Economia

E depois do voto…

Passadas as eleições, os novos prefeitos das agrocapitais brasileiras terão uma missão bem mais complicada: superar a crise

“Eu nunca fui político, por isso, quero levar a idéia da iniciativa privada para a vida pública

“HUMBERTO SANTA CRUZ, prefeito eleito de

Luis Eduardo Magalhães

Até pouco tempo atrás, era relativamente fácil administrar uma cidade cuja principal atividade econômica era o agronegócio. Bastava dar alguns poucos incentivos que os próprios empresários cuidavam do resto. Plantavam, colhiam, vendiam e pagavam seus tributos municipais sem maiores problemas. Eram tempos de vacas gordas. De uns meses para cá, no entanto, essa história vem mudando radicalmente. A grande vilã é a crise mundial, que já está afetando diversos setores da economia e deve também fazer seus estragos no agronegócio. Má notícia para os novos prefeitos das agrocapitais brasileiras, que se candidataram com um horizonte de prosperidade, mas que agora terão o desafio de manter a produção de suas cidades a todo vapor.

A missão é complicada, eles sabem disso, mas garantem estar preparados. Afinal, muitos deles também são produtores rurais e estão acostumados com as mudanças do mercado. Qual a saída, então? Para Humberto Santa Cruz (PR-BA), prefeito eleito de Luís Eduardo Magalhães, uma das principais potências da soja no Brasil, a idéia é profissionalizar a gestão. Grande produtor de café e frutas da região, Santa Cruz já aplicou a metodologia em suas propriedades e acredita que pode ter sucesso também na prefeitura. “Eu nunca fui político. Esta é a primeira vez que vou ocupar um cargo público, por isso, quero levar a idéia da iniciativa privada para a vida pública. Queremos obter lucros para aplicar no social e assim desenvolver o município”, revela.

Entretanto, o novo prefeito teme que a crise possa interferir em seu projeto, principalmente pela falta de crédito. “Embora o dólar tenha se valorizado, estamos preocupados com os preços. Afinal, o dólar alto também aumenta os custos com insumos. O ano de 2009 vai ser difícil. Falo isso como produtor”, diz ele. “Temos de sair do setor primário e atrair as agroindústrias para a nossa cidade. Mesmo antes de assumir, já estou trabalhando nisso”, completa Santa Cruz, eleito com 38,2% dos votos.

Outro município que aposta na profissionalização para superar a crise é o gaúcho Não-Me-Toque. Um dos principais pólos da agricultura de precisão do Brasil, a cidade será comandada por Antônio Vicente Piva (PT-RS), atual viceprefeito da cidade. Sua intenção é continuar o trabalho da última administração, mas de uma forma ainda mais eficiente. Para isso, Piva promete manter os incentivos dados aos produtores locais, medida que fortaleceu o agronegócio em toda a região e é a aposta para superar a crise.

“Não-Me-Toque é uma das cidades que mais fixaram o homem no campo através de incentivos. Queremos que o pequeno produtor cresça, e para isso é preciso que ele se profissionalize, sobretudo nos tempos difíceis”, afirma o novo prefeito. Mas não é só do solo que vive o agronegócio da cidade. Forte no setor metalúrgico, Não-Me-Toque também fornece ferragens para a construção de máquinas agrícolas. Já trabalha com a John Deere, e deve firmar parcerias com outras empresas, como a Massey Ferguson, em breve. “Temos de atacar todos os lados. Assim, esperamos driblar a crise”, sentencia Piva.

Missão mais complicada terá a deputada estadual Dárcy Vera (DEMSP), nova prefeita de Ribeirão Preto. À frente de um dos maiores PIBs do Estado de São Paulo, Dárcy terá como principal desafio manter a Agrishow em sua cidade. O evento agropecuário, que atrai mais de 140 mil visitantes e gera pelo menos R$ 800 milhões em faturamento todos os anos, corre o risco de mudar para Piracicaba, o que poderia gerar uma perda significativa de arrecadação. Com tempo reduzido, a nova prefeita já trabalha para costurar acordos e manter a feira na cidade.

“Precisamos manter a Agrishow em Ribeirão Preto. Somos uma potência do agronegócio nacional e não podemos sofrer esta baixa. O governador José Serra se mostrou disposto a aumentar o prazo de comodato para os organizadores, mas isso precisa ser feito com a anuência dos diretores e técnicos da Fazenda Experimental”, conta. “Com ou sem a Agrishow, vamos fortalecer o agronegócio na região”, completa a nova prefeita, filha de trabalhadores rurais, que chegou inclusive a trabalhar na colheita do algodão quando criança.

“Precisamos manter a Agrishow. Não podemos sofrer esta baixa “

DÁRCY VERA, nova prefeita

de Ribeirão Preto