Economia

A guerra das máquinas

Em seu 15º aniversário, a Agrishow, maior feira agrícola do País passa por uma séria crise de identidade. Conheça os bastidores desta história

Uma carta com pouco mais de dois parágrafos, curta e grossa. Desta forma a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores, a poderosa Anfavea, comunicou à Agrishow que não participaria do evento em 2009. Na prática, isso representa a ausência de cinco grandes atrações: Case, New Holland, John Deere, Valtra e Massey Ferguson, além de uma dor de cabeça aos organizadores. Afinal, o evento chama-se Feira Internacional de Tecnologia em Ação – o que significa que seu ponto alto é mostrar os novos modelos de tratores e colheitadeiras, justamente em… ação.

O cisma entre as cinco grandes montadoras e a maior feira agropecuária da América Latina na verdade é um caso antigo. Há três anos a Anfavea fez o primeiro pedido para que o evento passasse a ser bienal. Sem ser atendida, a entidade decidiu de forma unilateral não participar da Agrishow 2009, deixando claro que no próximo ano estará de volta. Isso significa que as cinco grandes marcas participarão daquela que será, provavelmente, a última edição em Ribeirão Preto porque em 2011 a feira deverá acontecer na “Cidade Bioenergia”, projeto que será erguido em São Carlos e abrigará eventos de todas as câmaras setoriais da Abimaq, dona de 80% da Agrishow.

“Agora a agricultura está no comando da Agrishow e os produtores serão ouvidos nas novas decisões”

CESÁRIO RAMALHO DA SILVA, novo presidente da feira

A “Cidade Bioenergia” foi uma das maneiras encontradas pelo atual presidente da Abimaq, Luiz Albert em apaziguar os ânimos dentro da entidade. A ideia consiste em montar uma estrutura que receba não só a Agrishow, mas diversos outros eventos da associação. Há anos, a realização da feira tem sido alvo de polêmicas dentro da entidade. Isso porque a Agrishow inclui apenas duas câmaras entre 12 existentes, o que de certa forma consiste num tratamento diferenciado entre partes com direitos e deveres iguais. Embora não fale oficialmente sobre as questões políticas internas da Abimaq, durante sua campanha no ano passado, Albert derrotou o seu antecessor, Nilton de Melo, justamente com um discurso que incluía a imediata terceirização da Agrishow. A eleição de um candidato de oposição culminou com o fim de um ciclo de sucessões de grupos que mantinham uma política de continuidade de projetos, o que expôs algumas feridas.

A primeira baixa sentida no chamado Sistema Agrishow foi a do ex-presidente do evento, Sérgio Magalhães. Desde a segunda edição da feira até a posse de Albert ele comandou o evento. O mais longevo presidente do evento é apontado como um dos responsáveis pelo crescimento da feira por todo País, chegando a realizar outras Agrishow nas cidades de Luiz Eduardo Magalhães (BA), Rio Verde (GO) e Rondonópolis (MT), entre os anos de 2003 e 2007. Dentro da Abimaq, contudo, a ampliação do sistema não era uma unanimidade e eventos chegaram a ser cancelados já muito próximos das datas de sua realização. Um dos primeiros atos de Albert ao assumir a presidência da Abimaq foi cancelar indefinidamente todas as feiras, com exceção da de Ribeirão Preto. Alguns dos organizadores, como a Associação dos Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba) chegaram a propor o licenciamento do nome Agrishow, o que foi sumariamente negado. Já em 2008, sem a presidência de Magalhães, os novos comandantes decidiram chamar um nome de peso para comandar os novos rumos da feira. O escolhido foi o ex-Ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues que, coincidentemente, havia sido o primeiro presidente em 1996. A volta, no entanto, não durou muito. Rodrigues deixou o posto logo após o término do evento, incomodado com a transferência da Agrishow de Ribeirão Preto para São Carlos. “Acredito que muitos dos problemas que tivemos ficaram para trás”, explica o atual presidente, Cesário Ramalho. Segundo ele, agora com a sua presidência, a agricultura volta a ter voz ativa para a realização da feira. “Durante muito tempo os fabricantes foram ouvidos, mas os agricultores não. Agora há um equilíbrio de forças”, avalia.