Economia

Crédito farto, procura nem tanto

O dinheiro para financiar a safra aumentou, mas os produtores não estão indo aos bancos. O que está acontecendo?

Crédito farto, procura nem tanto

 

O ano safra já começou com a boa notícia de que a agricultura brasileira contaria com volume de recursos 7,2% superior à anterior. Mesmo assim, conforme o último balanço do financiamento rural de julho a outubro, o interesse dos produtores ainda não correspondeu em termos de demanda pelo dinheiro disponível. Nos primeiros quatro meses da safra atual, entre julho e outubro, Banco do Brasil, Banco de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e cooperativas de crédito agrícola emprestaram R$ 36,2 bilhões, o equivalente a 33,8% do total de R$ 107,2 bilhões previstos até junho do próximo ano. No mesmo período do ano passado, os bancos já haviam liberado 36,2% do total. Para o vice-presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), José Mário Schreiner, a procura menor pelos empréstimos bancários neste ano não se deve à falta de capacidade de pagamento dos produtores. Ao contrário: o motivo são justamente os bons resultados da safra do ano passado, com volume de produção e preços recorde, que deixaram mais recursos nos bolsos dos produtores. “Como os preços estavam melhores no primeiro semestre deste ano, os produtores anteciparam seus investimentos”, diz Schreiner. “Por isso, estão tomando menos crédito.”

Além da redução na procura por crédito, houve uma mudança na composição das carteiras dos bancos. No caso do BNDES, por exemplo, algumas linhas tiveram aumento substancial de demanda. É o caso da Moderinfra, para irrigação, a juros de 6,75% ao ano, que cresceu 83,6% no primeiro quadrimestre, e da Moderagro, para conservação de recursos naturais, com juros de 9,5% ao ano, que cresceu 64% no mesmo período. Já outras linhas foram deixadas de lado pelo produtor, como duas do BNDES voltadas para cooperativas de crédito, com recuo entre 40% e 50%. No conjunto, os programas do BNDES tiveram uma queda de 31,5% na procura em relação ao mesmo período do ano passado. “Notamos uma queda no desembolso de nossos programas de investimento, já que os produtores têm migrado para o PSI, que tem se mostrado mais atrativo”, diz o gerente de gestão da Carteira Agropecuária do BNDES, Carlos Alberto Vianna.

Até o Banco do Brasil, principal parceiro do governo na concessão de crédito agrícola no País, notou uma mudança no perfil de financiamento do setor. A linha BB-Agroindustrial, com juros livres, teve redução de 60% na procura, com volume de R$ 1,2 bilhão no primeiro quadrimestre da safra. Por outro lado, a linha de custeio Pronamp Rural, com juros controlados, teve aumento de 20,4%, chegando a R$ 1,5 bilhão nos primeiros quatro meses. O mais requisitado entre os programas de financiamento é o de Sustentação ao Investimento (PSI), do BNDES. Voltada não somente à agropecuária, mas também a investimentos em bens de capital, exportação e inovação de vários setores da economia, a modalidade vem seduzindo os produtores, que, entre julho e outubro, já consumiram, a juros de 6,5% ao ano, mais da metade dos R$ 4 bilhões previstos para a safra atual.

 

Outra linha bastante procurada foi a que estabelece como contrapartida o pagamento de, no mínimo, R$ 10 por caixa de laranja aos produtores, pelos fabricantes de sucos. Cada uma das grandes processadoras – Sucovita, Citrosuco, Louis Dreyfus e Cutrale – teve à disposição R$ 80 milhões. Dos R$ 320 milhões previstos, quase tudo já foi tomado.

A menor procura por crédito neste ano, além da maior capitalização do setor, tem outro motivo, na avaliação do consultor José Vicente Ferraz, diretor-técnico da Informa Economics FNP. Segundo Ferraz, um dos obstáculos para os financiamentos é a falta de uma ampla cobertura de seguro agrícola. “Apenas 10% das propriedades são seguradas”, diz (veja reportagem na pág. 28). Sem seguro, o produtor, especialmente o pequeno e o médio, se sente sem condições de assumir uma dívida bancária. “É preciso melhorar o seguro rural para tornar a política de crédito mais eficaz, e inclusive, reduzir a inadimplência no campo”, afirma Ferraz.