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 O que os satélites têm a ver com o crédito rural?

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Rafael Coelho é CEO da Agronow (Crédito: Divulgação)

Você pode até não ter se dado conta, mas estamos em meio a uma nova corrida espacial.

Ao contrário dos tempos da Guerra Fria, perdeu força a obsessão por dominância geopolítica. Os países agora colaboram entre si e o setor privado se lançou na indústria para, a partir do espaço, explorar novos negócios aqui mesmo na Terra.

Agradeça aos satélites quando o Waze indicar seu caminho, assistir ao vivo pela TV um jogo da Champions League ou mesmo, veja só, conseguir a liberação de um crédito rural.

Enquanto ampliar a compreensão e as fronteiras do espaço sideral segue como tarefa dos cientistas, viagens espaciais, serviços de telecomunicações e o lançamento de satélites para monitoramento remoto e observação terrestre estão cada vez mais sendo assumidos por operações privadas com players que vão da badalada SpaceX, de Elon Musk, a milhares de startups mundo afora produzindo soluções a partir dos dados coletados por satélites.

Estudo recente divulgado pelo Morgan Stanley indica que essa indústria pode atingir US$ 1,1 trilhão ou mais de faturamento global até 2040, partindo dos atuais US$ 350 bilhões. Um salto astronômico. Para o mercado de satélites dedicados à observação terrestre, a empresa de consultoria Euroconsult prevê um crescimento de 9,4% ao ano até 2028. De acordo com a firma de VC nova-iorquina Space Angels, entre 2009 e 2018 foram investidos quase US$ 20 bilhões em startups de todos os tipos que atuam no mercado de satélites.

Colheita Via Satélite?

Muito tem se falado a respeito de financiamento a empresas durante a pandemia e um dos setores sensíveis continua sendo o crédito rural, que sempre esteve concentrado nas mãos dos grandes bancos e dos fornecedores de insumos agrícolas e era inacessível para produtores que não conseguissem apresentar garantias reais, como provas do atual estágio da lavoura e o que estava plantado naquela área.

Sabe como é realizada a análise para concessão de crédito ao produtor rural?

Dados, é claro. Sempre eles. O produtor informa qual a área plantada, qual a cultura, em que estágio está a plantação, qual a previsão de colheita e várias outras informações essenciais para avaliação do risco de financiamento.

Até pouco tempo, a checagem costumava ser feita exclusivamente comparando imagens do Google Earth, enviando pessoas ao local ou nem isso, para fazer um cálculo por aproximação com base em dados genéricos de órgãos governamentais para aquela região específica.

Hoje é diferente. Há uma revolução tecnológica no campo que está mudando profundamente o mercado de crédito. As agfintechs coletam uma quantidade massiva de dados a partir da observação por satélite das lavouras.

Com isso, disponibilizam informações mais precisas e seguras que implicam num score de crédito mais confiável, risco menor para quem empresta, juros mais baixos para o produtor e, no final da cadeia, eventualmente, custo mais baixo ao consumidor.

Dependendo da composição de bandas que é feita, é possível enxergar não apenas quais os talhões de uma fazenda têm safras plantadas, mas também calcular o nível de umidade do solo e a quantidade de água na planta. Os dados são disponibilizados com bastante frequência (diariamente até mensalmente, dependendo do satélite), o que é praticamente em tempo real para esse mercado.

Com base nestas informações e o uso de inteligência artificial, é possível fazer projeções mais confiáveis a respeito do histórico de retração ou expansão de uma lavoura dos últimos anos com uma confiabilidade maior que 90%.

Informações com esse nível de detalhe servem para ajudar o mercado na tomada de decisão. Seja o banco na hora de determinar o score de crédito do produtor, uma trading que está na dúvida se deve ou não comprar uma determinada quantidade de soja, milho ou cana ou até mesmo se uma operação de barter (empréstimo a ser pago com a própria safra futura) é segura.

O céu (não) é o limite

O mercado está entrando em um ciclo virtuoso, já que na medida em que cresce a procura por satélites comerciais, mais empresas lançam objetos espaciais com novas soluções e podem recuperar o investimento mais rápido, o que faz crescer em quantidade e qualidade os serviços de análise dos dados.

Isso se reflete na redução do custo cobrado de quem utiliza o serviço, como é o caso das agfintechs. Nos últimos anos, o preço das imagens reduziu drasticamente.

Além da Airbus, atuam nesse mercado espacial diversas empresas, como, por exemplo, Planet, Maxar (antiga Digital Globe), JAXA, Kompsat, Ice Eye, Spire, Axel Space, a argentina Satellogic e até uma das pioneiras da ida do homem ao espaço, a NASA.

A nova corrida espacial, portanto, pode ter como ponta de lança planos futuristas como levar o homem a explorar Marte e outros cantos do universo, mas seu foco principal é colocar em órbita constelações de satélites para coletar gigantescas quantidades de dados e resolver problemas “mundanos”, como o cobiçado crédito agrícola.

* Rafael Coelho é CEO da Agronow

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