Economia

Candidatos cortejam o agronegocio

Aécio Neves promete um superministério da Agricultura, Marina Silva tenta provar que pode dialogar e Dilma Rousseff diz que já fez muito pelo setor nos últimos anos.

Um Ministério da Agricultura mais forte, ampliação do seguro rural, acordos comerciais que garantam ampliação do mercado para os produtos brasileiros, aumento da produtividade rural e implementação do Código Florestal, aprovado em 2012. Se depender das promessas dos candidatos a presidente da República, um setor que representa 23% do PIB e 44% das exportações brasileiras pode ganhar uma nova importância no próximo governo. Para garantir que o agronegócio, que sustenta a balança comercial brasileira, seja realmente ouvido, a Confederação Nacional da Agricultura (CNA) elaborou um documento listando os pontos mais importantes reivindicados pelos empresários do campo. E, pela primeira vez, conseguiu levar a um evento na sede da entidade, em Brasília, no dia 6 de agosto, os três candidatos que lideravam as pesquisas de intenção de voto naquele momento: a presidenta Dilma Rousseff (PT), o senador Aécio Neves (PSDB) e o ex-governador Eduardo Campos (PSB). Com a morte de Campos, no dia 13 de agosto, a plataforma do PSB foi assumida pela ex-senadora Marina Silva, que confirmou todas as promessas feitas pelo companheiro de chapa.

A reação dos empresários aos discursos mostrou claramente a preferência do agronegócio por Aécio, interrompido por aplausos várias vezes enquanto falava. Mas a presença de Marina, acompanhando
Campos, foi considerada um sinal de abertura da ex-senadora, que em 2010, também candidata, havia ignorado o convite da entidade para falar ao setor. “Desta vez pelo menos ela veio”, disse a senadora 
Kátia Abreu (PMDB-TO), presidente licenciada da CNA para concorrer à reeleição, e aliada da presidenta Dilma Rousseff. Campos causou boa impressão nos empresários do setor, mas a sua substituição por Marina, considerada arredia ao agronegócio quando foi ministra do Meio Ambiente, entre 2003 e 2008, inspira preocupação. Luiz Roberto Barcelos, sócio e diretor da Agrícola Famosa, do Rio Grande do Norte, maior exportadora de frutas do Brasil, resume bem a situação. Diz que estava decidido a votar em Campos, a quem conhecia como governador de Pernambuco, mas agora se diz “órfão”. “Se Marina como vice já deixava todo mundo ressabiado, imagine como presidente.” 

Se no encontro na CNA assistiu ao discurso de Campos da plateia, logo que foi confirmada como candidata, no dia 20 de agosto, Marina começou a enviar ao setor sinais de que não pretende repetir a postura da última campanha. Prometeu implementar o Código Florestal, embora tenha feito a ressalva de que “as leis que não são causa pétrea são passíveis de serem mudadas por congressistas ou pelo governo”, e disse não acreditar que o agronegócio seja unânime na crítica à sua atuação. “Tem muita gente que está na vanguarda de integrar economia e ecologia, e uma grande parte está esperando para ver como vamos
viabilizar os meios para aumentar a produção por ganho de produtividade, usando cada vez menos recursos naturais”, disse Marina. Além da promessa de manter o programa de governo do PSB, ela escolheu um vice que pode ajudar a diminuir a resistência entre os produtores rurais. O deputado federal gaúcho Beto Albuquerque, em seu quarto mandato na Câmara dos Deputados, foi um dos principais articuladores da liberação da soja transgênica no País: “A agricultura brasileira é um motor importante de geração de emprego, renda e desenvolvimento dos Estados brasileiros e tem de ser administrada por quem sabe e não loteada por partidos políticos como o governo atual fez”, afirmou após ser indicado a vice. 

A reforma e o fortalecimento do Ministério da Agricultura são as principais promessas do candidato tucano Aécio Neves, que também defende a ampliação do seguro rural, que hoje cobre apenas 8,7% da área plantada, para pelo menos 60% do total. “Ninguém fez mais pela economia brasileira do que o produtor rural”, afirmou. O senador lembrou que é dono de uma fazenda e conhece o campo desde criança, e prometeu a criação de um “superministério da Agricultura”, com poder para negociar em pé de igualdade com as pastas da Fazenda e do Planejamento e voz na definição dos projetos de infraestrutura prioritários
ao País. “O Ministério da Agricultura sai definitivamente do balcão de negócios a que está submetido hoje”, afirmou. Era exatamente o que os empresários queriam ouvir. “Aécio conseguiu traduzir o sentimento dele para o produtor”, disse o presidente interino da CNA, João Martins da Silva Júnior, pecuarista na Bahia. O presidente da Aprosoja Brasil, Almir Dalpasquale, concorda. “Aécio foi melhor”, afirmou. Embora ressalvando que o setor tem “muito a agradecer a Dilma” pelo que ela fez nos últimos três anos, o sojicultor diz que o candidato foi mais convincente ao falar sobre segurança jurídica, que ajuda a assegurar investimentos. “Aécio prometeu isso com mais firmeza.” 

A ausência de promessas sobre o próximo período de governo é justamente o que desagradou no discurso da presidenta Dilma Rousseff. Nos últimos anos, o setor cresceu e foi beneficiado por políticas como a
ampliação do crédito rural e do subsídio ao seguro contra quebra de produção, além de programas como o incentivo à construção de armazéns. A presidenta destacou a aprovação do Código Florestal. “Hoje temos uma legislação que garante a segurança jurídica”, afirmou. Mas a falta de clareza sobre o que faria num segundo mandato deixou uma sensação de insegurança entre os empresários. “Houve avanços na política de crédito, mas outras questões poderiam ter avançado mais, como logística e infraestrutura”, diz Haroldo Rodrigues da Cunha, presidente do Instituto Brasileiro do Algodão (IBA). Para os empresários ligados ao etanol, o que incomodou foi a ausência de uma promessa de solução para o segmento, que sofre as consequências do represamento no preço da gasolina. De acordo com a CNA, embora fature R$ 70 bilhões ao ano, e exporte cerca de R$ 15 bilhões, contribuindo para o superávit da balança comercial, a indústria alcooleira viu nos últimos cinco anos 44 das 435 usinas fecharem as portas. Além disso, outras 12 podem parar de moer cana na safra 2014/2015, ameaçando 100 mil empregos. Ao ignorar o tema, Dilma entregou- o de bandeja à oposição. “Percebo que o tema vem ganhando espaço na campanha”, disse Elizabeth Farina, presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica). Resumo da ópera: o setor, que vem salvando a balança comercial do vermelho quer ter, no próximo governo, uma representação mais próxima à sua importância para a economia do País.