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O rio está para peixe

Mesmo com a pandemia, o setor de piscicultura apresentou crescimento de 5,93% em 2020, alcançando 802,9 mil toneladas. Apesar da liderança da tilápia no ranking de vendas, os peixes nativos podem ser uma promessa para o setor que pode crescer mais de 10% no ano

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A tilápia é o carro-chefe das exportações brasileiras US$ 10,3 milhões (Crédito: ISTOCK)

O Brasil é um país abundante em águas. Ao todo, são 8 mil quilômetros de costa marítima e mais de 5 milhões de hectares de reservatórios de água doce. Com o ambiente propício, o País começa a conquistar bons resultados na piscicultura. Em 2020, o setor fechou o ano com crescimento de 5,93%, alcançando as

802,9 mil toneladas de peixes de cultivo, segundo a Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR). A liderança é da tilápia com 486,1 mil toneladas; seguido de nativos como tambaqui, matrinxã e pacu (278,7 mil toneladas) e outras espécies, dentre as quais a carpa (38,1 mil toneladas). Os principais produtores são o Paraná, 172 mil toneladas; São Paulo, 74,6 mil toneladas; e Rondônia, 65,5 mil toneladas.

Uma das maiores preocupações dos produtores é o aumento de custos de insumos devido aos preços em dólar (Crédito:Divulgação)

Assim como para grande parte da indústria, o ano de 2020 foi de baixas e ligeira alta. O primeiro semestre foi marcado pelas consequências da pandemia. Dias antes da Semana Santa, considerada o “Natal da Piscicultura”, o mercado se deparou com o fechamento de feiras livres e de food services. Somado aos problemas logísticos, o consumo interno chegou a cair 30%. “Foi preciso refazer planos, ajustar custos e redobrar a atenção”, afirmou Francisco Medeiros, presidente executivo da Peixe BR. No segundo semestre, a surpresa. Com campanhas criadas a favor da proteína, o consumo interno voltou a crescer. “O consumidor experimentou, gostou e passou a consumir em casa, principalmente a tilápia”, disse Medeiros. As exportações foram melhores. A tilápia foi o carro-chefe, representando 88% dos US$ 11,2 milhões faturados, somando cerca de US$ 10 milhões, já o curimatás, US$ 602,8 mil e o tambaqui, US$ 562,8 mil.

VARIEDADES A produção brasileira de tilápia cresceu 12,5% em comparação com 2019, com participação de 60,6% do total produzido no Brasil. Seu sucesso se explica pelo curto ciclo de produção, boa rentabilidade ao produtor e fácil comercialização. “O mercado de tilápia é mais estável, já que esse peixe costuma ser vendido em filé e é de fácil preparo”, disse Medeiros. Na contramão das vantagens, os custos preocupam produtores como Nicolas Landolt, fundador e CEO da Tilabras, que cultiva a espécie no lago da usina Jupiá, no Rio Paraná. “O preço dos insumos para as rações está aumentando quase quinzenalmente”, afirmou.

O sucesso da tilápia se explica pela fácil comercialização, curto ciclo de produção e boa rentabilidade (Crédito:Divulgação)

Em 2020, a empresa de Landolt produziu 5 mil toneladas, e em 2021, pretende ultrapassar as 8 mil toneladas. “Por enquanto o custo excedente está sendo repassado, mas não sei até quando”, disse Landolt. No ano passado o preço médio do quilo da proteína inteira chegou a R$ 14,44, e do filé ultrapassou os R$ 35. Atualmente o País é o quarto maior produtor da espécie, ficando atrás apenas da China (1,5 milhão de toneladas), Indonésia (1,3 milhão de toneladas) e Egito (940 mil toneladas).

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Espécies nativas, como tambaqui e matrinxã, produzidas principalmente no Norte do País, recuaram 3,2% em 2020. O fraco desempenho é explicado pela defasagem de investimentos e falta de regras ambientais claras nos principais estados produtores. Dificuldades de logística e problemas de comercialização também colaboraram, além de uma demanda regional bastante alta, conforme explica Aciole Castelo Branco Maués, proprietário da Taj Mahal Piscicultura, no Amazonas: “mesmo a Taj Mahal sendo uma das maiores produtoras do estado, só conseguimos atender 30% da demanda da região”. A empresa produz cerca de 135 mil toneladas de tambaqui em um ano e 135 mil toneladas de matrinxã no outro, intercalando duas safras. Já o comércio de outras espécies somadas – carpa, truta e pangasius – registrou crescimento de 10,9%.

EXPECTATIVA Para esse ano, os resultados tendem a ser melhores. “Nós ainda estamos no começo do ano, mas posso garantir que o setor cresce mais de 10% no mercado interno e dobra de tamanho nas exportações”, afirmou o presidente da Associação. A tilápia ainda prevalece como uma tendência, para ele, porém, os peixes nativos são uma grande promessa. Mas, há uma pulga atrás da orelha e ela tem nome: rentabilidade. “As margens serão inferiores ao do ano passado, pois houve aumento significativo nos insumos de ração, e não podemos repassar o custo a todo momento para o consumidor”, disse Medeiros.

Incentivo à aquicultura

Em dezembro de 2020, o governo federal publicou o Decreto nº 10.576, que desburocratiza a transferência de uso de águas da União para a prática da aquicultura. O objetivo é agilizar os processos de cessão e regularizar a situação dos produtores. Pelo decreto, a responsabilidade pela análise e fiscalização dos reservatórios para a cessão, antes do Ibama, passou a ser da Secretaria de Aquicultura e Pesca (Sas) do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). A União também pode passar aos Estados a gestão dos parques aquícolas. “O produtor continuará tendo que obedecer ao licenciamento ambiental e continuará sendo permitida apenas a criação de espécies autorizadas em ato normativo do Ibama”, disse Juliana Lopes, coordenadora geral de Ordenamento e Desenvolvimento da Aquicultura em Águas da União do Mapa.