Economia

Esse boi continua magro

Falta de crédito e concentração de mercado agravam a crise que se instalou nas câmaras frias dos frigoríficos brasileiros.

Faltou dinheiro para alguns e sobrou para outros. A acusação é feita por quem tem vivido momentos difíceis no mercado brasileiro de carnes, os médios e pequenos frigoríficos, agora com o apoio dos pecuaristas. Não é de hoje que o setor acendeu a luz vermelha para a crise, que já colocou nove empresas fora do jogo, ou quase. A quebradeira começou com o Frigorífico Independência, de Nova Andradina (MS), no começo de 2009, e desde então a lista dos que anunciaram processos de recuperação judicial só aumentou: Frialto, Arantes, Margem, Pantanal, São Marcos, Frigoestrela, Frigol e, mais recentemente, o mineiro MataBoi, que pediu a recuperação judicial, mergulhado em dívidas de R$ 360 milhões. A crise ocorre justamente em um momento em que os abates estão crescendo em um ritmo acelerado, atingindo 29.265 milhões de cabeças em 2010, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e a arroba do boi atinge preços acima das médias históricas. “O momento é bom, mas não tão bom a ponto de capitalizar os frigoríficos e cobrir os prejuízos das empresas, que vêm acumulando dívidas desde a crise da aftosa de 2005”, diz Péricles Salazar, presidente da Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo). E não tem sido bom mesmo. Atolados em dívidas com os bancos privados – o Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES) concedeu crédito apenas às duas maiores empresas do ramo, o JBS e Marfrig, segundo a Abrafrigo –, os médios e pequenos frigoríficos não conseguem cumprir os termos dos acordos da recuperação judicial com os pecuaristas, que, por sua vez, também estão acumulando prejuízos e dívidas porque não recebem pela carga comercializada.

De acordo com a Câmara Setorial da Carne Bovina, o endividamento dos produtores já soma R$ 20 milhões. “Tudo para alguns, nada para outros”, afirma Salazar, referindo-se aos empréstimos concedidos às duas empresas citadas. Com dinheiro do BNDES, o JBS comprou o Bertin e o Marfrig a Seara – além das aquisições no Exterior – e expandiram seus negócios. Juntos, os dois grupos respondem por quase 40% dos abates no País. Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), das 183 indústrias de carne com inspeção federal, 71 pertencem às três maiores empresas do setor, JBS, Marfrig e Minerva. “A falta de crédito do BNDES aos médios e pequenos frigoríficos gerou dívidas gigantescas, enquanto o excesso de crédito para grandes empresas gerou a concentração do mercado”, diz o presidente da Abrafrigo.

Prejuízo: Alfredo Filho diz que pecuaristas estão arcando com a crise

 

O fechamento das plantas, em sua maioria, ocorreu nos últimos 12 meses, mas os problemas que desencadearam a crise dos frigoríficos são reflexo da crise da aftosa de 2005. Segundo Salazar, na época, as exportações caíram, obrigando os produtores a abater matrizes, provocando uma redução dos rebanhos. “Quando começávamos a esboçar uma reação, veio a crise econômica mundial de 2008”, diz . “É uma bola de neve que só vem aumentando. O BNDES ‘filtra’ os frigoríficos a quem concede crédito, como numa espécie de rejeição aos menores e privilégio aos maiores.” O banco, através de sua assessoria de imprensa, nega a acusação. “Não é política do BNDES discriminar empresas quaisquer. Os empréstimos são concedidos em troca de garantias reais que as empresas solicitantes possam oferecer”, diz a nota do banco.

Descapitalizados, sem condições para quitar suas dívidas, os frigoríficos começam a ganhar força com o apoio dos pecuaristas. “Esta situação tem colocado todos em uma situação financeira complicada”, afirma Alfredo Ferreira Neves Filho, presidente da Câmara Setorial da Carne. “Os pecuaristas também estão arcando com os prejuízos dessa crise e enfrentam uma difícil situação ao negociar a venda com grandes empresas, que recebem benesses do governo.” Neves garante que, diante do agravamento da situação, os pecuaristas estão dispostos a se unir à Abrafrigo para combater a concentração. “Não é uma campanha contra a atuação das grandes empresas, mas uma conscientização de que médios e pequenos frigoríficos precisam de linhas de crédito especiais do BNDES”, diz.

 

“Quando começávamos a esboçar uma reação, veio a crise mundial de 2008”

Perícles salazar, presidente da Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo)