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Pandemia, inovação e agricultura autônoma

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Sergio Soares, Líder de Sistemas de Inovação e Design Agronômico da CNH Industrial  (Crédito: Divulgação)

A agricultura global se desenvolveu em um ritmo exponencial nas últimas três décadas, impulsionada pelo aumento contínuo da população mundial e pela demanda por alimentos. Como consequência, tivemos a implantação de tecnologias avançadas e boas práticas agronômicas, focadas em preparação e conservação do solo, melhorias na proteção química e biológica das culturas, evolução do ambiente dos pomares e genética das plantas. Outro benefício foi o alto nível de mecanização na agricultura, com projetos complexos de máquinas, baseados em subsistemas mecânicos e hidráulicos, para garantir uma aplicação estável e confiável dessas tecnologias, que consolidou o que hoje chamamos de agricultura de precisão.

Com a miniaturização e o aumento da potência dos computadores, a agricultura de precisão começou a mudar para um novo nível, a agricultura digital, com a interação em tempo real entre a máquina, os dados agronômicos e o campo. Esse cenário proporcionou um salto na produtividade agrícola e nas operações para gerenciar todos esses parâmetros, visando um maior rendimento.

A mecanização agrícola e agricultura de precisão são as tecnologias de base para o desenvolvimento de funções automatizadas de uma máquina totalmente autônoma na agricultura. Mais do que detectar o ambiente e decidir a velocidade, a direção e outros parâmetros complexos de segurança, que são elementos dos carros autônomos, uma máquina agrícola autônoma deve desempenhar funções agronômicas e industriais, considerando ambientes muito complexos e não estruturados, adaptando sua operação a várias situações imprevisíveis sem intervenção humana, ao mesmo tempo em que garante um alto nível de produtividade a um custo mínimo, uma vez que a maioria dos produtos agrícolas são mercadorias com preços limitados pelo mercado.

Então, se é tão difícil desenvolver essas máquinas, por que elas têm recebido tanta atenção nos últimos anos? A principal razão é a escassez de mão de obra qualificada. Com a mudança de força de trabalho para as cidades, há uma forte pressão para lidar com o aumento da necessidade de alimentos devido ao crescimento e desenvolvimento da população nos países emergentes. Isso é ainda mais crítico quando se precisa de mão de obra especializada, com habilidades para operar as máquinas complexas que hoje estão presentes na agricultura. Os fabricantes vêm aprimorando interfaces e automatizando funções, mas ainda é necessário ter operadores qualificados, tomando decisões críticas durante o trabalho no campo.

A pandemia da COVID-19 agora representa uma pressão adicional, sendo que a disponibilidade e a segurança dos alimentos precisam ser garantidas, enquanto o afastamento social e as proibições de viagens dificultam a continuidade de muitas operações agrícolas, criando uma lacuna adicional entre necessidade e disponibilidade de mão de obra, aquecendo a discussão sobre digitalização e automação em todo o mundo. Se máquinas autônomas puderem executar algumas atividades que exigem muita mão de obra, os recursos excedentes poderão ser utilizados para manter outras atividades essenciais.

Portanto, ao começar a discutir o que realmente precisamos para desenvolver máquinas agrícolas autônomas, podemos listar seis áreas principais de tecnologia: comando e controle de interfaces de usuário; detecção e percepção; planejamento e otimização; automação de máquinas e processos; e gerenciamento de dados e comunicação. Esses vários elementos precisam trabalhar em coordenação para alcançar níveis crescentes de autonomia, passando do nível três, suporte aprimorado ao operador, para o nível quatro, com autonomia supervisionada, até o nível cinco, com recursos completos de autonomia.

Porém, além das áreas técnicas, há desafios com os protocolos de padronização, legislação e comportamentos para implementar essa tecnologia nas fazendas. Por exemplo, mesmo que a legislação seja aprovada e todas as condições estejam favoráveis, você se sentiria confiante em deixar seus filhos brincando perto de uma máquina como essa? Portanto, para dar vida à autonomia, há muito mais do que conhecimentos técnicos envolvidos, é necessário haver mudanças políticas e culturais.

Ao mesmo tempo, os principais fabricantes de máquinas agrícolas seguem o caminho autônomo, começando pelas funções da máquina, mas também desenvolvendo concepções de tratores autônomos, que combinados com implementos inteligentes, podem revolucionar as operações de grandes fazendas. Alguns também fizeram parcerias ou adquiriram startups para obter acesso mais rápido à tecnologia.

Mas há uma área de operações robóticas que já está fazendo a diferença em campos abertos: drones e outros equipamentos aéreos. Inicialmente usados para a patrulha, eles estão rapidamente expandindo seu uso para outras áreas de operação, incluindo a aplicação direcionada de produtos de proteção à colheita e até na colheita, com alguns conceitos interessantes de drones conectados a uma base autônoma, com câmeras e braços automatizados sendo usados para a colheita de frutas por startups, como a israelense Tevel Aerobotics.

De um mercado próximo a US$ 213 milhões em 2015, composto principalmente por robôs de ordenha automatizados, prevê-se que o mercado de robótica agrícola atinja mais de US$ 20 bilhões até 2025, com um forte crescimento de drones e máquinas terrestres sem motorista, de acordo com dados coletados por um estudo da empresa Research and Markets divulgado em março. Isso mostra que não há apenas um desejo, mas também uma oportunidade de mercado para acelerar a implementação da robótica em campos e pomares em todo o mundo. As pessoas e empresas que chegarem primeiro, com as melhores soluções, terão um “oceano aberto” para crescer, tornando-se o novo ponto de referência no setor agrícola.

* Sergio Soares, Líder de Sistemas de Inovação e Design Agronômico da CNH Industrial 

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