Negócios

Proteína global

Gigantes brasileiras do setor de carnes fortalecem seus negócios mundo afora para seguir crescendo e diminuir riscos diante de uma economia global marcada por incertezas quanto ao futuro

Crédito: DANIEL WAINSTEIN

LIDERANÇA O Brasil se consolidou como maior exportador de carne bovina com alta de mais de 14% em 2019. A China segue como destino principal (Crédito: DANIEL WAINSTEIN)

INCERTEZA A venda de carnes no varejo brasileiro tem oscilado desde o início da pandemia, mas há indícios de que a produção seja recorde em 2020 (Crédito:Giselleflissak)

Em qualquer lugar do planeta, as carnes produzidas pelas gigantes brasileiras JBS, Marfrig, Minerva Foods e BRF, entre outros importantes players nacionais, dominam grande parte das opções oferecidas por supermercados e restaurantes. Os números comprovam, de forma incontestável, a força da proteína Made in Brazil mundo afora. Em 2019, com vendas de US$ 7,57 bilhões e crescimento de mais de 14% sobre o ano anterior, o Brasil se consolidou como o maior exportador de proteína animal do planeta. Em volume de produção, o País só ficou atrás dos Estados Unidos. E esses números recordes, ao que tudo indica, serão renovados neste ano. Embora o mercado esteja sentindo os efeitos das instabilidades geradas pela pandemia do novo coronavírus, as perspectivas de crescimento seguem engordando como nunca. O banco holandês Rabobank, um dos mais especializados em agronegócio, projeta que as exportações brasileiras devem bater novo recorde, com elevação de 10,6% em volume, para 2 milhões de toneladas. No ano passado, o Brasil embarcou 1,8 milhão de toneladas de carne bovina. Em dezembro, a perspectiva do banco era ainda mais otimista e chegava a 2,4 milhões de toneladas. “Informações recentes de que o número de novos casos da Covid-19 na China estão diminuindo, indicam que o controle do vírus está próximo e os embarques devem retomar com mais força”, informou o Rabobank, em relatório. Já a produção deve o aumentar em torno de 3,5% no ano, para 10,4 milhões de toneladas. Para a instituição, as perspectivas do mercado brasileiro para carne bovina são positivas tanto para o mercado externo quanto para o doméstico. “Os níveis de demanda acima da oferta devem manter os preços em níveis altos durante este ano, o que mantém a atratividade da produção”, afirmou o banco.

Alfribeiro

Internamente, o clima também é de otimismo, alimentado pela alta do dólar e perspectiva de que a demanda por alimentos tende a aumentar. “O consumo no exterior é crescente. Há oportunidades de novos negócios”, afirma Francisco Turra, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). Na mesma linha, a Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo) calcula que, de janeiro a abril desde ano, foram embarcadas 548.875 toneladas, com receita de US$ 2,4 bilhões – alta de 1% em volume e 19% em faturamento na comparação com o mesmo período de 2019. Para maio, o panorama é ainda mais positivo. A previsão é de embarcar mais de 200 mil toneladas, com a China adquirindo tudo o que pode. E a cadeia produtiva se prepara para superar, com tranquilidade, a receita do ano passado. “Caso a China mantenha seu ritmo de compras, as exportações brasileiras de carne in natura e processada deverão crescer em volume e obter um incremento nas receitas de mais de 10%“, informou, em nota, a Abrafrigo. Embora positivas, as projeções de alta em 2020 têm ignorado as oscilações pontuais. Em janeiro, houve a redução de 22% nas exportações na comparação com dezembro, para 117 mil toneladas, porém, ante ao mesmo mês do ano passado, houve um aumento de 14%. Já em fevereiro, as exportações de carne bovina caíram 5,5% em comparação com janeiro e 4,1% em relação ao mesmo mês do ano passado, de 115,4 mil toneladas.

O maior mercado consumidor do mundo, os Estados Unidos, endossam as perspectivas positivas para o mercado de carnes, não apenas a de origem bovina. O Brasil deve produzir 10,5 milhões de toneladas de carne vermelha e 4,2 milhões de toneladas de carne suína em 2020, de acordo com o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês). Se confirmados, os volumes representam, respectivamente, alta de 3,4% e 4,5% ante o produzido no ano passado. O USDA atribui o aumento da produção de proteína bovina à maior produtividade, exportações recordes contínuas e ao fortalecimento do mercado doméstico. Já a perspectiva de incremento na produção de carne suína reflete a forte e constante exportação para a China, a maior demanda doméstica e a estabilidade nos custos de alimentação animal. De acordo com o órgão, a estimativa de crescimento de 2% para a economia brasileira e a expectativa de que as exportações continuem firmes sustentam a projeção de aumento na produção de ambas as proteínas. O órgão prevê também que o país exporte 2,53 milhões de toneladas de carne bovina neste ano, 10% a mais que o comercializado para o exterior em 2019, impulsionado principalmente pela firme demanda de China e Hong Kong. “Em 2020, uma combinação de desvalorização da moeda brasileira e estabilidade nos preços domésticos provavelmente vão manter as exportações brasileiras de carne bovina com preços competitivos no mercado mundial”, destaca o USDA, em relatório.

“Temos flexibilidade e agilidade para mudar caso o consumo caia em um determinado canal ou região” Fernando Galletti, CEO da Minerva (Crédito:Divulgação)

Depois da Índia, que tem 308,7 milhões de cabeças, o Brasil possui o maior rebanho bovino mundial, de 214,1 milhões

De acordo com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), as exportações de carne bovina vivem o melhor ano da história e podem bater recordes. Somente em abril, os embarques totalizaram 117 mil toneladas, alta de 6,5% em relação ao ano passado. No ano de 2020, as exportações devem superar o recorde de 7,6 bilhões de dólares registrado no ano passado, mesmo com a crise ocasionada pelo novo coronavírus. Um dos motivos principais é o aumento da demanda dos países asiáticos, como a China, que quase dobrou as compras nos primeiros quatro meses do ano. “A China já vinha comprando bastante carne bovina brasileira desde o final do ano passado e, nesse momento de pós-quarentena, os embarques vem se recuperando”, afirma o pesquisador do Cepea, Thiago Bernardino. A visibilidade da carne brasileira é resultado da combinação de menor oferta no mundo inteiro, promoção do produto pelo Governo Federal e a relação comercial entre o país e a China. Além disso, o cenário é positivo para as demais proteínas brasileiras. Com casos registrados de peste suína africana no país asiático, pode aumentar a demanda por carnes suínas e de frango.

“Quando a China paralisou as compras de carnes por causa do coronavírus, a Marfrig estava com outro posicionamento” Miguel Gularte, CEO da Marfrig (Crédito:Bitenka)

O grande motor da indústria de exportação brasileira de carnes continua sendo a China. As exportações de proteína bovina para lá dobraram em março no confronto com igual período de 2019, enquanto outros mercados relevantes para o Brasil reduziram as compras, já afetados pelo recuo na demanda em meio a medidas de isolamento contra o coronavírus. “Desde agosto de 2019, mais de 30% das vendas de carne bovina do Brasil vão para a China. Agora, estamos ainda mais dependentes dos chineses porque na União Europeia, por exemplo, os lockdowns diminuíram a necessidade de carne importada que iria para o food service”, disse o consultor em gerenciamento de risco especializado em pecuária da INTL FCStone, Caio Toledo. Somente a China respondeu por cerca de 35% das compras, com 51,86 mil toneladas importadas em março, um salto de 108% ante as 24,9 mil toneladas adquiridas um ano antes, apoiado pelo aumento no número de plantas habilitadas, segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec).

Em janeiro, houve a redução de 22% nas exportações de carne brasileira na comparação com dezembro, para 117 mil toneladas

“Terminamos o trimestre com robustez financeira para a conjuntura em que estamos” Gilberto Tomazoni, CEO da JBS (Crédito:Anna Carolina Negri)

EMPRESAS

Embora a líder global JBS tenha sido prejudicada pela disparada do dólar sobre o real, o que gerou prejuízo líquido de R$ 5,9 bilhões no primeiro trimestre, para o CEO global da companhia, Gilberto Tomazoni, a empresa está preparada para atravessar o cenário de incertezas trazido pela pandemia. “Terminamos o trimestre com robustez financeira para entrar numa conjuntura como a que estamos”, disse ele, ressaltando que a solidez financeira foi o que permitiu a doação de R$ 700 milhões para ajudar no combate à Covid-19. Entre janeiro e março, a receita líquida totalizou R$ 56,5 bilhões, aumento de 27,2% na comparação anual. De acordo com Tomazoni, mesmo descontando a variação cambial, a receita da JBS teria crescido cerca de 10%.

A concorrente Minerva Foods, a maior exportadora de carne vermelha da América do Sul, contabilizou entre janeiro e março um lucro líquido de R$ 271,2 milhões, revertendo o prejuízo de R$ 31,4 milhões no mesmo período do ano passado. Na mesma base de comparação, a receita líquida cresceu 11,8%, para R$ 4,1 bilhões. Do faturamento contabilizado nesse intervalo, 68% dos ganhos vieram de exportações. “Nosso hedge é a diversificação geográfica”, diz o CEO Fernando Galetti. Segundo ele, o crescimento é resultado de um modelo de produção distribuída entre Brasil, Paraguai, Argentina, Uruguai e Colômbia. “Temos flexibilidade e agilidade para mudar caso o consumo caia em um determinado canal ou região.”

Desde agosto de 2019, mais de 30% das exportações de carne bovina do Brasil vão para a China

Já a Marfrig faturou R$ 13,5 bilhões, aumento de 26,6% em relação ao mesmo período de 2019. Além disso, o resultado operacional mais que dobrou no primeiro trimestre, avançando com vendas de carne bovina para mercados além da China, país fortemente afetado pela pandemia de coronavírus no período, informou a empresa. O lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) ajustado alcançou R$ 1,2 bilhão no período, um salto de 109% no comparativo anual. A margem Ebitda passou de 5,5% no primeiro trimestre de 2019 para 9,1% no intervalo de janeiro a março de 2020. O CEO da operação América do Sul da Marfrig, Miguel Gularte, afirma que a companhia diminuiu desde o final do ano passado a concentração das exportações de carne para a China, avançando para outros mercados, o que favoreceu os negócios do grupo. “Assim, quando a China paralisou as compras de carnes no meio do primeiro trimestre por causa do surto de coronavírus, a Marfrig estava com um outro posicionamento”, afirmou.

Para Marfrig, carne também pode dar em árvore

Divulgação

Abrasileira Marfrig e a multinacional ADM, líder global em nutrição, anunciaram na última semana de maio um acordo para criação da Plant Plus Foods, joint venture para a comercialização de produtos de base vegetal por meio dos canais de varejo e food service, nos mercados da América do Sul e América do Norte. “A capacidade de produção e distribuição, a experiência e know how em trabalhar com carnes de alta qualidade da Marfrig, combinada à excelência técnica e de desenvolvimento da ADM, líder na produção de ingredientes com base vegetal e aromas naturais, darão à nossa nova companhia escala e especialização únicas para oferecer aos nossos clientes produtos de base vegetal da mais alta qualidade”, afirma Marcos Molina, fundador e presidente do Conselho de Administração da Marfrig. “A Plant Plus Foods desde o início estará preparada para atender às necessidades dos nossos clientes, em um mercado de rápido crescimento.”

A Marfrig terá, inicialmente, 70% da Plant Plus Foods. A ADM, os 30% restantes. A Marfrig será responsável pela produção e distribuição, utilizando suas instalações na América do Sul, principalmente em Várzea Grande, no Mato Grosso e, também, em suas unidades na América do Norte. A ADM, por sua vez, fornecerá todo seu conhecimento técnico em aplicação para desenvolvimento de um sistema combinando ingredientes, aromas e base vegetal a partir do seu complexo de proteína em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, além da sua rede de fábricas de ingredientes e aromas localizadas no EUA, incluindo sua nova unidade de proteínas de ervilhas em Enderlin, Dakota do Norte. A joint venture se concentrará principalmente nas Américas do Norte e do Sul, embora tenha a capacidade de atender clientes em outros mercados globais. “O portfólio completo da ADM de ingredientes, aromas e soluções naturais é a base para alimentos inovadores e sustentáveis, incluindo proteínas alternativas, no mundo todo”, diz Juan Luciano, CEO global da ADM. “Durante os últimos sete anos, temos investido de maneira estratégica para construir uma posição de liderança em áreas com tendência de rápido crescimento. Agora, ao expandir a nossa relação com a Marfrig, estamos dando o próximo passo para atender à crescente demanda do consumidor por proteínas alternativas.”

 

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