Economia

Argentina de portas fechadas

Com a restrição de importação para 600 itens, governo de Cristina Kirchner deixa produtores insatisfeitos e cria mal-estar com parceiros no Brasil

Uma nova praga está atacando as propriedades rurais da Argentina e deixando produtores e indústria em alerta. Não se trata de algum tipo de lagarta da soja ou de parasita do trigo. Mas ao longo do tempo pode trazer danos ao agronegócio. Munidos de forte dose de ironia e mordacidade, os produtores daquele país sustentam que a ameaça atende pelo nome de Cristina Kirchner, a presidente da Argentina, responsável por editar as chamadas licenças não automáticas, ou seja, a necessidade de obtenção de autorização para importação de produtos. Segundo os ruralistas, desde 2009, essa sanção vem dificultando a importação de vários itens, entre eles, alimentos, têxteis, máquinas, tratores e outros implementos agrícolas. No primeiro trimestre de 2011, a lista passou dos 400 para 600 produtos, apertando ainda mais o cerco aos importados. A medida, cujo objetivo é incentivar a indústria local e equilibrar a balança comercial, produziu efeitos contraditórios. Isso porque muitas peças usadas para a fabricação de máquinas localmente são importadas, inclusive do Brasil. Além disso, muitos produtores rurais, habituados a comprar maquinário de multinacionais, preferem esperar a situação melhorar, em vez de optar por modelos nacionais.

Preferência:

nas lavouras argentinas, muitos produtores preferem as máquinas importadas

Com o intuito de monitorar a concessão de licenças, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior do Brasil, Fernando Pimentel, se reuniu com representantes do governo argentino, no final de fevereiro. Juntos, anunciaram a criação de um grupo para acompanhar de perto as concessões, para que o prazo não ultrapasse os 60 dias previstos pela Organização Mundial do Comércio (OMC). “Resolvemos estabelecer uma comissão de acompanhamento para que não haja qualquer dúvida presidenquanto ao fato de que esta resolução não venha a prejudicar as exportações brasileiras”, disse Pimentel. Já a ministra da Indústria da Argentina, Débora Giorgi, garantiu, em nota oficial, que “a estratégia de comércio para resguardar os postos de trabalho deu resultados satisfatórios à nossa indústria”. Em 2010, o país reduziu as importações em US$ 9,2 bilhões.

 

polêmicas:

por causa das medidas que afetam o campo, Cristina Kirchner foi apelidada por produtores argentinos de “a nova praga”

Na prática, a indústria brasileira vem sofrendo com os efeitos colaterais das medidas adotadas pela presidente Cristina Kirchner. Segundo dados da Anfavea, das 29.364 máquinas agrícolas exportadas pelo Brasil em 2008, 7.491 foram para o mercado argentino. Já em 2009, ano em que as restrições à importação tiveram início, esse número caiu para 1.634 máquinas. Segundo Milton Rego, vice-presidente da Anfavea, desde janeiro os fabricantes brasileiros não conseguem licenças para exportar para a Argentina. “A cada trimestre que deixamos de exportar para lá, perdemos 5% da produção nacional”, diz Rego. “Isso significa algo em torno de US$ 120 milhões.” As indústrias já acusam o golpe. Uma delas é a Jacto, de Pompeia, no interior paulista, que exporta lavadoras e pulverizadores. “O problema maior é que muitas vezes faltam peças de reposição e não temos como atender os clientes”, diz Marcelo Daniel Blanco, gerente comercial da empresa para a Argentina.

 

 

 

De acordo com ele, há mais de um ano, a Hidrolavadora Jacto Clean, um dos carros-chefes da empresa, não entra no país vizinho. “Em 2010 só conseguimos licença para uma máquina dessas”, afirma. “Estamos perdendo mercado e revendedores.” Quem também está sentindo dificuldades para obter licenças de exportação é a New Holland, controlada da CNH, do grupo Fiat. Há três meses, o processo está mais lento e os depósitos da empresa na Argentina mais vazios. “Só temos estoque para suprir as vendas até abril”, diz Sebastião Amauri Fagundes, diretor comercial da empresa naquele país.

Do outro lado do balcão, produtores rurais sentem as consequências das sanções. O agricultor Maurício Fidero, por exemplo, planta 1.500 hectares de soja, milho, girassol e trigo nos arredores de Buenos Aires. Encontramos Fidero passeando pelos estandes da Expoagro, a maior feira agropecuária argentina, realizada na primeira semana de março e cujo movimento na estreia foi abaixo do esperado. Fidero contou à DINHEIRO RURAL, que pretendia adquirir pelo menos mais um trator importado neste ano, para renovar a frota e melhorar o trabalho nas fazendas. Mas vai ter que esperar mais um tempo ou então optar por investir em uma marca nacional. “Prefiro aguardar, os modelos importados oferecem mais opções e tecnologias”, disse, enquanto namorava um exemplar que com sorte só poderá levar para casa daqui a alguns meses.

 

MARCHA LENTA:

Fagundes, da New Holland (à dir.), e Blanco, da Jacto (abaixo), reclamam da demora para obter licenças, enquanto veem os estoques de máquinas das empresas na Argentina diminuindo

Mesmo diante de um quadro crítico, há a possibilidade de que o tempo para liberação das licenças diminua nos próximos meses. Pelo menos é no que acredita Christian Lancestremere, gerente comercial da Case para a Argentina e presidente da Associação de Fábricas Argentinas de Tratores (Afat). “As relações entre nossos países são boas e o Mercosul está aí para facilitar o comércio entre seus membros e não dificultar”, diz. Segundo Lancestremere, a Case tem uma grande quantidade de máquinas prontas, apenas aguardando a aprovação do governo de Cristina Kirchner para ingressar no mercado. Enquanto isso, outras empresas estudam a possibilidade de abrir unidades fabris na Argentina, na tentativa de driblar as sanções e não perder mercado. Para Rego, da Anfavea, isso é um risco para o Brasil. “As empresas reduziriam seus investimentos aqui para investir lá”, afirma.

 

A conta não fecha

As licenças não automáticas do governo argentino significam perdas para o setor de máquinas agrícolas brasileiro

Brasil – Argentina (em milhões de US$)

Fonte: Anfavea/Secex