Economia

A saga dos rios voadores

A ciência está provando que as chuvas que molham a sua lavoura vêm da Amazônia.

“O Brasil pode virar um grande deserto se não preservar a Amazônia”

GERARD MOSS: pesquisador dos “rios voradores”

A o longo dos anos, por diversas vezes as questões relacionadas à preservação da Amazônia colocaram de lados opostos ambientalistas e produtores rurais. No entanto, uma recente descoberta pode colocar esse tema em um novo patamar de discussão. Isso porque, segundo afirmam alguns dos mais prestigiosos centros de pesquisa do País, quanto maior o desmatamento na Amazônia, menor o volume de chuvas nos Estados do Sul, Sudeste e Centro- Oeste. Numa situação mais severa, poderia ocorrer a desertificação dessas áreas, como acontece em outras áreas do mundo, situadas na mesma latitude dessas regiões. Isso inviabilizaria a agricultura nessas regiões, o que seria uma catástrofe econômica. A correlação foi verificada numa pesquisa envolvendo o Centro de Energia Nuclear da Agricultura (Cena/USP), Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CPTEC/Inpe) e um corpo de mais 15 cientistas independentes. A novidade está na evidência coletada de que grande parte da umidade que provoca chuvas nessas regiões se forma na Amazônia e é levada por correntes de ar, dando origem aos chamados “rios voadores”. E são justamente esses “rios voadores” que podem estar ameaçados.

A pesquisa foi conduzida pelo cientista Gerald Moss, que há dois anos viaja pela região amazônica a bordo de seu pequeno avião monomotor, sobrevoando a floresta a uma altura nunca superior a 50 metros das copas das árvores. Assim ele colhe amostras de vapores e pode mapear a incidência desse fenômeno. Desde o início do projeto, foram mais de 12 viagens, percorrendo milhares de quilômetros. Ao todo, ele coletou cerca de 500 amostras de vapor de água, que posteriormente tiveram suas composições e características analisadas. “Nós já conseguimos provar cientificamente a existência desses rios voadores e registramos aumento de 25% a 40% de água precipitável na atmosfera em regiões onde ocorreram os rios voadores.”

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A grande preocupação é que queimadas e desmatamento constante naquela região provoquem uma diminuição na ocorrência ou na “vazão” de água desses “rios”. Segundo Moss, uma árvore de grande porte coloca cerca de 300 litros de água por dia na atmosfera. São cerca de 20 bilhões de metros cúbicos de água lançados diariamente. Um volume maior que a vazão do rio Amazonas, o maior do mundo. A cada árvore retirada, o impacto não atinge somente a Amazônia, mas todas as outras regiões para onde a água é transportada. “Temos no Brasil cerca de 600 mil quilômetros de terras desmatadas nos últimos 30 anos. Ainda não podemos concluir que a umidade que sai da Amazônia seja a principal responsável pela formação de chuva, mas com certeza é a única que está ameaçada”, observa.

BLAIRO, O ECOLOGISTA: o governador de Mato Grosso diz que conter o desmatamento da Amazônia não é apenas uma questão financeira, mas principalmente uma necessidade para o campo brasileiro

Para se ter ideia da importância desse fenômeno, Moss conta que em um rio voador que saiu de Belém até a cidade de São Paulo foi registrado o transporte de cerca de 3.200 metros cúbicos de água por segundo. Dessa forma, em apenas um dia, esse rio voador levou a São Paulo um volume de vapor que corresponde a 27 vezes a vazão do rio Tietê. “As queimadas na Amazônia prejudicam esse fenômeno e o nosso objetivo é medir o que está acontecendo”, informa.

CICLO DAS ÁGUAS: a Floresta Amazônica lança cerca de 20 bilhões de metros cúbicos de água por dia em forma de vapor, volume superior à vazão do rio Amazonas, o maior do mundo

Os dados da pesquisa desenvolvida pelo projeto ainda são preliminares, mas, mesmo faltando dados científicos sobre a redução na incidência dos rios voadores, Moss não tem dúvida de que alguns incidentes climáticos já sejam decorrência desse problema. “Na região Sul, temos secas cada vez maiores e mais longas.” Quem está preocupado com o assunto é o governador de Mato Grosso, Blairo Maggi, que tem adotado uma postura conservadora em relação ao meio ambiente. “Todo produtor terá de ser um pouco ecologista para o Brasil preservar suas matas e principalmente a Amazônia”, diz. “Isso não é uma questão econômica, e sim uma necessidade”, revela.

De acordo com a meteorologista da Climatempo Patrícia Madeira, os rios voadores têm uma participação essencial na formação do clima para o plantio. Isso porque os agricultores do Sudeste e do Centro-Oeste esperam que a chuva se estabeleça a partir de outubro, para o plantio da safra de verão. Antes disso não há umidade no solo suficiente para a germinação e manutenção das lavouras. “Quando essa esteira de umidade demora um pouco mais, a safra atrasa. Isso aconteceu em 2007. Depois da estiagem, a chuva só voltou de forma significativa em dezembro. O plantio mais tarde resultou em colheita tardia”, ressalta Patricia, que concorda que a manutenção desse fenômeno seja essencial para a agricultura nessas regiões. “Se os rios voadores deixassem de existir, a agricultura do Sudeste e do Centro-Oeste passaria por sérias dificuldades, já que faltaria boa parte da chuva necessária para o seu desenvolvimento”, pondera.