Economia

A dama da agropecuária

Kátia Abreu chega ao posto de comandante da CNA, leva consigo jovens expoentes regionais e pretende implantar um choque de gestão

“Vamos lutar para que o produtor tenha mais renda no campo”

KÁTIA ABREU, nova presidente da CNA

Nos últimos anos a vida da psicóloga Kátia Abreu, 42 anos, tem sido quebrar tabus. Em 1994, tornou-se a primeira mulher a presidir um sindicato rural no Brasil. No ano seguinte, chegou à presidência da Federação Agrícola do Tocantins, posto que manteve até 2005. Em 2006, chegou ao Senado Federal como a primeira representante de seu Estado. Na bancada ruralista manteve posições contundentes contra o governo, sempre falando em nome de agricultores de todo o País. Entre seus alvos, a diminuição da carga tributária. Basta dizer que ela foi a relatora do projeto que deu fim à CPMF, extinta recentemente.

No mês passado, seguindo seu caminho na liderança do campo brasileiro, deixou mais um tabu para trás. Kátia se elegeu presidente da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil, a CNA. Com isso, ela crava a façanha de ser a primeira mulher a exercer tal função. Agora, sob sua responsabilidade estarão 27 federações regionais e milhares de sindicatos rurais. Ao todo, mais de um milhão de associados diretos, num total de mais de três milhões de pessoas ligadas, de alguma forma, ao trabalho da CNA. Por ano, ela administrará um orçamento de R$ 25 milhões e seu maior desafio será fazer com que o governo entenda as necessidades do campo e auxiliar o Ministério da Agricultura a promover as devidas políticas agrícolas.

Os objetivos, contudo, são ousados. “A política agrícola no mundo todo tem dois pilares: abastecimento e renda, mas no Brasil só o governo se preocupa com o abastecimento”, diz. Segundo a presidente eleita, só existe um caminho a seguir e nessa estrada o governo terá de pagar para que o campo continue produzindo. “Nos últimos anos, a agropecuária tem sido a galinha dos ovos de ouro do governo, com 30% do PIB, 30% dos empregos e a salvação da balança comercial”, analisa. “Por isso, há que se promover uma contrapartida para o setor”, justifica. De acordo com Kátia, há conversas adiantadas com representantes da equipe econômica do governo Lula para estudar medidas visando aumentar a renda no campo.

IMPONÊNCIA: sede localizada no Distrito Federal representa a pujança do setor

Outra proposta da “nova” CNA pretende instituir uma parceria com o Ministério da Agricultura. Segundo a presidente, uma das prioridades do setor está na implantação de um eficiente sistema de defesa agropecuária. Contudo, levando-se em consideração a infra-estrutura do Ministério da Agricultura, são reduzidas as chances de algo acontecer, não só no curto prazo, mas também de forma a contemplar os anseios e necessidades do setor. Para ela, a idéia seria “compartilhar” a responsabilidade com a CNA, que trabalharia com equipes terceirizadas para destravar a máquina do governo. “Como nossas regras para contratação são menos rígidas que as do governo, teríamos plenas condições de dar muito mais agilidade para este processo, sempre mantendo o diálogo com todas as partes”, enfatiza.

Além disso, será realizado um plano estratégico para os próximos 20 anos, levando em consideração os pleitos convergentes e dissonantes de todas as federações filiadas à CNA. “Claro que este plano terá de ser atualizado e revisto todos os anos, mas o que nos importa é manter um horizonte de metas a serem buscadas e objetivos a serem cumpridos”, analisa. Um deles está na implantação de um programa de inclusão digital. No próximo ano, os 500 maiores sindicatos rurais receberão computadores e toda uma infra-estrutura para ensinar esses produtores a se iniciarem no mundo cibernético. Kátia considera a ação fundamental para o aumento da segurança das operações do campo. “Todo produtor tem de aprender a fazer um hedge ou uma venda futura e faremos o possível para levar essas informações adiante”, afirma. Para os rincões mais distantes, três microônibus devidamente equipados vão percorrer o País para levar a inclusão digital aos mais distantes pontos. “Este é um modelo que, assim que for aperfeiçoado, poderá servir de exemplo para o próprio governo replicar”, comenta.

CONCILIAR É O DESAFIO

Nova presidente terá de se dividir entre a oposição

e o papel de representar o campo

DINHEIRO RURAL – Ao longo dos últimos anos a sra. tem tido um papel importante na oposição. Como será daqui para a frente, representando o campo?

KÁTIA ABREU – São duas coisas diferentes. Eu continuo democrata e votarei incondicionalmente com o meu partido. Contudo, nossa proposta na CNA é de uma postura pró-ativa e não reativa. Temos de ajudar o governo na criação de novas propostas e de políticas agrícolas e vamos trabalhar para levar este projeto para a frente.

RURAL – O campo deve ser subsidiado?

KÁTIA – Não tenho dúvida disso. Em todos os países desenvolvidos do mundo há políticas específicas para fixar o homem no campo. A produção de alimentos não é como uma atividade qualquer, ela é de interesse de todos. Portanto, o governo deve tratar este setor com o devido respeito, levando em conta o que ele tem significado para a economia brasileira ao longo dos últimos anos.

RURAL – E quanto ao atual momento…

KÁTIA – A crise é grave. O endividamento do setor é muito alto, principalmente no Centro- Oeste e com destaque para Mato Grosso. Acredito sinceramente numa queda importante na produtividade e na produção. Dificilmente o setor poderá repetir o bom resultado deste ano, quando os preços estavam bons, apesar do dólar desvalorizado.

RURAL – E qual é a proposta da CNA?

KÁTIA – Acreditamos que a produção agrícola é de interesse de toda a nação. Portanto, é preciso encontrar formas de dar uma renda adequada para que o campo continue produzindo. Estamos conversando com o governo e acredito num entendimento. Até porque não é razoável pensar que o governo queira matar a galinha dos ovos de ouro.