Economia

A lida dos estrangeiros

O Brasil precisa de trabalhadores dispostos a ganhar a vida no campo. Com a escassez interna, o setor está apelando para a mão de obra estrangeira

ARADO ATRAENTE: setor rural oferece salários mais altos, benefícios e treinamento para recrutar trabalhadores

A pesar da sua extinção em shoppings centers e nas fachadas de escritórios dos grandes centros urbanos, que preferem não expor a sua necessidade ao público e contratam através de agências de emprego, a antiga placa “Há vagas” parece não sair de moda no restante do País. No campo, a busca por mão de obra – se for qualificada, melhor – é um dos gargalos da atual gestão nas fazendas. Faltam trabalhadores para quase todas as funções, de peão a gerente. Para completar, o antigo costume nas regiões Sudeste e Centro-Oeste de recrutar trabalhadores no Norte e Nordeste do País está deixando de ser uma alternativa às empresas agropecuárias, uma vez que essas regiões vêm aumentando suas áreas agricultáveis e também precisam de mão de obra.

TERRA NOSSA: haitianos contratados pela ETH Bioenergia trabalharão na empresa em Goiás

A contratação de trabalhadores de outros países, como o Haiti, na América Central, é o retrato dessa nova realidade brasileira. A iniciativa não é inédita no País, que já contratou haitianos para atuarem em empresas urbanas, mas nunca para a agropecuária. “Contratamos 23 haitianos, pessoas dispostas a aprender uma nova profissão e com vontade de trabalhar”, diz Almiro Senna, diretor de administração de pessoas da ETH Bioenergia, com sede em São Paulo, empresa do grupo Odebrecht, que atua na produção e comercialização de etanol, energia elétrica e açúcar. À primeira vista, a chegada dos primeiros haitianos à ETH, que emprega 14 mil funcionários, poderia ser confundida com uma ação humanitária, já que o país é um dos mais pobres do mundo e sofreu um terremoto em 2010, em que 200 mil pessoas perderam a vida.

“Pode até parecer, mas não é”, diz Senna. “Para nós, a contratação faz parte da estratégia da ETH em formar mão de obra.” Os novos trabalhadores da ETH, que produz três bilhões de litros de etanol e 2,7 mil gigawatts, por ano, de energia elétrica a partir da cana-de-açúcar, passaram por uma imersão que contou com aulas de português – inglês e francês são as línguas oficiais no Haiti – e treinamentos técnicos durante todo o mês de fevereiro, na unidade da empresa de Rio Claro, em Goiás, onde irão trabalhar. Essa turma vai lidar com a automação e manutenção de máquinas agrícolas.

Fonte: Caged *Incluindo trabalhadores informais

Além das empresas do setor sucroalcooleiro, empregadores de outros segmentos do agronegócio admitem que podem contratar estrangeiros para suas linhas de produção. É o caso da Cooperativa Agroindustrial de Cascavel (Coopavel), de Cascavel, no Paraná. Segundo o presidente da cooperativa, Dilvo Grolli, a ideia é contratar 30 haitianos nos próximos meses. “Nós já fizemos o primeiro contato com o país e esperamos pelas aprovações para a imigração”, diz Grolli. A Coopavel tem cerca de quatro mil funcionários, 24 unidades comerciais, dez unidades industriais no interior paranaense e hoje mantém mais de 250 vagas em aberto.

A busca por mão de obra não está restrita apenas às grandes empresas rurais e cooperativas. Os produtores também têm encontrado dificuldade na contratação de funcionários. Taylor Maróstica, da fazenda Maróstica, de Cascavel, associado da Coopavel, precisa de funcionários para uma outra propriedade que possui em São Pedro do Iguaçu, distante 70 quilômetros, mas não encontra mão de obra adequada. “Já penso em vender essa fazenda e comprar terras em Cascavel para concentrar minha mão de obra”, diz ele. Para não perder os atuais cinco funcionários que cultivam 650 hectares plantados com soja e milho, Maróstica diz oferecer uma remuneração acima da média da região e a qualificação dos profissionais. “Dar conhecimento é o passaporte para que todos cresçam”, afirma. Cada funcionário já recebeu pelo menos dois cursos técnicos nos últimos dois anos. É por causa de benefícios como esses que o tratorista Marcos Roberto Copashinski, 29 anos, há três na fazenda, não pensa em deixar o serviço. Copashinski não só quer ficar como já faz planos para se casar. “Encontrei a estabilidade que buscava”, diz o tratorista. “O campo tem muito espaço para trabalhar e não trocaria a vida daqui por nada.”

SOJA: para Maróstica, produtor rural do Paraná, está difícil encontrar mão de obra capacitada para sua fazenda

A forte demanda por mão de obra na agricultura brasileira se reflete nos dados do Cadastro-Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego. Em 2011, o setor agropecuário fechou com um saldo líquido (diferença entre as vagas abertas e as demissões) de 83,2 mil postos de trabalho não preenchidos. O saldo nas contratações com “carteira assinada” é um recorde para a série histórica do Caged, desde 2004, e um avanço para um setor que sempre teve a informalidade como marca registrada. Hoje, o Brasil possui um estoque de 1,4 milhão de empregados formais na área rural, para um total de 4,5 milhões de trabalhadores que atuam no campo.

O crescimento do emprego com carteira assinada, no ano passado, se deu mais fortemente nas regiões Norte e Nordeste. Para a economista Lilian Arruda Marques, do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o aumento de vagas no campo está acontecendo em áreas ainda pouco exploradas nessas regiões e não mais de forma desordenada. “A agricultura praticada por grandes empresas puxa o saldo de novas vagas para cima porque elas não trabalham na informalidade”, diz a economista, ao citar o exemplo do Pará, que está aumentando o número de trabalhadores nas áreas de plantação de palma para a produção de óleo de dendê. “Somente no ano passado, o Pará abriu duas mil novas vagas de empregos no campo”, diz. Segundo Lilian, além do Pará, o Piauí, Maranhão e Ceará seguem expandindo suas fronteiras agrícolas.

R$ 950 é o salário mensal oferecido a um peão de fazenda em início de carreira. mas os valores podem chegar a R$ 3 mil

INDÚSTRIA: a cooperativa paranaense Coopavel possui mais de 250 vagas em aberto em suas unidades frigoríficas 

Para Maurício Fraga, pecuarista e administrador de fazendas no interior paraense, a demanda da agricultura e o bom momento do agronegócio de modo geral vêm provocando um dos maiores desafios para a gestão das propriedades: administrar a mão de obra. A pecuária, acostumada à mão de obra abundante, agora precisa de estratégia para manter o homem no campo. “Vagas nós temos, só não temos gente para trabalhar”, diz Fraga. O fazendeiro administra sua propriedade, a fazenda Chupé, que ocupa uma área de 4,7 mil hectares e abate seis mil bovinos por ano, localizada em Redenção; a fazenda Porangai, em Xinguara, com 17 mil hectares e 25 mil bovinos; e uma das fazendas da Agropecuária Corona, do empresário paulista Amílcar Farid Yamin, da Duchas e Chuveiros Corona. A fazenda de Yamin, a 420 quilômetros de Xinguara, tem 16 mil hectares e 15 mil bovinos destinados à produção de carne. O número de empregados nas fazendas de Fraga é de cerca de 200 trabalhadores, e na Corona são mais 70.

Para reter os funcionários no campo, Fraga investe em treinamento e remunera por produtividade. “Caso contrário, não há como evitar. As pessoas saem em busca das oportunidades.” Em sua opinião, a realidade no campo mudou muito na última década e os empresários demoraram a perceber esse fenômeno. “Antigamente, o filho do vaqueiro aprendia a profissão desde menino e continuava na fazenda. Era natural”, diz. Segundo Fraga, hoje, mesmo as crianças que permanecem no campo não têm a pecuária como modelo de carreira profissional. “Nos últimos 20 anos, poucos garotos criados no campo ficaram na terra e isso diminuiu ainda mais a oferta de mão de obra.” Fraga observa que hoje é muito difícil substituir um profissional treinado, e que muitas vezes a fonte para contratações pode ser a fazenda ao lado, justificando o alto índice de rotatividade de mão de obra na região, na faixa de 40% no ano. “Aqui no Pará está assim: quando sai um funcionário de uma fazenda, a notícia logo se espalha na vizinhança”, diz.

Melhor para os trabalhadores, que veem seus salários subindo a cada novo treinamento e contratação. Hoje, um peão de fazenda em início de carreira ganha, em média, R$ 950, valor 25% maior, em termos reais, do que há cinco anos. Mas o salário dessa categoria de trabalhadores pode chegar a R$ 3 mil. “Além disso, quem trabalha em fazenda sempre tem casa, água e transporte como benefício”, diz Fraga.

 

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