras.

DINHEIRO RURAL – Qual modelo de seguro seria ideal ao produtor rural?

WADY CURY – O modelo de seguro rural deve ser simples e acessível ao produtor. É bom ter em mente que o seguro agrícola tem uma tipificação diferente das demais modalidades, como a de saúde ou de automóvel. Esses modelos de seguros nascem em uma sala com ar condicionado e vão para fora. Mas o modelo de seguro rural deve ir do campo à sala com ar condicionado. As seguradoras precisam conhecer a cultura do produtor, a região no qual ele está inserido e como ele trata o seu negócio. Se não entendermos as demandas do agricultor, o produto oferecido pela seguradora não será eficaz. No caso dos grãos, se analisarmos essas culturas, 90% das perdas no Brasil ocorrem por causa de dois eventos climáticos: excesso de chuva ou falta dela. No restante, por exemplo, para as frutas ou hortaliças, os mais comuns são os ventos fortes, as geadas ou o granizo.

 

RURAL – Qual a avaliação que o sr. faz do seguro nessa última década?

CURY – Desde 2006, com o advento da subvenção do governo, o Brasil saiu de 1,5 milhão de hectares segurados em 20 culturas, para os atuais 12 milhões de hectares em 70 culturas. Houve uma conscientização muito grande do setor em uma década. E, se colocarmos nessa conta os segurados pelo Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro), apenas para pequenos e médios produtores, temos mais cerca de 8 milhões de hectares segurados. Uma década de seguro no Brasil foi escrita e precisamos planejar a próxima. Ainda temos muito a fazer.

Hoje, o agricultor não quer mais só o custeio. Ele quer o seguro de renda

Produtor desamparado: a subvencão ideal deveria ser de duas a três vezes o valor atual prometido pelo governo

RURAL – Seria possível o Brasil reproduzir o modelo de seguro rural americano, país no qual cerca de 90% da área plantada está segurada?

CURY – Hoje não, mas já foi tentado. O modelo americano é de 1955. Nessa época, o Brasil reproduziu o modelo americano e criou a Companhia Nacional de Seguro Agrícola. Foram emitidas poucas apólices e o seguro acabou extinto em 1966. Mas o governo americano vem aperfeiçoando o seu programa. Já em 1970, por exemplo, ele deixou de atuar como uma seguradora e terceirizou o serviço. O modelo americano precifica o risco, prepara os peritos para a inspeção e oferece às seguradoras um fundo de US$ 100 bilhões para catástrofes. Ou seja, o seguro trabalha essencialmente com a renda do agricultor. Não há crédito ou renda antecipada sem o seguro e o Estado fica proibido de socorrer quem não aderiu. Mas não adianta irmos lá e copiar novamente. Precisamos dar continuidade ao que já estamos fazendo.

 

RURAL – Qual deve ser o efetivo papel do governo?

CURY – O papel do governo é desenvolver a política agrícola. Passa pelo crédito, que é fundamental, e também pelas instituições de pesquisa, como a Embrapa e as universidades. Olhe o exemplo da safra 2015/2016, quando tivemos perdas de cerca de 20% em função do clima. O mercado segurador indenizou R$ 1,45 bilhão. Mas, somente na região do Matopiba, o governo precisou renegociar quase R$ 5 bilhões de dívida de crédito de produtores sem seguro. Quanto isso custa ao Estado? O seguro agrícola é um equalizador do orçamento da União. Acredito que, se o governo dispuser de R$ 1 bilhão para a subvenção, os agricultores podem fazer o seguro e não será necessário socorrer. Mas, como está, o governo fica com o orçamento todo em aberto. Atualmente, as renegociações de dívidas do passado custam R$ 8 bilhões por ano, ao governo. Hoje, vejo os agricultores pensando dessa forma: ‘o governo vai destinar quanto ao seguro rural? E quero a garantia de que terei este dinheiro’. Mas, atualmente, o produtor contrata o seguro e não sabe se terá a subvenção do governo.

 

RURAL – Qual seria o valor para a subvenção?

CURY – Para a próxima década, o setor avalia algo entre R$ 1,2 bilhão e R$ 1,5 bilhão. No entanto, a questão não é somente o valor monetário, mas como o governo distribuiria essa subvenção pelos grupos de atividades. Para grãos, a subvenção vai de 35% até 45%, dependendo do nível ou do tipo de cobertura. Já para as frutas, as olerícolas, o café e a cana-de-açúcar, ela é 45%. Há um dúvida aí. Deve-se dar a mesma participação a todas as culturas ou diversificar?

 

RURAL – Sem uma subvenção adequada, qual o maior desafio às seguradoras na safra 2017/2018?

CURY – O mercado tem respeitado a decisão dos segurados. Assim, o grande desafio tem sido manter o equilíbrio da carteira das empresas, quando há muitos cancelamentos em determinada região e em culturas. Isso porque a diversificação e a pulverização dos riscos são fatores essenciais no equilíbrio das carteiras de produtos comercializados pelas empresas. Felizmente, o que temos observado em safras passadas é que a maioria dos segurados acaba mantendo as suas apólices vigentes, em vez de cancelá-las por falta de subvenção.

 

RURAL – O mercado trabalha com a expectativa de contingenciamento na safra 2017/2018, como tem ocorrido nas safras passadas?

CURY – É impossível dizer se haverá contigenciamento ou não por parte do governo. Para o Plano Safra 2017/2018 estão previstos R$ 550 milhões para o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural. Tudo é incerto, mas o mercado espera que o orçamento deste ciclo seja mantido, já que não houve até agora qualquer indicação de que a verba total não estará disponível ao programa, como ocorreu na safra 2016/2017.

 

RURAL – Os produtores têm modificado a concepção que reina em parte do setor, de que o seguro rural é um gasto desnecessário?

CURY – Sim. Parte dos produtores que antes via o seguro como um custo, agora encara como um instrumento de gestão do negócio. Ainda há discussões sobre o produto e a produtividade. O criação do programa de subvenção foi um grande indutor da conscientização de que o seguro é um instrumento de gestão do risco. Tanto é verdade que hoje, de todas as apólices contratadas no campo, 40% já não contam com a subvenção federal.

 

RURAL – Como o sr. analisa a demanda por seguro de renda?

CURY – O seguro de renda, que é o faturamento, já é comercializado desde 2011. Ou seja, o produto já tem uma história. Neste ano estamos indenizando quase R$ 260 milhões, dos quais R$ 20 milhões são para a queda de preço. Nos primeiros cinco anos de subvenção do governo, o seguro contratado era somente para custeio. Mas hoje o agricultor não quer apenas o custeio, ele quer o seguro de renda. Isso é uma herança da primeira década e que deve crescer daqui para a frente.

 

RURAL – Nesta primeira década, desde a fundação da FenSeg, quais foram os ganhos levados ao setor rural?

CURY – Se olharmos os dados da federação, o único segmento que cresce constantemente é o rural. Comparando de janeiro a junho de 2015 com o mesmo período em 2016, todo o mercado cresceu 1,2%. Mas o setor agrícola cresceu 11,3% nesse período. No primeiro semestre de 2015, os sinistros totalizaram R$ 1,18 bilhão e caiu para R$ 803 milhões, uma redução de 32% em 2016.

RURAL – É adequado o novo formato da classificação do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), realizado pelo governo para a safra 2017/2018, onde há um maior detalhamento para os períodos de semeadura conforme o nível de risco, de 20%, 30% e 40%?

CURY – Ainda não. Como o zoneamento é um instrumento de gestão do crédito e de seguro agrícola obrigatório, no Centro-Oeste deixamos de pagar R$ 130 milhões na safra passada. Isso porque se plantou fora do Zarc, seja por data ou técnica, ou com sementes não certificadas. O Zarc foi criado em 1996 e é um instrumento de gestão de risco. Mas não atende todo o território nacional. Como exemplo, a região de Alegrete (RS), que produz mais de 100 sacas de soja por hectare, está fora do zoneamento. Por quê? Porque com o novo formato foi tirado o plantio de outubro e novembro na região. Este é o período onde o agricultor tem a maior produtividade, mas também a máxima probabilidade de incerteza climática. Outro exemplo: um município do Estado do Piauí tem como símbolo o cajueiro no portal de entrada da cidade. Pelo novo zoneamento, a região ficou impedida de plantar caju. O novo Zarc vai matar a economia do município? Atualmente, o que a Embrapa e o Mapa estão fazendo é tentar as correções de desvios como esses.

As seguradoras precisam conhecer a cultura do produtor

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RURAL – Como o desenvolvimento de novos produtos de seguros pode ampliar o mercado e melhorar a gestão no campo?

CURY – Acho que precisamos de uma provisão para as oscilações de risco. Em uma antiga conversa com o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, ele disse que o País precisava ter uma previdência privada para o produtor. Assim, em uma safra de muito lucro, o agricultor depositaria o ganho na previdência. No ano que ele tivesse prejuízo, poderia sacar o dinheiro livre de imposto de renda. Ele poderia salvar a sua atividade sem sustos.

 

 


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