Economia

Na onda do apetite do Tio Sam

Com a abertura das exportações brasileiras de carne bovina aos Estados Unidos, o Brasil pode potencializar mercados que pagam melhor pelo produto nacional

Na onda do apetite do Tio Sam

Divulgação

A carne bovina está na lista dos alimentos mais apreciados nos Estados Unidos. Filet mignon, t-bone steak, strip steak, hanger steak, são cortes que podem levar um americano imediatamente a salivar por um bom churrasco. No país, o consumo é de dez milhões de toneladas, por ano, o equivalente a cerca de 23 quilos per capita. Assim como acontece com os brasileiros, para os sobrinhos do Tio Sam a carne bovina é uma iguaria a ser saboreada. Mas, até junho, quando o governo americano deu o seu aval aos agentes do mercado para a importação de carne in natura do Brasil, esses dois mercados haviam se falado poucas vezes, embora o Brasil, o maior exportador mundial da commodity, há décadas bata à sua porta para vender seus produtos. “O governo federal e as entidades de classe trabalharam muito para ter acesso a esse mercado”, diz o engenheiro agrônomo Fernando Sampaio, diretor executivo da Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carne (Abiec).

Depois do anúncio da abertura do mercado americano à carne bovina in natura brasileira, uma onda de novos negócios e de retomada de mercados começaram a surgir. Na lista, além do boi, há interesse por aves, suínos e até leite. O mais recente candidato a comprador de carne é Mianmar, país do Sul da Ásia de pouco mais de 50 milhões de habitantes. As compras do país, interessado em bovinos e aves, poderão render ao Brasil negócios da ordem de US$ 87 milhões, por ano. Integram, ainda, essa lista o Japão para a carne bovina, a Rússia para o leite, além da retomada das importações de carne de franco pela Arábia Saudita.


PRODUÇÃO EM FRIGORÍFICO: a liberação das importações de carne in natura brasileira, pelo governo americano, abre o acesso ao mercado que consome dez milhões de toneladas por ano

No entanto, sem dúvida, a grande notícia para o setor de proteína animal, foi a conquista do mercado americano, que começou a ser negociada há 15 anos, quando começaram as negociações entre o Brasil e Estados Unidos. “É o céu que se ilumina”, disse Kátia Abreu, ministra da Agricultura. A expectativa é de que, dentro de cinco anos, o Brasil exporte 100 mil toneladas de carne in natura aos americanos. Nessa conta não estão contabilizadas cerca de 33 mil toneladas de corned beef, carne cozida enlatada, comprada pelos americanos no Brasil desde 1996. Caso esse patamar de vendas se confirme, os Estados Unidos passariam a ser o quarto maior destino das carnes brasileiras. Atualmente, os principais compradores são a Rússia, Hong Kong, o Egito e o Irã. No caso dos Estados Unidos, as vendas serão de carnes do dianteiro, como o acém, a paleta, o peito e o pescoço, ou seja, cortes pouco valorizados no mercado interno brasileiro.

 No entanto, na opinião de Sampaio, com a demanda americana esse quadro pode mudar. “Com a venda desses cortes para o mercado americano, conseguiremos finalmente valorizar o dianteiro do boi, mais do que em outros países”, diz Sampaio. Os americanos estão abrindo suas portas porque necessitam de carne para a produção de hambúrguer, feito com peças do dianteiro. Do lado de cá, os frigoríficos sempre sonharam com essa possibilidade. Nos Estados Unidos, a população de 323 milhões de habitantes consome 12,5 bilhões de hambúrgueres por ano, o equivalente a 40 unidades por pessoa. “Os cortes de dianteiro são produtos que sobram na indústria brasileira de carne e falta na americana”, afirma Sampaio.


“Os cortes de dianteiro são produtos que sobram na indústria brasileira de carne e falta na americana” Fernando Sampaio,
diretor da Abie
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Para o engenheiro agrônomo Sérgio De Zen, pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, órgão da Esalq/USP, de Piracicaba (SP), a confiança em um cenário mais promissor para a carne bovina tem sua razão de ser. “A partir da abertura do mercado americano, o Brasil poderá ter acesso mais fácil a mercados como o canadense, o japonês, o mexicano e o sul-coreano, por exemplo,” diz De Zen. Com isso, o País inaugura uma fase na história de sua pecuária, na qual há a possibilidade de uma melhor remuneração pela carne, além de se firmar como um fornecedor de produto de qualidade para esses novos mercados. Ao contrário dos americanos, esses clientes compram cortes de mais nobres.

É nesse jogo de oferta e procura do mercado internacional que o País passa a experimentar uma nova fronteira de ganhos, e com um mercado cumpridor de seus contratos, segundo De Zen. “A Rússia, por exemplo, volta e meia, não honra seus acordos com o Brasil e acaba deixando de pagar o que foi combinado.” Segundo o pesquisador do Cepea, isso já não aconteceria com os Estados Unidos e com os demais países puxados por ele. “Assim como os americanos, esses países pagariam melhor também porque são mercados que consomem carne de qualidade”.

“É no mercado de proteína animal que circulam as maiores cifras por tonelada exportada” Sérgio De Zen,pesquisador do Cepea

Segundo Sampaio, em busca dessa qualidade, os importadores da Europa têm pagado muito bem pelo quilo da carne brasileira. “Sem dúvida, o mercado europeu é o que melhor remunera pelos cortes nobres.” Os volumes totais exportados ao continente, no ano passado, chegaram a 127,4 mil toneladas, movimentando um total de US$ 928,5 milhões. “Poderíamos exportar ainda mais, se não fossem as barreiras comerciais impostas por esse mercado.” Para De Zen, as oscilações de preços são normais nas transações globais. “É no mercado de proteína animal que circulam as maiores cifras por tonelada exportada”, diz De Zen. Segundo ele, uma tonelada de soja, por exemplo, sai por US$ 500, em média. Já no caso da carne bovina, a mesma tonelada pode custar a partir de US$ 4,5 mil. E chegar a até US$ 15 mil, se for exportada dentro da Cota Hilton, mercado cativo da indústria Argentina, do qual o Brasil pouco participa por não conseguir ofertar produto dentro dos padrões de qualidade desse nicho. “Isso explica o porquê dessa guerra para vender”.


QUALIDADE: a carne brasileira vem ganhando valor no mercado externo. Na última decada, o preco pago pelo quilo lá fora mais que duplicou, para US$ 4,63. Em 2014, as exportações chegaram a US$ 7,15 bilhões

Mas, aos poucos, a carne brasileira vem ganhando mais valor internacionalmente. Nos últimos dez anos, de acordo com dados do Mapa, o preço pago pelo quilo mais que duplicou, saindo de US$ 2,26, em 2005, para US$ 4,63, no ano passado, totalizando US$ 7,15 bilhões exportados. Em relação a 2013, com receita de US$ 6,66 bilhões, o aumento foi de 7,4%. Entre os países que mais valorizam a carne brasileira está a Finlândia, com US$ 10,76 o quilo, seguida pela Noruega, com US$ 10 (confira o quadro Carne para o mundo). Para De Zen, é só uma questão de tempo o Brasil se firmar como um país produtor de carne de qualidade ainda mais apreciada e reconhecida, a exemplo da Austrália e dos vizinhos Argentina e Uruguai. O pesquisador do Cepea dá como exemplo o comportamento da área de compras da rede Outback, no Brasil, restaurante famoso por só servir carnes premium. “Eles só compravam carne do Uruguai. Hoje, 70% da demanda do restaurante são cobertas por produto nacional”, diz De Zen. “Essa é uma comprovação de que o País está melhorando a qualidade da carne bovina que produz.”