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Os artesãos do nelore

Como os criadores que herdaram rebanhos da raça mais popular do País se inspiram nas histórias dos pioneiros para fazer a pecuária do futuro.

Cadê o meu notebook, Eduardo?”, pergunta Fernando Penteado Cardoso. “Não sei pai, serve o iPad?”, responde o filho. “Lógico que serve, preciso mostrar uns dados importantes sobre a produção do nelore.” A conversa acima, entabulada numa manhã de maio, na fazenda Mundo Novo, em Uberaba, no Triângulo Mineiro, seria considerada trivial se não fosse por um detalhe: Fernando Penteado Cardoso, fundador de uma das principais marcas de fertilizantes do País, a Manah, completa um século de vida no próximo dia 19 de setembro, em plena forma, antenado com o mundo dos negócios e com a tecnologia, como sempre. Além de criador de gado nelore de primeira, Cardoso é presidente da Fundação Agrisus, de apoio à pesquisa e educação no campo. 

Naquele dia, depois de ter destrinchado tabelas e gráficos sobre produção de carne, tecido comentários sobre bem estar animal e contado saborosas histórias sobre criadores de gado por horas a fio, todas elas com uma riqueza de detalhes de dar inveja a um jovem de 20 anos, e de ter feito uma típica refeição, com carne, arroz, feijão e salada, Cardoso dedicou-se a fazer o que mais gosta em suas idas à fazenda, situada a 40 quilômetro de distância do centro de Uberaba: ver o gado no pasto. Na camionete de cabine dupla, um dos principais clãs do nelore passava de pasto em pasto: Eduardo e Fernando, nos bancos da frente, e no de trás, Fernando Cardoso Filho, Fernando Cardoso Neto e Fernando Cardoso Bisneto, quatro gerações de pecuaristas ligados à mais importante raça bovina do País. “Nossa pecuária, baseada no zebu, é a prova de que conseguimos entender o que é criar gado para produzir carne”, diz Cardoso.

O criador, que possui um rebanho de cinco mil nelores, nunca cruzou seus animais com os de outras fazendas, desde que o adquiriu da família Lemgruber em 1974. O chamado nelore Lemgruber se mantém puro desde 1878, ano em que Manoel Ubelhart Lemgruber, um empresário do Rio de Janeiro, conheceu o gado de origem indiana trancafiado em uma jaula de zoológico, numa visita à Alemanha. Com a intenção de formar um rebanho, Lemgruber comprou um bezerro. “Naquela época, o criador trouxe ao País o bezerro e seu tratador indiano, pois ele se recusava a deixar sozinho o gado, que é considerado sagrado na sua cultura”, diz Hugo Prata, diretor do Museu do Zebu, que pertence à Associação Brasileira de Criadores de Zebu (ABCZ). A família Lemgruber ainda cria nelore no Rio de Janeiro,mas a marca pertence a Cardoso. 

Desde os primórdios da história da pecuária no País, ainda no século 18, foram importados cerca de sete mil zebuínos indianos, dos quais a maior parte da raça nelore. Ao mesmo tempo, entraram no Brasil 700 mil animais de gado originário da Europa. A despeito do contingente reduzido de zebu importado, sua influência é inegável na pecuária brasileira: calcula-se que pelo menos 80% dos 209 milhões de bovinos que compõem o rebanho nacional têm em suas veias sangue do gado originário da Índia. Desse total, a estimativa é de que 144 milhões sejam de nelore, entre animais puros, em seleção e também o gado comercial, o chamado anelorado. “É muito fácil mostrar o zebu como o cartão-postal do País, porque contra fatos os argumentos contrários se calam”, diz Cardoso. Prata, que passou dois anos compilando dados da pecuária no País, lançou no mês passado, durante a Exposição Internacional de Gado Zebu (Expozebu), em Uberaba, um dos trabalhos mais completos sobre os primórdios da criação de gado em terras brasileiras, que compreende desde o século 16 até a década de 1930, chamado Zebu – Visionários e Pioneiros. Prata desfia um rosário de nomes. 

Para ele, é preciso destacar, além do pioneiro Lemgruber, nomes como Vicente Rodrigues da Cunha, Ângelo Costa, Alberto Parton, Alaor Prata, Armel de Miranda, João Martins Borges, Manoel de Oliveira Prata e Theófilo Godoy. “Nos dias atuais não há rebanho de zebu no País que não tenha o dedo desses pecuaristas, que foram à Índia comprar os primeiros plantéis”, afirma Prata. Esses sobrenomes formam o pelotão de elite da pecuária nacional. Dificilmente se verá algum animal com sua marca sendo abatido num frigorífico. Seletivos, eles não produzem animais em massa para o abate. Sua especialidade é gerar gado de alta linhagem, matrizes e touros, que serão utilizados como reprodutores pelos fornecedores da indústria da carne. Em outras palavras: os animais superiores que saem de suas fazendas são uma espécie de bens de capital da pecuária. Se fosse na indústria, seriam máquinas que produzem outras máquinas. 

Do nelore pioneiro, além das marcas Lemgruber e VR, iniciais do nome de Vicente Rodrigues, a pecuária brasileira possui algumas dinastias de criadores da raça que resistem ao tempo com trabalhos de melhoramento genético exemplar. Entre elas estão a Cachoeira 2C, de Celso Garcia Cid, no Paraná, e a Brumado, de Rubens Andrade de Carvalho, no interior de São Paulo. Com exceção da marca Lemgruber, os demais foram os responsáveis pelas importações de gado zebu da Índia, entre os anos de 1960 e 1962, que mudaram a cara do rebanho nacional nos últimos 50 anos, ao trazerem para o País animais mais produtivos do que o nelore criado em anos anteriores. De lá para cá, o segredo desses clãs tem sido olhar para trás e saber adaptarse aos avanços da pesquisa e da seleção genética. “O nelore está na base da história da pecuária nacional e também em seu futuro”, diz José  Carlos Prata Cunha, pecuarista em Araçatuba, no interior paulista, filho de Torres Homem e neto de Vicente Rodrigues da Cunha. A marca VR completa 100 anos no próximo mês de julho. 

De acordo com a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), o País está a caminho de produzir 14 milhões de toneladas de carne bovina por ano, até 2017. Atualmente, o Brasil já é o maior vendedor de carne no mercado internacional, com 1,5 milhão de toneladas registradas no ano passado, que renderam US$ 6,6 bilhões. Neste ano, a previsão é chegar a US$ 8 bilhões. No cenário geral, o crescimento do PIB do agronegócio foi de 7% em 2013, ante 2,3% do País. Somente a pecuária gerou R$ 16,5 bilhões em impostos. Como a previsão é de que o Brasil cresça acima da média mundial na maioria dos produtos agropecuários, uma geração vem sendo preparada para assumir a nova onda do nelore. 

Fernanda Prata Cunha, 35 anos, filha de José Carlos Prata Cunha, é uma típica representante da safra de herdeiros que se preparam para comandar os negócios da família. Primogênita de Prata Cunha, que tem mais dois filhos, ela fechou, em 2012, a agência de publicidade que fundara, em Araçatuba, para trabalhar com o pai na pecuária de alta seleção da marca VR, na fazenda Fortaleza. Ela afirma que mesmo olhando para o futuro não vai perder de vista os ensinamentos do pai e do avô, Torres Homem, responsável pela importação do touro Karvadi, um dos principais animais que chegaram da Índia. “Eles sempre olharam para a raça nelore como uma máquina de produzir carne”, diz Fernanda. “É esse princípio que me move.” A mãe de Fernanda, Júnia Prata Cunha, que também é filha de pecuaristas, diz que a criação de gado nunca foi uma imposição aos filhos. “Mas está no sangue e o que fazemos é prepará-los para tocar o negócio.” Fernanda tem pós-graduação em marketing na Bentley University, em Boston, nos Estados Unidos. 

Para Beatriz Garcia Cid, filha de Celso Garcia Cid e mãe de Gabriel e Gustavo, hoje à frente da criação da fazenda Cachoeira 2C, em Sertanópolis (PR), a influência de uma geração sobre a outra acontece de forma inexorável. “Os garotos foram aprendendo, como eu aprendi com meu pai”, afirma Beatriz. Ela diz sempre lembrar-se do pai trabalhando. “Me recordo dele, sempre comandando tudo, e eu abrindo ou fechando o apartador de gado no curral.” Na década de 1950, Garcia Cid fez a filha estudar secretariado para ajudá-lo na burocracia das importações do gado da Índia. Naquela época, ele chegou a fazer três viagens àquele país, tornando-se amigo e cliente de marajás, como o de Bhavnagar. De acordo com Gabriel, o maior desafio do nelore nos dias atuais é encurtar as distâncias entre o que ocorre na ponta da seleção e o que está sendo criado no campo. “Quando olho para o futuro, vejo que os programas de melhoramento genético da raça estão no caminho certo, buscando por animais precoces e de tamanho mediano”, diz. No entanto, segundo ele, nas exposições agropecuárias em que os animais são julgados, ainda é preciso buscar um modelo de animal mais próximo daquele que é criado no pasto. “Da ciência genômica à pista de julgamento, tudo pode servir de ferramenta para aprimorar o nelore”, diz o herdeiro de Garcia Cid. “Se caminharem juntas, a chance de sucesso é bem maior.”  

Luiz Cláudio Paranhos, zootecnista e atual presidente da ABCZ, concorda com Gabriel. Representante da sexta geração de uma família de neloristas que foi criar gado em Palmares, no interior de Pernambuco, Paranhos acredita que hoje, mais do que nunca, é necessária a discussão de um modelo de nelore que aproxime a alta seleção do que ocorre no campo. “É trabalho para uma geração mudar conceitos”, diz Paranhos. “Precisamos encontrar um caminho para que o nelore seja sempre uma raça de princípios únicos.” José Carlos Prata Cunha, que já venceu 79 grandes campeonatos em Uberaba, mas não coloca animais em pistas de julgamento há cinco anos, diz que esse tipo de evento deveria voltar a ter força entre os pecuaristas mais tradicionais. “O olho também é uma medida importante”, diz. “Eu seria muito egoísta se fosse contra meus filhos voltarem a apresentar animais nas pistas de julgamento.” Atualmente, a marca VR tem dois projetos de criação de gado de elite, ambos com animais em programas de melhoramento e criados no pasto, um em Araçatuba, e outro em Tangará da Serra, em Mato Grosso Para Rubens de Carvalho, 59 anos, conhecido entre os pecuaristas como Rubiquinho, herdeiro de Rubico Andrade de Carvalho, da fazenda Brumado, a pecuária moderna de fato tem outro modelo a ser seguido, diverso daquele que os pioneiros da raça traçaram. Rubiquinho diz que já formou pastos em 12 mil hectares derrubando mata no Centro-Oeste, juntamente com o pai, nas décadas de 1970 e 1980. “Os criadores pioneiros buscaram o zebu no Exterior e nós ajudamos a abrir o Centro-Oeste para a criação do gado”, diz Rubiquinho. “Desde que meus filhos eram crianças, falo a eles que poderiam ser o que quisessem, mas era muito importante que aprendessem a mexer com a ecuária.” Hoje, um de seu filhos, João, é zootecnista e está fazendo MBA em economia. O outro, Sebastião, é agrônomo.

DIAS CONTADOS – De acordo com o criador, a crença é de que os filhos terão uma relação mais empresarial com a terra do que ele e o pai tiveram. Rubiquinho diz que a geração de pecuaristas que ainda vive nas fazendas, como os pioneiros, está com os dias contados. Atualmente, Rubiquinho  reside na fazenda Monte Azul, em Quirinópolis (GO), e cria matrizes e touros na fazenda Terra Nossa, em Miranorte (TO). A produção é de 200 touros e duas mil fêmeas, entre puras e comerciais, por safra. “Está vindo um novo jeito de criar gado, independentemente de como ele será mostrado, numa pista de julgamento ou no pasto”, diz. Para Rubiquinho, programas de melhoramento genético, de acasalamentos entre machos e fêmeas superiores e, principalmente, a ciência genômica com os marcadores moleculares é que darão rumo à pecuária. “O que não vai mudar, e isso aprendemos com nossos pais e avós, é dar importância ao olho do dono dos bois”, diz Rubiquinho. “O que vemos no dia a dia determina o nosso sucesso.” Para ele, o angus chegou ao atual status de destaque na pecuária mundial como produtora de carne, porque conseguiu uniformidade no rebanho. “Você olha um e é como se olhasse todos”, diz. “Com os números dos programas de melhoramento e as avaliações nas pistas de julgamento, eles avançaram na seleção.” 

Para pecuaristas como Rubiquinho e Cardoso Neto, da Fazenda Mundo Novo, o salto da qualidade é o maior desafio da criação de nelore no País, em direção à produção de uma carne mais macia, suculenta e produzida por animais mais jovens. “No futuro, ficarão, nos rebanhos, animais cada vez mais mansos no trato com o homem, que rendam mais carne no frigorífico e que sejam férteis”, afirma Cardoso Neto, que, além de pecuarista, é diretor da empresa Connan Nutrição Animal, em Boituva (SP), e que também pertence à família. Ele acredita que as transformações pelas quais passa o nelore são desafiadoras, mas não intransponíveis. “Meu filho vai ser pecuarista, tenho certeza”, diz. Enquanto pensa no futuro, a família tem uma oportunidade muito especial de reverenciar o passado: desde já está preparando uma megafesta para comemorar os 100 anos de vida do patriarca Fernando Cardoso, no mês de setembro. Aposentar-se, porém, é algo que não está nos planos do patriarca, que diz estar se preparando para o futuro. “Interessa ao mundo que nós, brasileiros, continuemos a produzir carne”, diz Cardoso. “Isso estamos fazendo há séculos e faremos o mesmo nos próximos.” 

 

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