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Prata da casa

De estagiário a número um da Case IH para o Brasil e a América Latina. Conheça a história do italiano Mirco Romagnoli

Prata da casa

"Foram os vários desafios propostos a mim que me deram a oportunidade de chegar onde estou agora" MIRCO ROMAGNOLI, vice-presidente da Case IH para o Brasil e América Latina FOTO: FELIPE GABRIEL

O consultor e professor de ciências sociais Peter Drucker, austríaco considerado o pai da administração moderna, dizia que “os milagres acontecem às vezes, mas é preciso trabalhar tremendamente para que aconteçam”. Caso ainda fosse vivo, Drucker, que escreveu cerca de 30 livros e morreu em 2005, aos 96 anos, poderia dar como exemplo de sua teoria o italiano Mirco Romagnoli. Aos 50 anos, ele é o executivo número um da montadora americana de máquinas agrícolas da marca Case IH para o Brasil e a América Latina, subsidiária da CNH Industrial, grupo que faturou globalmente US$ 24,7 bilhões no ano passado. É que no currículo de Romagnoli, atual vice-presidente (cargo que responde diretamente ao presidente mundial), consta apenas um curso técnico de engenharia civil, em 1980, e um MBA em marketing internacional na Escola de Administração e Gestão Corporativa (Sada, na sigla em italiano), em 1988. “No meu caso, não foi um curso que fez a diferença”, diz ele. “Foram os vários desafios propostos a mim que me deram a oportunidade de chegar onde estou agora.”

O curto currículo acadêmico do executivo contrasta com o longo caminho percorrido na empresa. Romagnoli está na montadora há 27 anos, desde a época em que ela pertencia ao grupo italiano Fiat. Começou como estagiário da área de venda de peças e serviços em uma das unidades da empresa, ainda em Modena, sua cidade natal no norte daquele país, e logo passou negociar com os países escandinavos, asiáticos e do Oriente Médio. Em 1995, foi convidado a ir à Flórida, nos Estados Unidos. “Foi o passo mais importante da minha carreira, porque comecei a entender as necessidades em mecanização agrícola no campo”, diz. Daí para a frente, o executivo passou por uma sucessão de mudanças, jamais dizendo não às demandas propostas. Ele viveu em Buenos Aires, Londres e Madri. Esteve no Brasil em 1999, chefiando uma equipe de vendas com 200 pessoas em Curitiba (PR), e retornou em 2011 para o atual posto. Hoje, ele coordena a demanda da marca em três fábricas que o grupo possui no Brasil e uma na Argentina, além das operações da Case IH para colocar no mercado sul-americano uma linha de cerca de três mil máquinas, entre tratores, colhedeiras, pulverizadores e implementos agrícolas.

O poder de adaptação do executivo é uma de suas marcas pessoais e exemplo para sua equipe de 150 funcionários. Seus passos servem de inspiração especialmente para aqueles que também ingressaram no grupo como estagiários, como é o caso do administrador Rafael Paraguassu, 29 anos coordenador de vendas da companhia. “Tenho oito de casa e daqui a cinco anos meu plano é chegar à gerência da área de vendas”, diz Paraguassu. Diogo Melnick, 33 anos, já passou quase metade de sua vida na empresa, está na Case IH há 14 anos. Começou estagiando no setor de marketing e hoje é gerente dessa área. “A proximidade com profissionais de todos os níveis tem feito a diferença na minha formação”, diz Melnick. “Isso provoca uma maior interação da equipe e me motiva a crescer na companhia.”

Para o economista Thiago Pimenta, sócio diretor da Flow Executive Finders, consultoria especializada em recrutamento de executivos de alto escalão, Romagnoli faz parte de uma elite de alto padrão profissional, considerada uma exceção no mercado. “São profissionais que desenvolveram e muito sua inteligência emocional, e é essa a grande diferença para as pessoas chegarem a níveis mais altos dentro das empresas”, afirma Pimenta. “Porque, de modo geral, além das experiências profissionais é altamente recomendável uma base teórica, onde se absorva o conhecimento técnico para depois aplicá-lo em suas decisões”. Ou seja, nem sempre um profissional tem à sua disposição um Mirco Romagnoli como modelo. Embora o executivo concorde com Pimenta, para ele não há uma fórmula secreta para alcançar sucesso na carreira profissional. “Eu entrei no grau mais baixo da companhia e hoje estou num dos cargos de maior responsabilidade da minha vida”, diz Romagnoli. “O caminho é não se achar melhor ou mais inteligente do que ninguém, e aceitar os desafios.”

Foi o que o agrônomo Christian Gonzalez, hoje com 41 anos, diretor de marketing para a América Latina da Case IH, fez, em 2001, quando se decidiu por um MBA. Ele está na empresa há 20 anos e é um dos executivos cotados para substituir Romagnoli.  “Precisava de um conhecimento específico, o que me fez gostar ainda mais da área de marketing”, diz Gonzalez. Romagnoli afirma que faz parte de sua função preparar um bom time com o qual possa contar para todas as posições da empresa. Para ele, o futuro é uma porta aberta às oportunidades. “Eu, por exemplo, não gostaria de me mudar do Brasil, mas, caso seja necessário, me mudo novamente. Sem problemas.”