Especial

Prontos para o contra-ataque

Depois do impacto negativo do tsunami provocado pela operação carne fraca, as associações que representam a cadeia da proteína animal começam a unificar o discurso do agronegócio

Crédito: FOTO: PEDRO DIAS

boa mordida: em defesa de um mercado que movimentou US$ 5,3 bilhões, Antonio Camardelli, da Abiec, quer promover ações para garantir a qualidade da carne bovina (Crédito: FOTO: PEDRO DIAS)

“Não dá para mensurar o tamanho do estrago”, diz Antônio Jorge Camardelli, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), entidade que representa 32 empresas que vendem produtos bovinos para o mundo. “Esta crise é desnecessária.” No ano passado, o setor exportador bovino faturou US$ 5,3 bilhões com 1,6 milhão de toneladas embarcadas. “É preciso estancar essa história, que não reflete o setor de carnes, para não deixar o Brasil sangrar”, afirma Francisco Turra, ex-ministro da Agricultura e presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), referindo-se à Operação Carne Fraca, que não será facilmente esquecida. No ano passado, a carne de frango respondeu por exportações de US$ 6,8 bilhões, a partir de 4,4 milhões de toneladas embarcadas. Com os suínos, a renda foi de R$ 1,5 bilhão para 720,1 mil toneladas vendidas.

Os dois representantes das três cadeias afetadas pela operação da Polícia Federal fizeram coro com as demais entidades do setor, como a Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA) e suas federações Estaduais, a Associação Brasileira de Agribussines (Abag), a Sociedade Rural Brasileira (SRB) e a Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), para ficar nas mais conhecidas. “Também precisamos mostrar para a nossa população que nós produtores somos as grandes vítimas disso tudo”, diz João Martins, presidente da CNA. As manifestações mostraram o que há muito tempo não se via no setor: uma voz em uníssono.

 ” É preciso estancar essa história, que não reflete o setor de carnes, para não deixar o Brasil sangrar” Francisco Turra,
presidente da ABPA

Nos últimos anos, todas as tentativas de unificar os discursos das entidades do agronegócio não prosperaram por falta de sintonia de interesses, embora eles existam aos montes, como na logística, em segurança jurídica, acesso à terra, leis trabalhistas, entre outros temas. Agora, precionados pelos acontecimentos provocados pela Operação Carne Fraca, o cenário é outro. Para o professor José Luiz Tejon Megido, coordenador acadêmico da pós-graduação e do Núcleo de Agronegócio da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), as crises mudam pessoas e cenários para pior ou para melhor. Assim, está colocada hoje uma oportunidade para que as cadeias orquestrem seus discursos de forma mais organizada daqui para a frente.

“É preciso não se esquecer que o conceito de agribusiness não é a compra e a venda de algo e, sim, a coordenação e a gestão da cadeia produtiva”, afirma Tejon. “Quem mais está assumindo a pancada da Operação Carne Fraca ainda é a produção”. Não por acaso, Camardelli e Turra já começam a assumir a possibilidade de ações conjuntas futuras. Para Turra há uma grande tarefa conjunta das duas entidades para reverter o estrago. “Vamos ter de mostrar que as restrições à importação de nossos produtos são um retrocesso de muitos anos”, disse Turra. No final de março, passado o tsunami inicial, Camardelli dizia que o cenário havia mudado e que o consumidor começava o retorno às compras. “O que precisamos é garantir a ele que a carne produzida no País é de qualidade”, afirma. “A Abiec, que já monitora esse mercado, vai continuar nesse caminho com mais força.”