Economia

A carne paga o pato

Embargo da Rússia às carnes brasileiras se torna moeda de troca na OMC

 

“Há erros que precisam ser corrigidos no sistema de defesa”

Pedro de Camargo Neto,

presidente da Abipecs

Desde junho, o serviço de inspeção veterinária da Rússia, o Rosselkhoznadzor, mantém uma lista com 116 frigoríficos brasileiros proibidos de exportar carne para o país. Além deles, os produtos de 50 frigoríficos que têm permissão para exportar estão sendo monitorados com mais rigor e podem entrar para a lista negra a qualquer momento. Essa não foi a primeira vez que os russos embargaram a produção da indústria frigorífica do País – e talvez não seja a última. Para justificar o embargo, o governo da terra dos czares listou uma série de problemas sanitários, como a presença de bactérias na carne, o uso de antibióticos além do permitido e a inspeção ineficiente dos serviços de defesa agropecuária do Brasil. “Essa é uma situação muito delicada”, diz André Nassar, diretor do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone), em São Paulo. Mesmo batendo duro, a Rússia é um dos maiores países importadores de carne do mundo e um ótimo cliente do Brasil. No ano passado, os embarques brasileiros geraram receitas de US$ 1,89 bilhão capitaneadas pela carne bovina, que gerou US$ 1 bilhão, seguida pela suína, com US$ 649,1 milhões, e pelas exportações de frango, com US$ 249,5 milhões.

maior baixa: as exportações de suínos despencaran 79,5% em julho, em comparação com 2010

aves: embarques mensais que eram de dez mil toneladas caíram para 3,5 mil toneladas

 

Para Nassar, o setor de carnes do Brasil sempre vai pagar o pato, como no ditado popular. “No comércio bilateral, nós não temos muito poder de barganha com a Rússia, porque a agenda com esse parceiro é pequena”, diz. “Se ela fosse mais complexa, por exemplo, com interesses na área militar, provavelmente eles seriam mais abertos a negociar questões sobre o agronegócio.” A Rússia, apesar de não ter declarado oficialmente, pressiona o Brasil por uma vaga na OMC, a Organização Mundial do Comércio, um organismo que estabelece regras e regula o comércio entre os países-membros. Atualmente, são 154 nações e a Rússia está fora do jogo. “O apoio do Brasil, dos Estados Unidos e da Europa seria fundamental para a Rússia conseguir um lugar nesse organismo”, diz Nassar. No caso do Brasil, segundo ele, existe uma diferença de conceito do que é jogar no mercado internacional. A Rússia, que sempre foi um país agrícola, quer um modelo europeu de proteção de sua agropecuária, com tarifas elevadas nas importações e proteção à produção local, o contrário do que ocorre no Brasil. “Por isso o governo não se manifesta.”

Para Francisco Turra, presidente da União Brasileira de Avicultura (Ubabef), enquanto não houver uma posição clara do Brasil, a pressão da Rússia sobre o agronegócio brasileiro não mudará. “Os russos acreditam que o apoio do Brasil puxaria outros votos a favor do país”, diz Turra. No setor avícola, com 27 abatedouros proibidos de exportar, os embarques de carne de frango à Rússia caíram para um terço. Em média, o país importava dez mil toneladas por mês, a US$ 1.900 cada. Em julho, os embarques foram de apenas 3,5 mil toneladas.

 

Exportações: a Rússia comprou do Brasil 807,2 mil toneladas de carnes em 2010

Mercado Interno: os russos estão entre os maiores importadores de carne do mundo

 

De acordo com Antonio Jorge Camardelli, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), os frigoríficos conseguiram manter as vendas de carne bovina para a Rússia até o final de junho. Em julho, houve um recuo considerado pequeno, de 35,3 mil toneladas para 23,4 mil toneladas, queda de 37,7%. “Em agosto, o comércio se manteve e estamos atentos ao movimento das autoridades dos dois países”, diz Camardelli. A queda não foi acentuada porque houve a transferência de abates de uma planta para a outra. “Empresas como a Marfrig e o JBS, com várias unidades no País, estão deslocando os abates para as unidades que não foram embargadas”, diz. Segundo Camardelli, as exportações para a Rússia, em 2011, devem ficar em torno de 400 mil toneladas, um pouco abaixo das 429 mil toneladas de 2010.

“Estamos atentos às autoridades dos dois países”

Antonio Jorge Camardelli, presidente da Abiec

Os produtores de suínos são os que mais sofrem com o embargo russo. Em julho, as exportações foram de 3.983 toneladas, uma queda de 79,5% em comparação com julho de 2010. A receita caiu de US$ 53,32 milhões para US$ 11,68 milhões. Para Pedro de Camargo Neto, presidente da Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora da Carne Suína (Abipecs), a instabilidade na indústria preocupa. “Os embates com os russos são políticos, mas há, de fato, erros que precisam ser corrigidos em nosso sistema de defesa”, diz Camargo Neto. “Eles sempre acham uma brecha quando decidem pelo embargo da nossa carne.” O Ministério da Agricultura informou que tem dado todas as respostas às demandas do governo russo e que há uma comissão permanente negociando com seus representantes. “Todos os documentos que apresentamos aos russos em agosto mostram que não há motivo técnico para o embargo”, diz Francisco Jardim, secretário de Defesa Agropecuária do Mapa. Até o fechamento desta edição de DINHEIRO RURAL, o governo da Rússia não havia dado nenhuma resposta sobre o fim do embargo à carne brasileira.