Economia

Etanol a conta-gotas

A megaprojeção do governo para tornar o Brasil provedor mundial de álcool pode ir por água abaixo. O País importa etanol. Quem diria?

QUEBRA: excesso de geada e pouca chuva fizeram cair 31,1% a produção em setembro

As expectativas de que o Brasil supriria a demanda interna e mundial de etanol ficaram muito aquém dos canaviais. A projeção de produção do governo para 2019 de 58,8 bilhões de litros, sendo 50 bilhões de litros para o mercado interno e um excedente de 8,8 bilhões para as exportações, pode não acontecer como o esperado. A safra atual já aponta um declínio na moagem de cana-de-açúcar, por conta das más condições climáticas, com excesso de geada e falta de chuva. Na melhor das hipóteses chegará a 500 milhões de toneladas, de acordo com a União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica). Um dos efeitos perversos dessa situação foi sentido pelos proprietários de carros flex, que foram surpreendidos pela alta dos preços do álcool nos postos de serviço. O mais desconcertante, além disso, é que, de maior exportador do mundo do produto, o País passou a importador. O Brasil importando álcool? Sim. Até a primeira quinzena de setembro, a produção do etanol caiu 31,1% em comparação com o mesmo período de 2010. Segundo a Unica, foram produzidos 9,47 bilhões de litros do combustível neste ano, com forte retração em relação aos 13,75 bilhões de litros destilados até os primeiros 15 dias de setembro da safra anterior. Já o etanol anidro, usado na mistura com a gasolina, teve um crescimento na produção de 16,37% até a primeira metade de setembro, com a destilação de 5,9 bilhões de litros.

RETROCESSO: o diretor-executivo da Unica, Leão de Souza, admite que neste ano a queda de produtividade da cana está 20% abaixo da média do setor

A queda reduziu o excedente exportável, que cairá de 1,9 bilhão de litros, na safra passada, para 1,45 bilhão na atual. Segundo Marcos Jank, presidente da Unica, a despeito da quebra da safra, os produtores brasileiros de etanol anidro continuam exportando para cumprir compromissos já assumidos lá fora, em sua maior parte contratos de longo prazo, e também porque os importadores americanos têm pago um prêmio superior a 70 centavos de dólar por galão pelo biocombustível nacional, de melhor qualidade. “A maior parte é etanol para a indústria”, afirmou Jank. Esse movimento terá de ser compensado internamente, para que se garanta o abastecimento, com um vigoroso crescimento nas importações. De acordo com as previsões da Unica, o País deverá importar neste ano 1,1 bilhão de litros, volume que pode ser ainda maior e chegar a 1,45 bilhão de litros (idêntico ao que deverá ser exportado), conforme a Datagro, uma das mais respeitadas consultorias especializadas no agronegócio. No ano passado, as compras externas de etanol foram de apenas 78 milhões de litros.

Para tentar reverter a situação e estimular os produtores, o governo decretou, no dia 27 de setembro, a redução dos valores da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide).

Com isso, o valor da contribuição sobre o metro cúbico de combustível cai de R$ 230 para R$ 192,60. De acordo com o secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, Antônio Henrique Silveira, a medida foi exclusivamente motivada pelo pequeno aumento de preço que poderia derivar da mudança da mistura de álcool anidro na gasolina. Silveira, no entanto, ressaltou que a medida não garante a manutenção dos preços atuais. “O preço é livre”, afirmou.

EXPANSÃO: a produção pode dobrar com investimentos na otimização da estrutura industrial

 

Para Eduardo Leão de Souza, diretor-executivo da Unica, a ruptura do processo de crescimento de 10% ao ano na última década forçou a indústria sucroalcooleira a um elevado grau de endividamento, em decorrência da necessidade de pesados investimentos. De lá para cá houve retrocesso da produção, retração de investimentos, e os preços pouco remuneradores estiveram abaixo da necessidade de capitalização do setor. Leão de Souza admite que neste ano a queda da produtividade da cana está 20% abaixo da média do setor. “Estamos arrumando a casa”, afirma. “Usinas entraram em dificuldades, e investimentos que estavam previstos para a construção de novas plantas foram direcionados a fusões e aquisições como medida do setor para se fortalecer e resgatar a competitividade.” A maneira de reverter esse quadro é ter maior previsibilidade. “É necessário aprimorar o planejamento no mercado de combustíveis”, diz Leão de Souza. “Temos de antecipar os problemas e aumentar a segurança do abastecimento doméstico.”

A defesa de uma agenda positiva para incrementar a oferta de etanol no mercado brasileiro foi feita por Luís Roberto Pogetti, presidente do conselho de administração da Copersucar. Na sua opinião, o País tem potencial de dobrar o volume da oferta de etanol, a médio prazo, com o preenchimento da capacidade instalada de produção, a partir da recuperação da produção de cana-de-açúcar, e adicionalmente com a ampliação marginal e a otimização dos investimentos já realizados na estrutura industrial, acompanhada da respectiva expansão do plantio. “O setor sucroenergético precisa realizar um trabalho conjunto para a adoção de políticas públicas que restabeleçam a competitividade do etanol como componente estratégico da matriz energética brasileira, de forma atrativa tanto para os produtores quanto para os consumidores”, afirmou Pogetti.

Inversão de papel

O País se torna um grande importador de etanol em 2011*