Economia

Dólar barato, modernidade no campo

A valorização do real afeta a rentabilidade dos exportadores, mas reduz custos de produção e abre uma inegável oportunidade para quem produz.

Na carona do real forte: em apenas 12 meses, vendas de máquinas agrícolas cresceram 6% no País, segundo a Anfavea

A subsidiária brasileira do instituto Kleffmann, consultoria alemã especializada em pesquisas agrícolas, chegou à seguinte conclusão: o cenário econômico no Brasil nunca esteve tão favorável ao agronegócio quanto em 2011. Por quê? Além da alta generalizada dos preços dos alimentos no mercado internacional e do aumento da área cultivável no País, a queda do dólar em relação ao real – atualmente na casa de R$ 1,60 – criou inúmeras oportunidades de bons negócios no campo. “Faz 15 anos que estudamos a fundo o desempenho agrícola brasileiro e nunca vimos uma conjuntura tão positiva”, afirma Lars Schobinger, CEO da Kleffmann. Essa conclusão otimista se baseia, essencialmente, em planilhas de custos. A valorização do real nos últimos meses reduziu, por exemplo, em 17% o gasto com defensivos nas lavouras de milho. Parece pouco, mas não é. No ano passado, o setor de defensivos agrícolas movimentou US$ 7,25 bilhões no Brasil. Outras culturas também foram beneficiadas pelo real forte. A soja e a cana-de-açúcar tiveram redução de 8% no custo de produção, segundo o levantamento da Kleffmann.

Moeda robusta, campo produtivo: o uso de defensivos agrícolas em lavouras de milho disparou em 2011, e a produtividade foi ampliada em uma tonelada por hectare

Por trás das estatísticas há uma nova realidade econômica se impondo no campo brasileiro – que não se limita aos setores de defensivos ou fertilizantes. À primeira vista, dólar barato tem significado mais modernidade ao agronegócio. A performance de vendas de maquinário endossa essa tese. Segundo a Anfavea, associação que representa as montadoras, as vendas internas de caminhões e máquinas agrícolas, nos últimos 12 meses (entre maio de 2010 e abril de 2011), ficaram 6% acima do acumulado no mesmo período anterior – foram 66,8 mil novos veículos pesados, colheitadeiras e implementos, contra 63,1 mil. “A demanda aquecida do mercado interno anestesia qualquer variação cambial”, diz Antônio Dadalti, vice-presidente da montadora de caminhões Iveco. “O Brasil se tornou hoje um dos melhores mercados do mundo.”

 

Walter Horita, produtor de algodão na Bahia: “O Brasil é o país mais competitivo do mundo. Não estamos perdendo dinheiro com o real forte”

O economista Carlos Zignani, diretor da Marcopolo, de Caxias do Sul (RS), que fabrica inúmeros produtos voltados ao campo, entre eles carrocerias para caminhões, dá outro importante ponto de vista. “Não é só o real que está ganhando valor diante do dólar”, diz Zignani. “Como as moedas de muitos dos nossos mercados também estão se fortalecendo, a relação de troca com o real não mudou muito.” Para quem planta e colhe, a queda do dólar também se mostra uma aliada. “Atualmente, o Brasil é o país mais competitivo do mundo”, diz Walter Horita, dono de 32 mil hectares de algodão na Bahia.

“Esse cenário nos mostra que se no futuro o real se desvalorizar ganharemos mais, mas, por outro lado, não significa que hoje estamos perdendo dinheiro com o real forte.”

A modernização no campo causada pelo dólar, embora possa não ser percebida imediatamente pelos consumidores, resulta em expansão da produtividade no País. O estudo elaborado pelo instituto Kleffmann revela que a utilização de fungicidas em lavouras de milho aumenta a produtividade em uma tonelada por hectare – e o uso desse produto, que em 2010 cobriu 25% da produção brasileira do grão, subiu para 35% em 2011. “Ainda não sabemos ao certo quanto isso representará em aumento no faturamento de quem produz, mas sabemos que será uma cifra significativa”, diz Schobinger.

Não por acaso, grande parte dos empresários do agronegócio está feliz com a moeda brasileira, apesar do achatamento das margens de rentabilidade com as exportações. “Existe também uma percepção mais clara de que uma moeda forte significa uma população com maior poder de compra, um mercado interno mais robusto, uma taxa de inflação mais baixa, uma indústria mais produtiva e uma sociedade mais conectada com o resto do mundo”, afirma o economista Wladimir Nunes dos Santos, da ESPM do Rio de Janeiro.

Polêmicas e teorias econômicas à parte, o fato é que, desta vez, ao contrário do passado, a força do real não está trazendo como efeito colateral prejuízo às contas do agronegócio. O recado que a modernização do campo deixa para a economia é que, se a desvalorização da moeda americana atrapalha as exportações, por outro lado há, sim, uma face muito positiva desse dólar aparentemente ruim.