Economia

Blairo Maggi no caminho do otimismo

Governador de Mato Grosso acredita que o pior já passou e que a baixa nos preços das commodities foi, na verdade, o melhor que poderia acontecer para o setor. Ele está certo?

” HÁ TRÊS MESES EU PENSAVA QUE ESSA CRISE SERIA MUITO PIOR. HOJE, ACREDITO QUE O SETOR TEM CONDIÇÕES DE ATRAVESSAR O ANO COM BOA RENTABILIDADE “

BLAIRO MAGGI,

governador de Mato Grosso

Os primeiros dias de janeiro foram agitados para o governador de Mato Grosso, Blairo Maggi. Com diversas viagens marcadas para o interior do Estado, ele conferiu pessoalmente uma série de pendências – obras do PAC, construção de estradas, casas populares – e, acima de tudo, ouviu o que acontecia com os produtores rurais matogrossenses, seu principal eleitorado. Caminhando para a segunda metade de seu segundo mandato e sem a possibilidade de uma nova eleição, o “rei da soja” diz que está tranquilo. Como chefe do Estado, ele garante que fez a sua parte e entregará todas as promessas de campanha. Diante da crise econômica, cujos desdobramentos arrancaram perspectivas desastrosas para o início da safra, Maggi está mais otimista. Para ele, o pior já passou e o problema pode não ser tão grave quanto poderia se imaginar (ver matéria na página 76).

Na opinião do governador, se os preços continuarem com o mesmo comportamento do início do ano, bons ventos soprarão sobre as lavouras brasileiras. Como resultado, ele acredita que há cada vez menos espaço para o “cassino das commodities”, em que produtores adotaram estratégias quase suicidas em suas gestões financeiras. A lição que fica mostra o que o bom senso já sabia: “Quem aposta demais, quando perde, o tombo é grande”, explica o governador.

Passados cinco meses desde o início da crise financeira e a consequente queda dos preços da soja, do milho e do algodão na bolsa de Chicago, para Maggi, é possível identificar quem perdeu no jogo financeiro rural. “Os fazendeiros que mantiveram o vínculo entre as ações financeiras e físicas vão atravessar essa tormenta e quem sabe até ganhar dinheiro”, diz. “O problema está localizado naqueles produtores que apostaram contra o dólar, a favor da alta de preços e não garantiram suas posições na venda da safra”, diz. Em português claro, o governador faz uma crítica velada àqueles produtores que não travaram suas posições com vendas antecipadas, garantindo o pagamento das contas. Esses, segundo ele, perderam excelentes oportunidades na ânsia de que o mercado subisse ainda mais. “Isso, considerando que nunca antes o bushel da soja chegou a custar US$ 17”, analisa.

ACELERANDO:

governador afirma que obras do PAC,

que reformam rodovias, estão adiantadas

Blairo Maggi afirma que para esse grupo a crise será pesada e muitos sairão da atividade. Como prova, o governador comenta o fato de que muitos poucos sojicultores tiraram proveito dos altos preços do ano passado, quando a soja chegou ao seu maior patamar histórico. “Muita gente travou o preço antes e não tinha soja para entregar a esses preços supervalorizados e quem tinha viu o preço do frete disparar e todos os custos acompanharam essa subida, que, na realidade, foi muito prejudicial”, comenta.

” O PRESIDENTE LULA ATENDEU ÀS DEMANDAS DO SETOR, MAS PRECISA FICAR MAIS ATENTO AO BANCO DO BRASIL “

BLAIRO MAGGI, governador de Mato Grosso

BOM MOMENTO – Mesmo para a safra que está em pleno andamento, apesar dos custos elevados no plantio, Maggi acredita que há boas chances de rentabilidade. “Isso porque com os preços atuais (US$ 10 o bushel) ainda estamos acima das médias históricas e alguns custos importantes estão em queda livre”, diz. Entre eles, o frete rodoviário e naval, cujo valor desabou de US$ 100 a tonelada embarcada, para US$ 12. “Nesses parâmetros, as chances de uma rentabilidade mais razoável são muito maiores do que aquela loucura de aumento de preços generalizado que tomou conta do mercado”, pondera. Em média, segundo o governador, o custo de produção praticado no Centro-Oeste caiu para menos da metade do praticado em 2008. “O produtor está desembolsando 35% dos valores cobrados seis meses atrás”, afirma.

Até mesmo a restrição de crédito existente no mercado, com pouca oferta de dinheiro, pode não afetar de forma tão intensa as lavouras brasileiras. A lógica usada pelo governador de Mato Grosso leva em consideração o volume financeiro disponível no mercado, cerca de 50% abaixo do percebido nos dois últimos anos. Contudo, os preços dos insumos também caíram para patamares de 2007. “Se você tem 50% dos recursos do ano anterior e um custo de produção em 35% para o mesmo período, chega-se à conclusão de que a conta pode fechar sem grandes problemas”, conclui.

GOVERNO FEDERAL – Quanto às ações do governo Lula para conter a crise, o rei da soja prefere não polemizar. Segundo ele, o Planalto atendeu às expectativas do setor, mas tem de ser mais enérgico em relação ao Banco do Brasil. “O dinheiro chegou, mas o banco não liberou, alegando que o limite de crédito de muitos produtores havia se esgotado”, comenta. Com a liberação de US$ 20 bilhões para empresas com problemas de financiamento externo, anunciada pelo Banco Central em 14 de janeiro, dá-se um grande passo para solucionar outro problema: o estrangulamento do crédito exterior. “Há muitas empresas que pegaram empréstimos externos e ficaram inadimplentes e a solução do governo, resolve a questão.” Maggi, aliás, comenta que a ação esteve entre uma série de sugestões enviadas ao Planalto por sua equipe. “Não sei se o governo atendeu ao nosso pedido ou se chegou à mesma conclusão, mas o importante é que algo foi feito”, comenta.