Economia

As amarras do açucar globalizado

Subsídios que estimulam a produção na Índia e na Tailândia podem levar a uma batalha na Organização Mundial do Comércio

As amarras do açucar globalizado

Montagem sobre foto de shutterstock

Produtores globais de açúcar, como Brasil, Austrália e Colômbia, estão de olho na Índia e na Tailândia. O governo indiano é conhecido por interferir em demasia no setor sucroenergético, ao regular o preço da cana-de-açúcar no país e criar uma forte política de subsídios. No início do ano passado, a Índia foi questionada pelo Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC) por criar um subsídio de 3,3 mil rúpias para cada tonelada de açúcar exportada, valor equivalente a US$ 53. Em fevereiro deste ano, o país ampliou esse incentivo para o equivalente a US$ 64 por tonelada. De acordo com Plínio Nastari, presidente da consultoria Datagro, de São Paulo, essa conduta preocupa os concorrentes. “O mundo inteiro deseja que o governo indiano pare de interferir no mercado de açúcar”, diz Nastari. “Essas políticas distorcem o mercado.” (leia artigo na pág. 90).

A justificativa dos indianos para estimular a produção se baseia no fato de que o setor no país é tomado por pequenos produtores. São 50 milhões de canavieiros, com propriedades de cerca de dois hectares. Para comparação, no Brasil, o setor conta com cerca de 45 mil produtores de cana-de-açúcar. Segundo Antonio de Padua Rodrigues, diretor técnico da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), atualmente o preço da cana na Índia representa 90% do valor do açúcar, enquanto no Brasil ele equivale a 60% do produto final. Somado ao benefício para a exportação, a política pesa na conta global. “O estrago já foi feito”, diz Rodrigues. “O subsídio influenciou no balanço global de oferta e demanda.” Com os estímulos e o clima favorável, a produção indiana, que foi de 24,3 milhões de toneladas na temporada 2013/2014, será de 26 milhões nesta safra. Porém, as exportações serão de 1,8 milhão de toneladas de açúcar, contra os embarques de 2,2 milhões de toneladas na safra anterior. Para Nastari, a ampliação do subsídio foi uma reação ao recuo das exportações.

Já a Tailândia, que foi aliada do Brasil num contencioso contra subsídios ao açúcar da União Europeia, em 2005, agora é mais um alvo de questionamento. “A Tailândia está surpreendendo o mercado com um aumento de produção e de exportação num ritmo bastante veloz”, diz Arnaldo Luiz Corrêa, diretor da Archer Consulting. Segundo ele, mesmo com o recuo de 8% da produção tailandesa, de uma safra recorde de 11,3 milhões de toneladas para 10,4 milhões de toneladas na temporada 2014/2015, as exportações indicam um avanço de 32%, passando de 6,4 milhões de toneladas embarcadas na safra 2013/2014 para 8,5 milhões de toneladas na atual temporada. “O negócio deles é exportar”, diz Corrêa.

Por trás desse desempenho, há a ajuda governo tailandês. A Unica estima uma remuneração ao produtor de US$ 5 para cada tonelada de cana produzida. Segundo Jacyr Costa, diretor da divisão Brasil do grupo francês Tereos e conselheiro da Unica, a entidade está desenvolvendo estudos sobre a produção tailandesa, em articulação com o governo brasileiro, para investigar o suposto subsídio. Nos últimos três anos, o Brasil perdeu participação nas exportações de açúcar, de 50% para 45%, de um total que gira em torno de 51 milhões de toneladas. “Enquanto isso, a Tailândia aumentou sua participação de 12% para 16%”, diz Costa. “Há fortes indícios de subsídio.”

De acordo com Rodrigues, o mercado está na contramão da lógica esperada. O Brasil, o maior fornecedor global de açúcar, reduziu a produção e os embarques do produto nas últimas três safras e, mesmo assim, o preço da commodity permanece em patamares baixos. “Sem dúvida, há produtores entrando nesse mercado numa situação favorecida”, afirma Rodrigues. “Esses fatores estão prolongando o ciclo de baixa da commodity.”