Economia

Fazenda chinesa

Soja, tabaco, algodão e carnes são alguns dos itens que os chineses buscam no agronegócio brasileiro.

Sombra para chinês: representante da província de Hebei em visita às lavouras de soja goianas, onde serão investidos US$ 7 bilhões

O agronegócio brasileiro sempre foi o foco das atenções do mundo inteiro, dado o potencial de crescimento de sua produção de grãos e carnes. Após as declarações da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO/ONU), afirmando que até 2050 o planeta demandará uma produção de alimentos 70% maior, a busca por países com grande potencial agropecuário se intensificou ainda mais. Nesse cenário, a China, que já é a maior parceira comercial do Brasil no setor, com 23,4% das exportações totais de US$ 50,1 bilhões do agronegócio em 2010, parece não poupar esforços para ampliar essa margem. Por sua vez, o governo brasileiro organizou uma missão para o país asiático a fim de estreitar ainda mais os laços comerciais entre as nações.

A comitiva liderada pela presidente Dilma Rousseff esteve em Pequim em abril para tratar de novos investimentos para o País. O resultado foi altamente favorável para o agronegócio brasileiro, principalmente para as cadeias produtivas da soja, com acordos para a produção nos Estados de Goiás e Bahia, suinocultura, mediante a abertura do mercado chinês, e avicultura, que deve dobrar seu volume de exportações de frango ainda este ano.

Antes mesmo da chegada da missão à China, Goiás, que já se empenhava na busca de acordos para a ampliação e modernização de sua sojicultura, fechou uma parceria com a estatal chinesa Sanhe Hopefull para expandir a produção do grão em pelo menos seis milhões de toneladas – volume que seria exportado integralmente para o país asiático. O acordo visa receber investimento superior a US$ 7 bilhões para transformar dois milhões de hectares de pastagens degradadas em área para o plantio de soja, além de garantir o custeio dessa produção e a compra de maquinários agrícolas. O protocolo de intenções foi assinado no dia 17 de abril, na província de Hebei pelo secretário da Agricultura de Goiás, Antônio Flávio Camilo de Lima, e representantes chineses. “Isso é uma mudança estrutural na região para a agricultura”, diz Lima.

O interesse dos asiáticos pela soja não para por aí. Durante a viagem da comitiva brasileira a Pequim, o único governador estadual que acompanhou a presidente Dilma, Jaques Wagner, da Bahia, juntamente com o secretário da Agricultura, Eduardo Salles, assinou com Hu Julie, presidente da empresa Chongqing Grain Group, o protocolo de intenções para a construção de um complexo industrial para soja, em Barrei-ras, no oeste baiano. O grupo chinês irá desembolsar cerca de R$ 4 bilhões em um polo industrial para esmagar e refinar óleo de soja, além de investir em infraestrutura para armazenagem de grãos e modernização de portos. Com as obras concluídas, a Chongqing Grain Group terá capacidade para processar até 1,5 milhão de toneladas de soja por ano, adquiridas junto aos produtores da Bahia, Piauí e Tocantins, além de refinar 300 mil toneladas de óleo e armazenar 400 mil toneladas de grãos. Segundo o secretário Salles, o

próximo passo acontece agora em maio, quando o Memorando de Entendi-mentos entre os governos baiano e da província de Chongqing será assinado em Salvador. Salles aproveitou, ainda, a estada em Pequim para visitar a empresa Hopefull Group Grain Oil Food, onde recebeu a sinalização positiva a respeito de futuras parcerias para a instalação de uma indústria textil na Bahia. Além disso, o Estado deve receber missões asiáticas para avaliar a possibilidade de exportação da folha de tabaco e charuto.

O brinde: Dilma Rousseff e o presidente da República Popular da China, Hu Jintao, comemoram os acordos firmados durante a visita da presidente brasileira ao país asiático

Em 2010, os investimentos dos chineses no Brasil ultrapassaram a casa dos US$ 17 bilhões. Deste total, aproximadamente US$ 14,34 bilhões estão ligados a commodities. “Isso evidencia a estratégia chinesa de garantir o autofornecimento de matérias-primas”, diz Eduardo Celino, coordenador da Rede Nacional de Informações sobre Investimento (Renai) e autor do estudo que chegou a estes números. “Este ano, podemos receber US$ 25 bilhões de investimentos.” Segundo Celino, um levantamento preliminar indica que a missão à China deve render US$ 9 bilhões de investimentos no agronegócio brasileiro.

Enquanto esses acordos ocorriam, o ministro da Administração-Geral de Qualidade, Inspeção e Quarentena da China, Zhi Shuping, informou ao ministro da Agricultura, Wagner Rossi, a aprovação inicial de três frigoríficos nacionais exportadores de suínos. No ano passado, uma missão chinesa veio ao Brasil inspecionar 13 instalações. Destas, apenas três foram aprovadas sem nenhuma restrição. Uma planta da Aurora, em Chapecó (SC), uma da BR Foods, em Rio Verde (GO), e a terceira da Coopera-tiva Agropecuária e Industrial de Ijuí (Cotrijuí), em Ijuí (RS). A maior surpresa foi a inclusão da cooperativa gaúcha, de menor porte, em comparação com os grandes frigoríficos do setor. “Já trabalhávamos há dois anos para abrir novos mercados”, disse Osmildo Pedro Bieleski, diretor técnico da Cotrijuí.

Com a abertura desse mercado, o Brasil deve exportar neste ano 50 mil toneladas de carne suína para a China. Até o final de 2011, as demais plantas devem ser habilitadas. Em 2012, outras 13 devem ser incluídas na lista, o que vai possibilitar o embarque de 200 mil toneladas para o país asiático. “A conquista do mercado chinês para a carne suína brasileira é a chave para a abertura de mercados como Japão e Coreia do Sul”, afirma Otavio Cançado, diretor da Secretaria de Relações Internacionais do Agronegócio do Mapa.

Quem também comemorou a aprovação dos frigoríficos brasileiros foi Mário Lanznaster, presidente do grupo Aurora. Além de já constar da

lista dos liberados para carne suína, o frigorífico catarinense conseguiu introduzir sua processadora de frangos nos negócios com a China. “O mercado mundial para frangos é muito bom. O Brasil tem de aproveitar esse momento para estreitar ainda mais as relações com a Ásia”,

diz Lanznaster. O desempenho recente das vendas de carne de frango para a China, abertas em 2009, reforçam o otimismo do presidente da Aurora. O produto brasileiro agradou tanto que as exportações registraram um salto histórico em 2010: 480% em valor e 406% em volume, na comparação com o ano anterior. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) revelam que, em 2010, o valor exportado para a China foi de US$ 219,6 milhões, contra US$ 37,5 milhões em 2009. Nesse período, o volume mais do que quintuplicou, passando de 23,9 mil toneladas para 121,5 mil.

Com esses números nas mãos, a delegação brasileira apresentou aos chineses questionários para a habilitação de mais 25 plantas frigoríficas de frangos. A aprovação foi imediata. “A própria China solicitou a inclusão de mais 16 unidades”, diz Francisco Turra, presidente da Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frangos.

As negociações entre Brasil e China devem seguir intensas nos próximos anos. E o setor agropecuário já está alerta para atender a um novo e promissor segmento: o de produtos industrializados, dado o maior valor agregado no produto final.