Economia

Agroeconomia

Como o Estado de São Paulo conseguiu agregar valor dentro da por teira e se transformar num campeão nos preços pagos ao produtor

JOÃO SAMPAIO:

secretário de Agricultura lidera projeto de crescimento

A velha máxima de que tudo em São Paulo é mais caro vale para o campo. Pelo menos é o que indica um estudo produzido pelo Instituto de Economia Agrícola (IEA), órgão vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento. A conta é simples: multiplica-se tudo o que se produz dentro da propriedade pelo seu preço, e pronto: obtém-se o VPA, ou Valor da Produção Agropecuária. Diferentemente do PIB, que inclui produtos e serviços, essa metodologia mostra apenas quanto ganha o agricultor dentro da porteira.

Nesse quesito, segundo os estudos, em São Paulo o ganho é em média 48% superior ao do segundo colocado, o Paraná. O total computado pelo VPA chegou a R$ 37,7 bilhões, um incremento de quase 20% ante 2007. Para este ano, as estimativas são positivas e o avanço pode chegar a 10%. Mas quem pensa que todo esse crescimento está diretamente ligado à expansão da cana nas terras paulistas, pode rever seus conceitos. Mesmo com um resultado de R$ 12,8 bilhões, não foram apenas as usinas de álcool e açúcar que responderam pelo crescimento nas lavouras da região mais rica do País. Na verdade, a cana-de-açúcar tem um peso pouco superior a 30% no VPA, o que leva à seguinte pergunta: qual o segredo para tanto dinheiro vindo do campo?

Para o secretário de Agricultura do Estado de São Paulo, João Sampaio, ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), a receita é velha conhecida: diversificação. Além das commodities mais comuns, como milho e soja, que juntas respondem por pouco mais de R$ 3 bilhões, há uma infinidade de produtos computados no VPA destinados à exportação e à mesa do brasileiro que fazem toda a diferença. A carne bovina, por exemplo, produzida em sistemas de confinamento ou pastejo intensivo rendeu aos pecuaristas paulistas nada menos do que R$ 5,029 bilhões. Em relação ao ano anterior, representa um crescimento de 12,06%, num ano em que os embarques para a União Europeia sofreram forte diminuição. “O agricultor paulista tem em mente que precisa agregar valor aos seus produtos, porque senão corre o risco de sair da atividade”, avalia Sampaio.

Exemplo típico é o café paulista, que passou por momentos conturbados nos últimos anos. Mesmo assim os investimentos não cessaram e no ano passado, para o tipo beneficiado, o incremento de renda chegou a 77% ante o ano anterior, cravando R$ 1,08 bilhão. “Mesmo se você retirasse todo o rendimento que São Paulo tem com a cana, ainda encontraria um resultado de mais de R$ 24 bilhões só na agropecuária”, explica o pesquisador do Instituto de Economia Agrícola, Paulo José Coelho. Segundo ele, a diversificação das lavouras paulistas consiste num grande trunfo. “É o velho conceito de não colocar todos os ovos numa cesta só. Quanto maior a diversificação, menor o risco no caso de intempéries”, diz o estudioso.

 

VALOR AGREGADO:

confinamento de gado, produção de ovos e frangos fazem parte da cesta paulista, que paga bem aos seus produtores

O tema “problemas climáticos”, sempre em alta quando o assunto é agricultura, entrou recentemente na pauta do governador José Serra. Sensibilizado pelo secretário de Agricultura, ele lançou uma nova modalidade de seguro, visando principalmente aos produtores de commodities. “Essa nossa modalidade funciona como uma venda futura normal, em que o produtor trava o preço. Porém, caso ele erre o cálculo e o seu produto esteja mais valorizado do que o preço que ele contratou, o governo paga essa diferença”, explica Sampaio, um dos responsáveis pelo projeto.

Em 2008 a subida dos preços dos alimentos também contribuiu para o aumento da renda no campo. A cesta paulista é composta por diversos itens que vão à mesa da população. Ovos, laranja de mesa e carne de frango são apenas alguns dos itens entre os dez com faturamento mais significativo. Setor complicado que precisa de reforma é o dos laranjais para a indústria, que, segundo Sampaio, necessita de um novo tempo nas negociações. “Produtores de laranja e a indústria de suco não estão falando a mesma língua e todos saem perdendo com isso, inclusive o Estado”, diz.