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O novo ciclo de ouro

os produtores de látex do interior de são Paulo estão mostrando que o associativismo e o cooperativismo é o caminho para o setor competir com grandes produtores mundiais da commodity. Conheça as suas histórias

Crédito:  Cristiano Rodrigues Martins

APOSTA NA ÁRVORE: o empresário e agora produtor rural Delcir Pedrão plantou 50 mil seringueiras. Para tocar o negócio, ele foi em busca de parceria e informação e ajudou a fundar uma cooperativa (Crédito: Cristiano Rodrigues Martins)

Em 2005, o engenheiro Delcir Pedrão, diretor da Etemp Engenharia, empresa da área da construção civil na região de São José do Rio Preto (SP), decidiu investir no campo porque queria ter uma fonte de renda fora dos negócios urbanos. Filho de comerciantes, ele não teve dúvida do que fazer: comprou uma fazenda de 145 hectares no município de Bálsamo, a 30 quilômetros de São José do Rio Preto. Nos três anos seguintes, Pedrão modificou completamente o destino de suas terras. Em vez de manter a fazenda com os pomares de laranja que estavam em produção na época, ele arrancou tudo e no lugar plantou 42 mil pés de seringueira. Nos anos seguintes, realizou mais dois plantios de 12 mil árvores. Hoje, de uma floresta de 50 mil seringueiras, 30 mil já estão em início de produção de látex. “A borracha é uma cultura de longo prazo e planejei meu negócio com essa perspectiva”, diz ele. “O Brasil precisa da nossa matéria prima.” Mas não é somente isso. Pedrão, hoje com 59 anos, apostou em um alvo, a borracha natural, e acertou em dois alvos. Agora, as suas terras valem como ouro. Na época, um hectare formado com pastagem e sem benfeitorias custava cerca de R$ 30 mil na região. Hoje, terras como as de Pedrão, com seringais formados, estão valendo cerca de R$ 80 mil o hectare. Ou seja, por baixo, sua fazenda está avaliada em pelo menos R$ 11,6 milhões. “Mas as minhas terras não estão à venda”, afirma Pedrão. “Porque elas não têm preço e porque faria tudo igual, novamente, para chegar onde quero.” Na safra 2017/2018, que termina em agosto, a meta é colher 120 toneladas de borracha seca, mas, em 2025, quando os plantios mais recentes estiverem em plena atividade, a previsão é de 230 toneladas de borracha seca.

“A borracha é uma cultura de longo prazo e planejei meu negócio com essa perspectiva” delcir Pedrão, engenheiro e produtor de seringueira em Bálsamo (SP)

A indústria de artefatos de borracha movimenta esse mercado, com destaque para a fabricação de pneus. No Brasil são fabricados 68 milhões de unidades por ano. Os dados mais recentes mostram que desse total o País exportou 15,5 milhões de unidades, por US$ 1 bilhão.

“O Brasil pode se tornar um produtor competitivo, como foi no passado” (Crédito:Marcos Pinto/Divulgação)

Para atender gigantes globais, como a americana Goodyear, a francesa Michelin e a italiana Pirelli – clientes da indústria automobilística local, um setor que fatura cerca de US$ 140 bilhões por ano –, nas duas últimas décadas o País começou uma corrida para colocar a borracha natural em posicão de destaque no mapa da produção de commodities.

Dessa vez, com uma diferença: os produtores querem mostrar que borracha de qualidade é feita no Brasil. Eles estão se preparando para uma história bem diferente daquela do tempo em que a árvore era símbolo nacional do extrativismo na floresta Amazônica, em um ciclo do final do século 19 e outro durante a segunda Guerra Mundial, onde apenas o volume importava. Por isso, essa corrida, principalmente na última década, tem ganhado contornos diferentes. O Brasil não produz borracha natural em quantidade para ditar o ritmo do mercado global, como vem ocorrendo nos últimos anos, com o preço sob preção internacional. Isso é fato. Da atual produção mundial, de 12,7 milhões de toneladas em 2017, o País participa com cerca de 1,5% da produção colhida em 300 mil hectares de florestas plantadas. O volume é estimado em cerca de 150 mil toneladas pela Associação Paulista dos Produtores e Beneficiadores de Borracha (Apabor), entidade que representa o Estado que mais produz no País, e 200 mil toneladas, de acordo com o IBGE. No mundo, quem manda nesse mercado é a Tailândia, com 4,3 milhões de toneladas; a Indonésia com 3,2 milhões, e o Vietnã, com 1,1 milhão. Por conta desse domínio, são eles que ditam os preços globais da commodity. O Brasil não consegue ter voz na precificação da borracha justamente porque importa mais da metade da atual demanda da indústria. Nos últimos anos, desde 2013, ela tem ficado acima de 400 mil toneladas.

UM POR TODOS: Diogo Esperante, diretor da Apabor (à esq), e Wanderley Sant’Anna, presidente (no centro), acreditam que o modelo de gestão da Hervea Forte, coordenado por Nilson Troleis, pode levar o setor da borracha a ser mais competitivo da porteira para dentro (Crédito:Divulgação)

Para Wanderley Sant’Anna, presidente da Apabor, entidade com 650 associados, para fazer frente aos gigantes produtores mundiais, o trabalho de organização da cadeia precisa entrar em uma nova etapa, e ela é demorada. O ciclo da borracha, entre o plantio e a plena produção de uma árvore, demanda dez anos. Mas, para um mercado ávido por produto de qualidade, o Brasil pode trilhar esse caminho. Até 2025, o mundo vai precisar de 15,6 milhões de toneladas de borracha, ante uma previsão de produção da ordem de 15,4 milhões. “Aço, petróleo e borracha são essenciais para o desenvolvimento de uma nação, de sua indústria”, diz Sant’Anna. Além disso, o cultivo e a coleta da borracha depende de muita mão de obra. No País há cerca de 25 mil produtores que geram 80 mil postos de trabalho no campo. Em geral, a coleta é feita em parceria com agricultores, que ficam com uma parte da produção de uma fazenda.

O atual desafio está em harmonizar essa caminhada nos próximos anos. “É bom não nos esquecermos de que o futuro da borracha acontece devagar porque não há atalho para crescer”, afirma Sant’Anna. “Mas o cooperativismo está mostrando o caminho e nós temos um modelo que pode ser multiplicado.” Sant’Anna se refere à Hervea Forte, cooperativa com sede no município de Monte Aprazível (SP), que reúne 24 produtores em um raio de 200 quilômetros de São José do Rio Preto. Em junho, a cooperativa completa 10 anos. Hoje, em cinco mil hectares os cooperados possuem 2,5 milhões de árvores plantadas, das quais 900 mil já estão produzindo látex que pode ser rastreado do campo até a indústria, o que tem garantido bônus aos produtores.

O engenheiro Pedrão é um dos cooperados da Hervea Forte. “A cooperativa me deu apoio e assistência no início, e, mais do que isso, agora está organizando a venda da borracha”, diz ele. “Em conjunto, é mais fácil fazer a lição de casa para produzir com qualidade.”

De acordo com o agrônomo e coordenador da Hervea Forte, Nilson Troleis, a média de produção dos cooperados é de 1,6 mil quilos de borracha seca por hectare, ante a média nacional de 1,3 mil. “Com as árvores adultas em plena produção, em dois anos a média dos cooperados deve subir para 2,3 mil quilos por hectare-safra.” Desde o seu nascimento, o objetivo da cooperativa era implantar um novo modelo de gestão para ter o controle e a qualidade de cada árvore explorada. Não apenas Pedrão, mas o grupo todo conseguiu fazer a lição de casa. Hoje, um software gerencia a produção diária de cada talhão, em todas as propriedades. “Nós acreditamos que a briga está da porteira para dentro e é lá que o setor da borracha pode dar seu grande salto”, afirma Troleis. “Se organizamos a produção, o setor deslancha.” No ano passado, a cooperativa produziu 3,6 mil toneladas de borracha seca (6,3 mil toneladas em coágulos, no campo), das quais 2,2 mil toneladas ficaram com os cooperados e 1,4 mil com os parceiros.

Rastreada e valorizada, toda a produção dos cooperados da Hervea Forte vai para a usina Braslátex, também no município de Bálsamo, que pertence ao conglomerado Rodobens, grupo que atua nas áreas de consórcios, construção e serviços financeiros. O grupo, que tem como um de seus sócios Márcio Anisio Haddad, também produtor de borracha e diretor da Apabor, investiu R$ 5 milhões para aumentar a capacidade de beneficiamento. As obras, em fase final, estão elevando a capacidade para até 50 mil toneladas de borracha por ano. Em 2017, entre a Braslátex e a Romabor, uma prestadora de serviço, o grupo faturou R$ 140 milhões com o processamento de 20 mil toneladas de látex. Além da cooperativa, 400 propriedades da região são fornecedoras de matéria-prima, com 1,2 mil seringueiros. Para Adiel Carvalho, diretor da Braslátex que está há 20 anos no grupo, o principal desafio do setor é ter qualidade em escala. “Um produto precisa ter viscosidade e elasticidade”, diz Carvalho.

“São duas características que impactam a qualidade do produto final do nosso cliente, no caso a indústria de pneus”. Hoje, o maior cliente da Braslátex é a americana Goodyear.

QUALIDADE Borracha de qualidade, para a indústria de pneus, significa um produto sem sujeiras, bem estocado antes de ser enviado às usinas de beneficiamento, e limpo de folhas mortas e de terra. O presidente da Michelin América do Sul, Nour Bouhassoun, disse que a empresa compra toda a produção de qualidade que encontrar no País, inclusive a do interior paulista.

“Somos os maiores compradores de borracha do mundo”, diz Bouhassoun. No Brasil, a Michelin mantém duas fábricas de pneus e uma fazenda no município baiano de Igrapiúna. A fazenda tem quatro mil hectares de seringais explorados por três mil famílias e funciona como um laboratório de pesquisa de novas variedades e de manejo das árvores. Bouhassoun afirma que a cadeia produtiva poderia estar melhor, se houvesse no País uma política de setor para a borracha. “Como existe para a carne, a soja ou o milho”, diz ele. “O Brasil pode se tornar um produtor competitivo e organizado. Nós, da indústria, queremos comprar ainda mais.”

Diogo Esperante, diretor executivo da Apabor, diz que o setor não está parado. Há três anos foi criada a associação brasileira, a Abrabor, que reúne produtores de São Paulo, Tocantins, Minas Gerais, Bahia, Goiás, Espírito Santo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. O primeiro projeto foi a elaboração de um serviço de cotação para o látex. “Precisamos agora de um estudo de cadeia”, diz Esperante. No mercado de consultorias, um serviço de mapeamento e potencialidades não sai por menos de R$ 200 mil. O que os diretores da Apabor pregam é que a borracha precisa de um movimento semelhante ao ocorrido com a cana-de-açúcar, ao conseguir do governo a aprovação do projeto RenovaBio, uma orientação de futuro para as políticas da cadeia produtiva. “Nós já somos organizados, o que falta é atenção ao setor”, diz Esperante. A mesma atenção que os países vizinhos começam a ter para com o Brasil, entre eles México, Guatemala e Colômbia.” No ano passado, por exemplo, a Guatemala importou látex centrifugado, um tipo específico, pela primeira vez. Esperante afirma que a explicação está na facilidade de comércio regional, o que é uma oportunidade de formação de um polo latino de produção, e que as fabricantes de pneus já estão de olho nessa expansão. “Uma carga da Ásia para o Brasil demora cerca de 60 dias para desembarcar, ao preço de US$ 1,2 mil de frete por contêiner”, afirma ele. “Do Brasil para a Colômbia são 25 dias, por US$ 500.”

Mas, a explicação para essa atenção sobre o setor da borracha não está somente na logística mais fácil. As experiências de cooperativismo e associatismo podem servir de modelo, e não apenas para os países vizinhos. No ano passado, Esperante esteve quatro vezes na Ásia para mostrar como ocorrem as parcerias entre produtores e seringueiros. “Mostrei como funciona a Hervea Forte e como as entidades, com poucos recursos, têm se mantido ao lado dos produtores”, diz ele. A diferença do Brasil com os países asiáticos está na gestão do conhecimento. Os asiáticos investiram em variedades de plantas, em formação de bancos de germoplasma, mas se esqueceram da mão de obra no campo. Não por acaso, esses países são frequentemente acusados do uso de trabalho análogo a escravo, trabalho infantil e exploratório do ponto de vista de renda. “A Ásia possui tecnologia, mas tem instabilidades que dificultam muito o seu repasse”, diz Esperante. “É por isso que o Brasil pode ser o primeiro em qualidade, o que significa uma melhor remuneração na cadeia.”

Na gestão pregada pela cooperativa Hervea Forte a formação dos seringueiros que fecham parceria com os cooperados tem sido um das principais moedas de valor. Nos últimos cinco anos, 700 pessoas já passaram pelos cursos de sangria de árvores, dos quais 280 são parceiros em seringais da cooperativa. “Um casal de agricultores pode ter uma renda mensal de cerca de R$ 4 mil”, diz Esperante. O modelo de formação continuada tem se espalhado. O Mato Grosso do Sul, um dos mais jovens produtores de borracha do País, é um exemplo.

Na chamada Costa Leste, região vizinha ao Estado de São Paulo e de Goiás, onde estão sete municípios com 22 mil hectares, a primeira safra cheia para a coleta do látex foi a do ano passado. Na região, o setor precisa formar mão de obra. A região possui 114 produtores e 11 milhões de árvores. A Associação dos Produtores de Borracha de Aparecida do Taboado (Aprobat), que caminha para se tornar uma entidade estadual, tem formado cerca de 70 pessoas por mês. No ano passado, 350 pessoas fizeram o curso de sangrador, que leva três dias. Eduardo Antonio Sanchez, 52 anos, presidente da entidade e do sindicato rural do município, diz que o Estado precisa correr contra o tempo porque já está importando mão de obra de Estados vizinhos, como São Paulo. “A borracha ainda não faz parte do conjunto de negócios do Estado”, diz Sanchez. “Mas é uma questão de tempo.”

Hoje, um casal de seringueiros pode ganhar até R$ 6 mil sangrando árvores, mas a média na região está em R$ 3,5 mil. A paulista Mara Isa dos Santos, 29 anos, e o seu marido Dionilton, 34 anos, se mudaram para Aparecida do Taboada há um ano.

Eles são seringueiros há 13 anos. Mara foi uma das que fizeram o curso da Aprobat. O casal trabalha na propriedade do empresário paulista Paulo Rocha de Freiria, que plantou um seringal de 64 mil árvores. Hoje, o casal ganha R$ 3 mil. Mas Mara diz que é só que o começo e que um trabalho urbano lhe traria menos benefícios e perspectiva de vida. “Vou ganhar mais, quando mais árvores entrarem na fase adulta”, diz ela. “Sempre preferi o campo porque penso no futuro. E para mim ele está no seringal. Aqui, não trabalho apenas para comer.”