Economia

Brasiguaios lutam pela terra

Quem são os brasileiros que plantam 90% da soja paraguaia e por que muitos temem os planos do novo presidente, Fernando Lugo

TODO-PODEROSO: Romildo Maia chegou a San Alberto nos anos 60. Hoje é prefeito e líder dos produtores

Por onde quer que se ande em San Alberto, um pequeno vilarejo rural no distrito do Alto Paraná, no Paraguai, o que se ouve são pessoas falando português. Dos 20 mil habitantes da cidade, 90% são brasileiros que chegaram ao país nos anos 70, em busca de uma vida melhor.

Atraídos por terras boas e extremamente baratas, venderam tudo o que tinham no Brasil e partiram rumo ao desconhecido. O começo foi difícil, é verdade, mas hoje com o preço da soja nas alturas, os produtores brasileiros são os responsáveis por mais de 60% das divisas que entram no Paraguai, algo em torno de US$ 2,8 bilhões. Mesmo assim, estão ameaçados.

LADOS OPOSTOS: Ciloir Silva (acima) comemora os bons resultados obtidos ao lado de sua nova picape, comprada por 1,2 mil sacas de soja. À esquerda, Fernando Lugo, que promete fechar o cerco aos ilegais

A ameaça responde pelo nome de Fernando Lugo. Ex-bispo católico, Lugo assumiu a Presidência do Paraguai no dia 15 de agosto, acabando com uma hegemonia de 60 anos do Partido Colorado no poder. Durante sua campanha, prometeu endurecer a relação com os “brasiguaios”, como são chamados por lá, e fazer uma reforma agrária no país. DINHEIRO RURAL esteve em San Alberto e conversou com alguns produtores brasileiros sobre a expectativa em torno do novo presidente. Os fazendeiros mais prósperos dizem não acreditar em atitudes radicais por parte de Lugo, pelo menos por enquanto. Já os que vivem em situação irregular estão apreensivos, pois sabem que serão os primeiros alvos de uma eventual reforma agrária.

“Ninguém sabe o que vai acontecer”, afirma o brasileiro Romildo Maia, que chegou ao Paraguai em 1968 e hoje é prefeito de San Alberto. “Muitas propriedades podem servir para a reforma agrária, mas os produtores que estão regularizados, com os títulos das terras em mãos, não devem ter nenhum problema. Lugo deve ir atrás dos ilegais”, continua o prefeito, que também é um dos maiores produtores de grãos da região.

Romildo Maia é um brasiguaio típico. Paranaense, chegou a San Alberto aos 15 anos, junto com os pais e irmãos. Com o dinheiro ganho com a venda de um sítio em Carbonera, comprou a primeira fazenda em solo paraguaio e logo começou a produzir em grande escala. Quarenta anos depois, conta com cinco mil hectares de terra e produz mais de 15 mil toneladas de soja por safra. Fora o milho e o trigo, tidos como “ganhos extras”. Além disso, é dono de uma trading que movimenta mais de 150 mil toneladas de grãos anualmente, um posto de gasolina e uma rádio. Não por acaso, é visto por todos como o “todo-poderoso” de San Alberto.

Amigo de infância de Romildo, Ciloir Silva tem uma história parecida. Neguinho, como é conhecido, chegou em 1972 e comprou seus primeiros 20 hectares de terra por US$ 400. Ao lado do irmão, foi trabalhando duro e investindo os ganhos em novas áreas para o plantio. Hoje conta com cerca de dois mil hectares, de onde colhe sete mil toneladas de grãos, entre soja, trigo e milho, por safra.

Neguinho não tem do que reclamar da vida no Paraguai. Só neste ano, comprou três picapes zero-quilômetro com o dinheiro ganho com a venda dos grãos. Uma para ele e uma para cada um dos filhos. “Paguei só 1,2 mil sacas de soja por cada caminhonete. O mais caro foram as rodas personalizadas”, conta o produtor, aos risos. Pouco depois, mais sério, fala das vantagens de se trabalhar do lado de lá da fronteira. “Não planto mais sementes convencionais. Aqui no Paraguai só plantamos soja transgênica. É muito mais eficiente e rentável”, explica Neguinho, que exporta tudo o que colhe para os Estados Unidos.

E não são só os produtores que estão se dando bem por lá. Até os agrônomos brasileiros são maioria na região. É o caso de Volmar Malacarne, que mora em Foz do Iguaçu, mas presta consultoria para os brasiguaios desde 1990. Atualmente atende a 13 clientes, todos brasileiros, e diz que o mercado está aquecido. “Existem brasileiros atuando em todos os setores do agronegócio no Paraguai”, diz o especialista.

O Paraguai é atualmente o quarto maior exportador de soja do mundo. Apenas na safra 2007/ 2008, foram produzidos cerca de 6,8 milhões de toneladas, recorde histórico do País. Grande parte do crescimento econômico que o País registrou nos últimos cinco anos também deve-se ao aumento das exportações do grão. E tudo isso foi conquistado graças aos brasileiros que vivem e trabalham por lá, responsáveis por mais de 90% da soja produzida em solo paraguaio.

Ciente de que não vai ser nada fácil tirá-los de onde estão, Fernando Lugo já estuda uma nova saída. No dia de sua posse anunciou que pode adotar um novo imposto agrícola no Paraguai. Segundo ele, as taxas atuais são muito baixas, o que favorece o enriquecimento de poucos. Alheios às ameaças do presidente, os brasiguaios seguem trabalhando, e gerando cada vez mais receitas para o Paraguai.

O REI DA SOJA PARAGUAIA

Polêmico e falastrão, o catarinense Tranquilo Favero é o maior produtor individual de soja do Paraguai. Aos 70 anos, 40 deles no país vizinho, Favero é dono de mais de 45 mil hectares de terra, e deve faturar alto com a venda de grãos neste ano. “Vamos negociar pelo menos 480 mil toneladas de soja, o que deve render algo em torno de US$ 190 milhões. Devemos ter mais 135 mil toneladas de produção própria, o que dá mais uns US$ 50 milhões”, explica.

Favero, que já plantava soja no Paraná no início dos anos 60, decidiu se mudar para o Paraguai durante o governo do general Alfredo Stroessner. Comprou muita terra barata e desde então não parou de crescer. Hoje é um dos maiores empresários do país e tem grande influência até na política local.

Brigado com o ex-presidente paraguaio Nicanor Duarte Frutos, Favero foi um dos poucos brasileiros que apoiaram a candidatura de Fernando Lugo à Presidência. Agora, no entanto, está receoso. “Temo apenas o fato de Lugo estar cercado por uma esquerda comunista, que não respeita os direitos estabelecidos e nem a propriedade privada”, reclama. Mesmo assim, acredita em um bom governo. “Se ele dificultar a produção agropecuária, acaba com a economia do Paraguai”, conclui o empresário. Para Favero, o desenvolvimento do Paraguai passa obrigatoriamente pelo incremento da agroindústria.