Economia

Cafezais turbinados no Espírito Santo

O Estado pretende dobrar a produtividade com um arrojado programa para renovar a lavoura de café arábica

SOB MEDIDA: antes de renovar, o produtor é orientado sobre qual variedade é recomendada para sua região

A cada ano que passa, o famoso cafezinho ganha mais adeptos pelo mundo. Segundo dados da Organização Internacional do Café (OIC), o consumo mundial está em 126 milhões de sacas e a produção na casa dos 127 milhões de toneladas. Aliado a isso, o consumo cresce numa taxa de 2% ao ano e os estoques do grão estão nos mais baixos níveis da história.

“Será necessário um incremento da produção”, diz Nestor Osório, diretor-executivo da OIC. Diante desse cenário, ele revela o plano de seu país, a Colômbia, para alavancar a produção. “Os cafeicultores estão renovando seus cafezais. O país quer saltar de 12 milhões de sacas de café para 16 milhões, dentro de quatro anos”, diz. A mesma estratégia foi adotada pelo Estado do Espírito Santo. A região lançou no mês passado o programa Renovar Arábica, cuja meta é renovar 100% do parque cafeeiro de arábica em 15 anos. “Resolvemos implantar este projeto porque a produtividade estava muito baixa. Enquanto a média do Brasil é 16 sacas por hectare, a média capixaba está em 12 sacas”, explica Romário Gava Ferrão, pesquisador do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) e coordenador do Programa Estadual de Cafeicultura.

A constatação da baixa produtividade chamou a atenção dos pesquisadores do Incaper. Isso porque o café arábica está presente em 49 dos 78 municípios do Estado, abrange uma área de 190 mil hectares e engloba 20 mil produtores, sendo 75% de base familiar com uma média de cinco hectares. Além disso, pesquisas da entidade revelam que, para cobrir os custos e ter uma renda mínima, o cafeicultor não pode ter uma produtividade abaixo de 20 sacas por hectare. “Nosso parque cafeeiro é velho. Foi implantado dentro de uma base tecnológica de 15 anos atrás, quando não havia nenhuma variedade resistente à ferrugem”, explica Maria Amélia Gava Ferrão, pesquisadora do Incaper. Naquela época, as plantas eram mais altas e a distância entre uma e outra era maior, o que resultava em 2,6 mil pés de café por hectare. Hoje, nessa mesma área plantam-se cerca de cinco mil no regime de adensamento.

PIONEIROS: Dias (à esq.) e Badaró (acima) começaram a revovar seus cafezais, muito antes de o programa Renovar Arábia ser lançado. Conclusão: a produtividade dos novos pés é mais que o dobro da antiga lavoura

O programa prevê recomendação de variedades de acordo com a altitude de propriedade, disponibilização de sementes certificadas, assistência técnica, instalação de unidades demonstrativas, ampliação dos viveiros municipais, elaboração de manuais sobre boas práticas agrícolas, implantação de um programa de aquisição e distribuição de calcário, continuidade das pesquisas, entre outras medidas. O orçamento previsto é de R$ 2 milhões por ano. No entanto, o pesquisador Gava Ferrão ressalta que o objetivo vai além de aumentar a produtividade. “Queremos melhorar a qualidade e tornar a atividade mais sustentável”, diz, salientando que o próprio sistema de adensamento auxilia na contenção da erosão e preservação do solo.

FAMÍLIA GAVA FERRÃO: os irmãos Amélia e Romário dão o respaldo científico que os cafeicultores precisam

Na cidade de Brejetuba, maior produtora de café arábica do Estado e campeã nos índices de produtividade, há vários exemplos de cafeicultores que, seguindo as instruções do Incaper, iniciaram a renovação há alguns anos. A fazenda Pouso Alegre é um exemplo. Segundo Rodrigo Badaró Martinuzo, engenheiro agrônomo da propriedade, cinco anos atrás a fazenda estava com uma produção na faixa de 20 sacas por hectare. Mas, no decorrer desses anos, a propriedade renovou 40% dos cafezais e hoje a produtividade média é de 52 sacas por hectare. “Produzimos mais em uma área menor. Antes tínhamos 1,9 mil plantas por hectare, agora estamos com 4,7 mil”, explica o agrônomo. Com o cafeicultor Wagner Pedro Dias aconteceu o mesmo. “A produtividade estava muito baixa e me manter na atividade com a lavoura antiga estava difícil”, diz. O retorno por hectare não passava de 15 sacas. Mas em 2004 o produtor começou a renovar o cafezal e nesta última safra conseguiu uma produtividade média de 50 sacas por hectare. Boa notícia, ainda mais num cenário que aponta para um aumento contínuo do consumo!