Economia

Alcool é batata

A China diz que agora só produzirá etanol da batata-doce e mandioca. Quem ganhará com isso?

COMUNITÁRIO: minifúndios chineses são um dos nós da discussão sobre a produção

Batata-doce, mandioca e sorgo serão agora utilizados para a produção de etanol na China. A decisão foi tomada há um mês após a determinação do governo comunista de proibir o esmagamento de milho com fins de produção de álcool, o que deverá ocorrer nos próximos cinco anos. A notícia é boa principalmente para os produtores brasileiros e há dois ótimos motivos. O primeiro é que, com a decisão, o gigante asiático começa a dar sinais do limite a que chegou a relação entre a produção de milho e o seu consumo interno – o que levaria, em alguns poucos anos, à necessidade de importação. E, em segundo lugar, no caso da importação, o foco se volta para o Brasil, hoje grande parceiro daquele país quando o assunto são grãos. O melhor exemplo é a soja.Cerca de metade dos 16 milhões de toneladas do grão que será exportado este ano será comprada pela China.

Na verdade, a China desistiu do modelo de bioenergia à base de milho devido à dificuldade de oferta com folga. O país não tem importado milho para qualquer fim, porque ainda é auto-suficiente. O projeto está agora centralizado no álcool de mandioca, batata-doce e sorgo – um pouco mais viável pela produtividade e pela possibilidade de resultado em miniprodutores. “A China já é o maior comprador de soja do brasil, ou seja, estrategicamente, toda a base portuária chinesa está preparada pra receber nossa soja. Para receber o milho seria uma conseqüência”, afirma o analista Fabio Renato, da Agra FNP. “Além disso há a questão da irrigação, problema que afeta os chineses há muito tempo e que, até agora, não foi solucionado.” Renato diz ainda que no caso do milho o Brasil certamente seria beneficiado. “Os Estados Unidos, maiores produtores do mundo de milho, não têm o grão para exportar”, conta o analista. “A produção deste ano está estimada em 335 milhões de toneladas, mas só 55 milhões de toneladas são exportados; o restante é absorvido pelo próprio mercado interno norte-americano. Não bastasse, há pelo menos dez anos as exportações se mantêm entre 45 e 55 milhões de toneladas.”

Já o analista de mercado Paulo Molinari, da Safras & Mercado, afirma que certamente os produtores brasileiros poderão se beneficiar de uma futura abertura de importações de milho pela China já que o primeiro efeito para os países aos quais a China atendia com exportações de outros produtos agora devem buscar as opções únicas disponíveis, ou seja, Estados Unidos, Argentina e Brasil. “O Brasil já está inserido no mercado internacional como exportador desde 2000. Qualquer redução de vendas por parte de um exportador concorrente implicará em maiores volumes de compras do Brasil”, diz Molinari. “Mas, além disso, o ajuste no quadro chinês revela que qualquer problema climático pode trazer uma situação onde o Brasil seja a opção mais direta para compras, assim como já ocorre com a soja.”

Não se pode esquecer ainda de outro elemento fundamental. A China está finalizando a negociação da construção de usinas no Nordeste com o Grupo Farias, em Pernambuco, com quem se associou. O negócio está estimado em R$ 1,3 bilhão, inclusive com protocolo de intenções já assinado, e resultaria em uma produção de 800 milhões de litros de álcool por ano. E, segundo os próprios chineses, esse seria apenas o primeiro de uma série de negócios.