Economia

E depois do dilúvio…

Como a tragédia catarinense abalou o agronegócio brasileiro e por que este pode ser um prenúncio de um clima muito mais indócil para os próximos anos

IMAGEM: bois tentam invadir uma casa inundada para se protegerem das fortes águas

A foto ao lado, com o gado tentando procurar abrigo dentro da sede da fazenda inundada, será por muito tempo o mais claro retrato das perdas ocorridas em Santa Catarina. Mal a lama começava a ser limpa e se tinha a sensação de que o pior havia passado, o improvável aconteceu. Entre as 16 horas do último 15 de dezembro e as 4 horas da manhã do dia seguinte, choveu 180 milímetros no leste catarinense. O número corresponde a mais de 90% de toda a chuva prevista para o mês de novembro. Somando apenas as chuvas mais intensas, há um total de 676 milímetros de precipitação. Um volume sem precedentes na história brasileira. Os resultados do aguaceiro, comuns às imagens transmitidas ao vivo pela televisão, são conhecidos: mais perdas, mais drama. Em meio à tragédia humana, em que pessoas vêem o trabalho de uma vida inteira escorrer por água abaixo, literalmente, outros problemas secundários no momento se avolumam e se farão presentes num futuro não muito distante. Em meio a essa contagem, o agronegócio, principal atividade do povo barriga- verde, aparece como um dos maiores prejudicados. Os prejuízos até o fechamento desta edição eram de R$ 526 milhões, segundo dados do Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola de Santa Catarina, conhecido como “Instituto Cepa”.

Ao todo, foram afetados 38.772 produtores rurais e as baixas continuam.

Segundo o presidente do Cepa, Airton Cipes, algumas culturas foram seriamente atingidas. 10,4% do arroz irrigado foi perdido. Na produção de banana, que representa 10% do total nacional, a perda se consolidou em 11,3%. “Mas, nesse caso, somos os maiores exportadores e podemos apontar um prejuízo de R$ 112 milhões”, afirma. A maricultura também sofreu: 100% das vieiras, 32% das ostras e 54% dos mexilhões se perderam. Na pecuária, ainda não há uma estimativa das perdas, mas, segundo dados do governo, haverá grande impacto tanto na produção de carne quanto na de leite. O governo federal vai liberar R$ 1,6 bilhão para auxiliar na reconstrução do Estado. De acordo com o governador Luiz Henrique da Silveira, o dinheiro faz parte de um crédito que o Estado receberia apenas após 2018 e que está sendo antecipado em razão do desastre. “Não há milagre a ser feito, temos que ajudar as pessoas a reconstruírem suas vidas e torcer para que as chuvas não sigam com tanta intensidade”, disse o governador à DINHEIRO RURAL.

E esta é a grande questão. O fenômeno, de acordo com alguns cientistas, pode ser um aviso das mudanças climáticas em curso no mundo. Segundo o professor do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo, Wagner da Costa Ribeiro, não é possível possível afirmar que as chuvas sejam resultado do aquecimento global, mas podem representar um indício. “Os eventos da natureza tendem a ficar cada vez mais extremos e mais freqüentes e isso inclui enchentes”, analisa.

Mas para o também professor do Departamento de Meteorologia da Universidade Federal de Alagoas, Luís Carlos Molion, o evento pode ser apenas um fato isolado. “A mais recente chuva dessa natureza aconteceu em 1983, mas tivemos eventos muito parecidos no Vale do Itajaí nas décadas de 1950 e 1960”, pondera. O desastre, na opinião do especialista, se deve muito mais aos problemas de ocupação do que propriamente ao clima. “As pessoas fogem das regiões ribeirinhas e escolhem as encostas, que não são lugares seguros”, comenta.

No dia 17 de dezembro, o Conselho Monetário Nacional aprovou a prorrogação das dívidas de plantio, investimento e a concessão de uma nova operação de custeio exclusiva para o setor rural atingido pelas águas. “A medida tem por objetivo garantir a retomada das atividades em Santa Catarina”, explicou o ministro da Agricultura, Reinholds Stephanes. No caso de necessidade de replantio, produtores localizados nos municípios que declararam estado de calamidade também poderão contratar uma nova operação de custeio para a safra em curso, mesmo para atividades já financiadas nesta safra.

…vem a seca

Enquanto a faixa leste de Santa Catarina sofre com o excesso de chuva, a falta de água prejudica produtores no oeste do Estado

Contradição. Não há palavra melhor para expressar o que os produtores catarinenses estão vivendo. Enquanto no litoral do Estado os representantes do agronegócio sofrem com a devastação causada pelas enchentes, no oeste catarinense o problema é o oposto: a estiagem pode comprometer a safra de grãos da região, que representa cerca de 70% da produção do Estado. Segundo Wolmir de Souza, presidente da Associação Catarinense de Criadores de Suínos (Accs), a situação é grave para o setor. “Exportamos entre 46% e 47% da produção estadual de suíno. Estamos sofrendo duplamente: pelo problema do porto de Itajaí e também pela seca que está assolando o oeste catarinense e pode causar perdas no milho, que representa 70% do preço do suíno”, diz o presidente da associação.

O fato é que Santa Catarina é o maior produtor de suínos, respondendo por 28% da produção nacional. E o oeste catarinense se destaca por concentrar a maior parte dos suinocultores do Estado. Com as enchentes no litoral, o escoamento para outros países ficou comprometido. “Exportamos entre 20% e 25% a menos e muita coisa desviamos para o porto de Paranaguá, o que encareceu o custo logístico e comprometeu a renda do produtor”, diz Souza. Além disso, o quilo do suíno vivo teve queda nos últimos meses. “Por causa da crise financeira mundial, muitos países como Rússia e Ucrânia deixaram de importar e o preço caiu de R$ 2,70 para R$ 2,15”, complementa. Agora, o sinal de alerta é por conta da seca. Até o momento, a estiagem não causou prejuízo porque a safra do ano passado, principalmente de milho, foi boa e os agricultores ainda têm uma reserva. “Mas, se não chover nos próximos dias, vai ficar complicado. Por enquanto, o preço do milho não subiu, mas pode subir, o que agrava muito a situação dos pequenos suinocultores”, explica Souza.

Para Mário Lanznaster, presidente da Cooperativa Aurora, haverá perda de produção, mas sem desespero. “As perdas das lavouras no oeste catarinense devem ficar entre 12% e 15%, mas não está faltando milho”, diz. A cooperativa não está trabalhando com um plano B, que seria a redução do alojamento de suínos.

Mas não é toda a região oeste que está sofrendo com a seca. “Aqui não temos problemas de estiagem. Está tudo normal, chovendo na medida certa”, diz Afonso Mugnol, um dos maiores produtores individuais de suínos do Estado, com plantações de milho em Iomerê, município do meio-oeste catarinense a 220 quilômetros de Chapecó. No entanto, esta microrregião representa apenas 2% da produção nacional. Na verdade, a dimensão real do prejuízo causado pela estiagem ainda não pode ser mensurada, porque uma chuva pode reverter boa parte das possíveis perdas. Mas o problema é que, se a chuva demorar a cair, o plantio da safra verão de soja, milho e feijão pode ficar comprometido. O jeito é torcer para o humor de São Pedro melhorar.

Lívia Andrade