Economia

Arrancada rumo à supersafra

O agronegócio começa a viver um novo ciclo de vacas gordas e a expansão do PIB rural já contagia diversos setores da economia brasileira

Repare bem em alguns indicadores. Nos primeiros sete meses deste ano, as vendas de máquinas agrícolas, como grandes tratores e colheitadeiras, cresceram 41,5% em todo o País. No Centro-Oeste, o faturamento do comércio avançou 15% no mesmo período – a maior taxa nacional. Apenas em Mato Grosso, os embarques de carne para exportação aumentaram outros 50%. E, no Sul do País, indústrias de máquinas, como a AGCO e a John Deere, voltaram a contratar mão-de-obra. Para onde quer que se olhe, há sinais positivos e, em alguns casos, até exuberantes. Por trás disso, há um número mágico.

Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento, o Brasil irá colher 132,3 milhões de toneladas de grãos na safra 2006/2007. É um número que representa um salto de quase 20 milhões de toneladas – um Paraguai – em relação à safra de dois anos atrás. “O Brasil está voltando a viver um ciclo de vacas gordas no campo”, diz o consultor André Pessoa, da Agroconsult. Tão importante quanto os resultados da safra atual é a projeção para o próximo ano. “Tudo indica que poderemos chegar a 140 milhões de toneladas”, aponta Pessoa.

Sinais nessa direção parecem claros. Em agosto, a venda de adubos e fertilizantes cresceu 44,8% no Brasil, na comparação com o mesmo mês do ano passado. Isso significa que os agricultores estão confiantes e já estão apostando alto no plantio da próxima safra. “Há um claro otimismo, que se acentuou depois que os Estados Unidos abraçaram de vez o etanol”, avalia Eduardo Daher, diretor da Associação Nacional para Difusão de Adubos. “Isso puxou o consumo de adubos e fertilizantes não só no Brasil, mas em todo o mundo.” É evidente que um crescimento tão forte também reflete a crise dos últimos anos, em que o mercado ficou parado. Mas o detalhe significativo é que as vendas serão superiores às de 2003, ano que havia sido o melhor do setor. A confiança do produtor rural também se reflete em outros aspectos. De acordo com levantamento da Agroconsult, a área plantada nacional terá um incremento de 4,2%, saltando de 46,2 milhões para 48,1 milhões de hectares. Considerando os gastos previstos em tecnologia, principalmente nas compras de insumos já realizadas, a consultoria acredita que o País poderá colher um volume 7,4% superior na safra 2007/2008.

“Se as exportações aumentam 20% e a safra de grãos cresce 10%, como o IBGE pode apontar um resultado ruim do PIB agrícola?”

REINHOLD STEPHANES: ministro questionou dados oficiais do próprio governo

Todos esses números positivos também abriram uma frente de batalha entre o Ministério da Agricultura e o IBGE, que realiza os levantamentos estatísticos oficiais sobre o PIB rural. De acordo com o IBGE, a produção do agronegócio brasileiro cresceu apenas 0,2% no segundo trimestre deste ano – o resultado acumulado em 12 meses, no entanto, é de 6,6%. Reinhold Stephanes, ministro da Agricultura, está convencido de que os dados do PIB rural estão sendo subestimados. “Há claramente um erro ali”, disse ele. “Se as exportações crescem 20%, a safra de grãos sobe 10% e a de cana avança 11,3%, como eles podem apontar aquele resultado?”, indagou o ministro. A se levar em conta os indicadores atuais do agronegócio, tudo indica que ele tem razão.

O crescimento físico da produção tem sido significativo, mas a renda dos agricultores seria maior se o real não estivesse tão valorizado. O dólar a R$ 1,85, como se viu no fim de setembro, é um pesadelo para os produtores – o que atenua os prejuízos é a tendência de alta das commodities agrícolas. Além disso, há um outro “porém”. Ao contrário do plantio ocorrido no ano passado, em que o clima foi o melhor amigo do produtor, o “tempo” dá mostras de que poderá pregar algumas peças no futuro breve. Os índices pluviométricos, segundo o Instituto Nacional de meteorologia (INM) estão abaixo do normal, ou seja, falta água. Na verdade, segundo o pesquisador do INM Francisco de Assis, as chuvas demoraram para acontecer. “Em setembro, praticamente não choveu, o que confirmou nossos modelos que previam o aparecimento da La Niña”, revela. Como o próprio nome sugere, a “La Niña”, nada mais é do que o esfriamento das águas do oceano pacífico, na área equatorial. “É o oposto do El Niño, que aquece as águas e faz chover mais”, explica. Isso, segundo cientistas, aumenta em muito as chances de períodos de estiagem. De acordo com Assis, os modelos técnicos prevêem 55% de chance de Rio Grande Sul, Santa Catarina, oeste do Paraná e oeste de São Paulo sofrerem com a falta de chuva até, pelo menos, o mês de novembro. Se isso vier a ocorrer, o sonho da produção de 140 milhões de toneladas ficará um pouco mais distante.