Economia

Biodiesel: o exemplo alemão

Responsável por 44% da produção européia, a Alemanha tem muito a ensinar ao mundo - inclusive ao Brasil

Se no Brasil, o etanol é a menina-dos-olhos do presidente Lula, o biodiesel é a jóia da coroa da chanceler alemã, Ângela Merkel, defensora intransigente do meio ambiente. Atualmente, a Alemanha é referência mundial e responsável por 44% de toda produção de biodiesel da União Européia. A previsão para este ano é de que sejam produzidos quatro milhões de toneladas do combustível, o dobro do que foi fabricado em 2006. Para se ter uma idéia do tamanho dessa produção, basta ter em mente que o Brasil está com dificuldades para alcançar a produção de 568 toneladas, meta estabelecida para final de 2007. Na abertura do 62º Salão do Automóvel de Frankfurt, Ângela Merkel insistiu que é preciso reagir para reduzir as emissões de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera: “É um assunto que não podemos solucionar sozinhos”, destacou. “A luta contra o aquecimento global é uma responsabilidade de todos os países.”

Foi nesse clima que o famosíssimo cantor alemão de hip-hop Smudo – embora pouco conhecido no Brasil – apresentou o primeiro carro de corrida movido a biocombustível do mundo, o BioConcept Car. Símbolo do Salão de Frankfurt, o carro foi inspirado em um Mustang GT, tem 280 cavalos de potência e um motor de quatro cilindros movido a biodiesel. O BioConcept Car era a representação ideal da angústia das montadoras que precisam tornar seus carros ecologicamente corretos, mas não podem abrir mão da potência. Isso porque a União Européia pretende reduzir as emissões de CO2 em 120 gramas por quilômetro, até 2012. Hoje, a média é 25% maior. E a Alemanha tem feito a sua parte. Em 2008, os alemães planejam substituir 12% do consumo de diesel com biodiesel – o Brasil fica bem atrás, onde a meta é de 2% no próximo ano. Toda a frota de ônibus alemã utiliza o biodiesel, que, ao contrário do Brasil, é extraído de uma planta chamada colza e distribuído de forma pura (B100) para 1,9 mil dos 15 mil postos da Alemanha. Lá, uma mesma bomba possui dois bicos, um para o óleo diesel de petróleo e o outro, com selo verde, para o biodiesel. O uso é tão difundido, que desde o ano passado, Merkel decidiu que não é mais necessário subsidiar e estimular a produção, o que o Estado fazia de 1991. Taxou os biocombustíveis e deve embolsar 1,6 bilhão de euros em impostos. “A Alemanha já foi como uma luz brilhante para investidores, beneficiados pela isenção de impostos sobre biocombustíveis”, afirmou Jonathan Johns, diretor da Ernst & Young, que prevê dificuldades para as refinarias de biodiesel com as taxas que serão elevadas gradualmente até 2012, quando os preços de diesel e biodiesel serão equiparados.

A indústria, contudo, aposta alto no sucesso do biodiesel, apesar da reclamação das refinarias alemãs, que prevêem aumento de preço de seis centavos por ano até 2012. No Salão de Frankfurt, a Citroën apresentou o carro-conceiro C5 Airscape com tecnologia híbrida HDi, que reduz o consumo e as emissões de poluentes. O C5 Airscape é equipado com um motor V6 HDi associado a um filtro de partículas, que pode funcionar com biodiesel. De acordo com a Citroën, todos os motores HDi comercializados pela marca desde 1998, podem funcionar com combustível que contenha até 30% de biodiesel sem nenhuma modificação. A francesa Peugeot levou para Frankfurt cinco carros-conceitos. Um deles, derivado do 308, é também movido com biodiesel e misturas de até 30% de éster de óleo vegetal e gasóleo, com redução das emissões de CO2 da ordem de 18%. É por tudo isso que o presidente Lula, em seu programa de rádio Café com o Presidente destacou: “A União Européia decidiu que até 2020 vai introduzir na gasolina ou no óleo diesel, 10% de biocombustíveis. O biodiesel brasileiro é uma semente que certamente vai dar fruto”. A dúvida é: quando?