Carreira

O construtor de usina

Como um empreendimento no interior de são paulo mudou a vida do engenheiro civil Jacyr da Silva Costa Filho, hoje presidente da francesa Tereos Internacional no Brasil

O construtor de usina

"O campo me atraiu porque eu passei a acreditar na sua grande potencialidade de crescer cada vez mais" JACYR COSTA FILHO, presidente da Tereos Internacional no Brasil Divulgação

O paulista Jacyr da Silva Costa Filho, engenheiro civil, tem alma de construtor. Por cinco anos, depois de concluir o curso em 1979, Costa Filho esteve às voltas com planilhas e projetos urbanos na construtora Gafisa, uma das líderes do mercado imobiliário de alto padrão no País. Mas, construir apartamentos de luxo, shoppings e torres de escritórios não era o destino traçado para ele. Há quase quatro décadas, um empreendimento greenfield (criado a partir do zero) da empresa, uma usina de cana de açúcar no município de Pompéia (SP), mudou para sempre os rumos de sua carreira. Costa Filho deixou definitivamente os cálculos e as plantas de construção para dirigir a usina de cana-de-açúcar que ajudou a construir em 1984. “Comecei do zero essa usina”, diz ele. “Participei da elaboração da planta à instalação dos equipamentos.” Na época, a empresa já era dona de outra unidade em Selvíria, também no interior paulista. Em 1986, Costa Filho foi convidado pela Gafisa para liderar os negócios de bioenergia do grupo e não voltou mais para a prancheta. Hoje, ele é o presidente da Tereos Internacional no Brasil, subsidiária do grupo francês Tereos, produtor de etanol e açúcar no interior paulista. Ao todo, sete usinas estão sob seu comando e que faturaram R$ 8,6 bilhões na safra 2014/2015, com o processamento de 20,2 milhões de toneladas de cana, 3% acima da safra anterior. Na safra 2015/2016, a previsão é repetir o desempenho. “Sempre gostei muito do que fiz, acho que isso é o que impulsionou minha carreira”, diz o executivo. “Além disso, o campo sempre exerceu um fascínio em mim.” Filho e neto de agricultores e pecuaristas, ele viu no investimento da Gafisa uma janela para reprogramar a sua carreira.

Para Jeffrey Abrahams, sócio da Fesap, consultoria especializada em seleção de altos executivos, atitudes como a Costa Filho dependem de uma série de habilidades que devem ser desenvolvidas e que nem sempre são fáceis ou simples. “Mudança requer atitude e exige atenção, foco e disposição”, diz Abrahams. “Por exemplo, exige uma alta capacidade de aprendizado, é preciso adaptar-se e ter como objetivo a construção de uma nova rede de relacionamentos.” E, claro, apostar em uma boa dose de estudos complementares. Costa Filho também é administrador de empresas desde 1981 e especialista em marketing pelo Instituto Internacional para o Desenvolvimento de Administração (IMD, na sigla em inglês), de Lausanne, na Suíça, desde 1995. “Conforme você desempenha novos papéis, seu nível de sofisticação tem de aumentar”, diz Costa Filho.
“O campo me atraiu porque eu passei a acreditar na sua grande potencialidade de crescer cada vez mais.”

A aposta de Costa Filho foi certeira, mesmo atuando em bioenergia, um setor que nos últimos anos vem atravessando turbulências, por falta de políticas públicas na definição do etanol como matriz energética brasileira. “Na construção de uma carreira nada é impossível” diz ele. “Na crise, por exemplo, é preciso olhar onde estão as oportunidades, porque elas vão aparecer.” Costa Filho sabe do que está falando. Em meio aos gigantescos desafios do setor de etanol e açúcar, na última década o processamento de cana-de-açúcar cresceu 53,7%, atingindo 665 milhões de toneladas colhidas na safra 2014/2015.

É justamente essa possibilidade de crescimento de todos os setores do agronegócio – os grãos, por exemplo, saltaram 75% no período, para 213 milhões de toneladas – que tem exercido um forte fascínio em jovens dispostos a fazer carreira no campo. Em novembro do ano passado, uma pesquisa exclusiva para entender os movimentos que impactam a carreira dos executivos, realizada pela DINHEIRO RURAL em parceria com a consultoria Flow Executive Finders com 134 empresas, mostrou que 56% dos profissionais optaram pelo agronegócio  em função da  perspectiva de crescimento (confira em www.revistadinheirorural.com.br). “O nível de desafio no setor é tão intenso que gabarita os profissionais a trabalharem em qualquer outro setor da economia, e isso é uma enorme vantagem”, diz Thiago Pimenta, sócio-diretor da Flow. “E essa atratividade só tende a aumentar.”

No caso da Tereos, as oportunidades estão por toda parte. O grupo é uma cooperativa global que reúne 12 mil associados, possui 24 mil funcionários e opera 43 unidades para processar cana-de-açúcar, beterraba, milho, trigo e mandioca, em açúcar, etanol e amido. Localizadas na Europa, América do Sul, África, China e Indonésia, elas renderam €4,3 bilhões no ano passado. “Houve uma época que o meu mundo era Marília, no interior paulista, cidade onde nasci e me criei”, diz Costa Filho. “Hoje, minha vida são as possibilidades de atuar em qualquer lugar do mundo e de enfrentar desafios que nunca havia imaginado.”