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O solo, a nova fronteira da sustentabilidade agrícola

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Sergio Luiz de Almeida é Engenheiro Agronômo (ESALQ, USP) com pós-graduação em Proteção de Plantas (UFV/ABEAS) e Entomologia Urbana (Unesp/IB). Atualmente é Gerente Técnico e de Regulamentação na Plant Health Care Brasil (Crédito: Divulgação)

Quando contemplamos uma paisagem agrícola, ficamos impressionados com o verde dos cultivos e com o azul do horizonte e damos pouca atenção ao solo que nos cerca.

O solo é vida. Hoje sabemos que um grama de solo possui cerca de um bilhão de bactérias, um milhão de actinomicetos e 100 mil fungos, representando entre duas mil a 8,3 milhões de espécies de microrganismos e toda a diversidade ecológica e genética que isso implica.

A biomassa viva do solo representa apenas de 1%  a 5% da matéria orgânica do solo, mas é a principal responsável pelo seu funcionamento, influenciando não apenas a sustentabilidade de sistemas agrícolas, mas também as funções ecológicas e os serviços ambientais que esse solo oferece.

Um exemplo dos serviços ambientais proporcionados pelo solo é o sequestro de carbono da atmosfera. Para retirar o excesso de carbono despejado por fábricas, motores de automóveis e caminhões e diversos outros processos, várias tecnologias têm sido desenvolvidas, mas não chegam aos pés da importância e dimensão do papel desempenhado pelo solo. As plantas capturam o CO2 da atmosfera e ao terminar o seu ciclo de vida o depositam no solo ao serem decompostas e transformadas em matéria orgânica. Quando as entradas de resíduos culturais são maiores do que as saídas de carbono do solo, esse processo contribui para amenizar os problemas causados pelos gases de efeito estufa, como nenhuma outra tecnologia desenvolvida pelo homem.

Através do correto manejo do solo e sistemas de produção, o produtor não apenas aumenta seus níveis de produtividade e, em consequência, sua renda no campo, como também possibilita que o solo cumpra efetivamente seu papel como provedor de serviços ambientais essenciais à vida.

Segundo a FAO, para alimentar 10 bilhões de pessoas em 2050, teremos que aumentar em 70% a produção de alimentos. Ignorar o potencial produtivo de um solo sadio e o manejo integrado dos sistemas agrícolas significa perder competitividade e flertar com um futuro não sustentável.

Atualmente, novas tecnologias a laser, desenvolvidas pela Embrapa, permitem quantificar o carbono no solo e avaliar sua estabilidade de maneira rápida e barata. Além disso, a Embrapa desenvolveu uma metodologia de bioanálise do solo que permite quantificar o microbioma através do uso de bioindicadores (enzimas arilsulfatase e β-glicosidase), possibilitando ao produtor monitorar a “saúde” de seu solo em complementação às análises físico-químicas tradicionais.

Políticas nacionais como a Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio), para o setor de combustíveis no Brasil, em vigor desde o final de 2019, começam a estabelecer metas nacionais anuais de descarbonização e farão crescer inevitavelmente o mercado de títulos verdes. A Copersucar recentemente concluiu a certificação de todas as suas 34 usinas associadas, que podem gerar até 6 milhões de Créditos de Descarbonização (Cbios) por ano ou um faturamento adicional anual de 90 milhões de reais ao grupo. Da mesma forma, sete unidades do Grupo Tereos (800 mil Cbios) e duas unidades da Usina Santa Isabel (200 mil Cbios), dentre outros, já se adequaram às exigências para a comercialização desses créditos ambientais.

Empresas de insumos agrícolas também começam a incluir incentivos ambientais em seus portfólios. A Bayer e a Embrapa, por exemplo, formalizaram recentemente uma parceria público-privada para investir em ações de pesquisa para viabilizar a remuneração de produtores de soja e milho pelos benefícios ambientais produzidos com a diminuição das emissões de gases de efeito estufa. O projeto piloto envolve cerca de 500 produtores em 14 estados e cerca de 60.000 hectares e um investimento de 5 milhões de Euros, ao longo de três anos no Brasil.

Outras empresas, como a Cofco International, que pretende rastrear 100% da soja proveniente das fazendas do Brasil até 2023, eliminando os desmatadores de sua cadeia de fornecimento, exigirão cada vez mais a adequação do produtor à proteção à biodiversidade e ao clima do planeta.

Apesar da grande expansão e modernização do agronegócio brasileiro, o produtor ainda enfrenta muitos desafios, como solos degradados e deficiência hídrica. Está na hora de colocar um pouco mais de atenção a esse recurso básico e investir no potencial biológico do solo. Vale lembrar, nesse momento, o lema centenário da Revista “O Solo”, do Centro Acadêmico “Luiz de Queiroz”, da ESALQ/USP – “O solo é a Pátria, cultivá-lo é engrandecê-la”, de 1910. Em uma releitura, poderíamos dizer, em um sentido amplo e atual, “O solo é a Pátria, conservá-lo é engrandecê-la”.

* Sergio Luiz de Almeida é Engenheiro Agronômo (ESALQ, USP) com pós-graduação em Proteção de Plantas (UFV/ABEAS) e Entomologia Urbana (Unesp/IB). Atualmente é Gerente Técnico e de Regulamentação na Plant Health Care Brasil.

 

 

 

 

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