Economia

No tabuleiro de Stephanes

Ministro da Agricultura prepara um pacote de bondades e diz

que não faltará crédito para o produtor rural, apesar dos sinais da crise mundial

Guarde bem essas projeções para cobrar mais tarde: “O dólar deve se estabilizar entre R$ 1,90 e R$ 2”, “O produtor irá vender com o dólar mais alto do que plantou”, “A crise atingirá menos a agricultura do que outros setores da economia”, “Haverá dinheiro suficiente para o plantio da safra 2008/2009” e, principalmente, “Os bancos terão de reclassificar os produtores contemplados pela MP 432 como bons pagadores e ponto final”. Essas são algumas das afirmações dadas pelo ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, com exclusividade à DINHEIRO RURAL, se referindo aos efeitos da crise financeira que desde 15 de setembro sacode o mundo.

Segundo Stephanes, proteger a agricultura brasileira de possíveis reveses causados pela falta de crédito ou quedas bruscas das commodities é uma das preocupações diárias do presidente Lula e da ministrada Casa Civil, Dilma Rousef. Na prática, até agora, o governo colocou em campo R$ 10 bilhões para financiar o plantio da próxima safra. “A agricultura tem sido a principal responsável pelos bons desempenhos da balança de pagamentos do País”, diz. “Por isso, o governo está atento e não vai deixar o campo na mão”, promete. Como prova, ele garante que não haverá restrição de crédito para agricultores enquadrados na MP 432, que equalizou uma série de dívidas passadas. Até o dia 16 de outubro, produtores que protocolaram os pedidos de financiamento de suas dívidas constavam como “inadimplentes” no sistema. No dia 17, contudo, segundo levantou DINHEIRO RURAL, alguns produtores que lançaram mão desse recurso começaram a receber retorno de suas agências bancárias, avisando-os de que havia crédito disponível e que a reclassificação finalmente estava concluída.

PREOCUPAÇÃO: o presidente Lula tem cobrado atenção para com as questões do campo brasileiro

Segundo o ministro, mesmo diante do cenário apertado, os preços não estão demasiadamente depreciados.

“O problema é o custo de produção, porque pela média dos dois últimos anos ainda há ganhos”, diz.

Enquanto isso, na economia real, alguns setores dentro da própria agricultura acreditam que a crise não comprometerá 2009. Segundo dados da Anfavea, setembro foi o melhor mês em 2008, com 5,5 mil máquinas agrícolas vendidas. “Todos os fatores que fizeram o setor de máquinas agrícola iniciar a sua retomada ainda estão presentes”, diz o vice-presidente da entidade, Milton Rego. No acumulado, o crescimento é 52,4% superior ao de 2007. “O crescimento em 2008 vai se concretizar e ainda acreditamos num pequeno avanço para 2009”, diz.

MERCADO – Para o vice-presidente da área de marketing da Agco, Rasso Von Reininghs, todos os fundamentos da agricultura continuam sólidos. “O que preocupa um pouco é o crédito, mas temos observado um esforço por parte do governo em fazer com que o dinheiro continue circulando”, analisa. Segundo ele, a preocupação com um possível aumento da inadimplência existe como efeito colateral da crise. “Mas até agora não há queda nas vendas, tampouco cancelamento de pedidos”, revela.

Segundo José Luiz Coelho, gerente de vendas nacional da John Deere, 2009 deve repetir o mesmo resultado de 2008. Um dos principais afetados, segundo ele, pode ser o setor de etanol. Com o barril do petróleo beirando os US$ 70, o combustível limpo fica menos competitivo. “Além disso, algumas empresas brecam investimentos mais arrojados” analisa.

“Teremos muitas usinas entrando em atividade no próximo ano com 70% a 80% de todo corte mecanizado e queremos fornecer, pelo menos, 50% dessas máquinas”, diz.

Mesmo diante de um setor dono de um certo otimismo, para a presidente eleita da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), senadora Kátia Abreu, o fato de os produtores continuarem comprando não significa que danos deixarão de existir. Ela lembra que, embora a produtividade tenha aumentado extraordinariamente nos últimos 20 anos, é do preço que vem a rentabilidade. “O valor das exportações de soja subiu 70% e mais de 92% desse total está no preço”, diz a senadora. Desse aumento, o incremento na produção contribuiu com muito pouco. Segundo ela, uma queda no preço vai deprimir fortemente as exportações.

Ministro da Agricultura prepara um pacote de bondades e diz

que não faltará crédito para o produtor rural, apesar dos sinais da crise mundial

KÁTIA ABREU: o que garante a renda no campo é o preço e não a produtividade

Para Stephanes, a solução pode estar no câmbio (leia estrevista ao lado). “Pela primeira vez em anos o agricultor vai vender sua produção com um dólar mais apreciado que no plantio, entre R$ 1.90 e R$ 2”, diz. Segundo ele, mesmo com a derrocada dos preços das commodities, um real mais desvalorizado ante à moeda americana pode garantir a rentabilidade do setor. Na opinião do produtor Sérgio Bueno, que produz 2,5 mil hectares no Tocantins o governo tem de olhar, também, para os preços de custo. “No ano passado, meu hectare plantado custava R$ 950, hoje está em R$ 1.500”, afirma. “Olhar só para as médias de preço das commodities é muito simplista”, garante.

O governo também não acredita numa nova disparada nos preços dos fertilizantes, com aconteceu este ano.

Não está descartada a criação de uma empresa de capital misto nem a criação de uma nova estatal. Até o final do ano, o governo vai divulgar um documento detalhando as principais ações para se conseguir auto-suficiência em potássio em dez anos; em fosfatados, em seis anos; e nos nitrogenados, em cinco anos.

“A AGRICULTURA NÃO PODE PARAR”

Ministro diz que demanda mundial por alimentos deve se manter em alta, o que valorizará o preço das commodities

DINHEIRO RURAL – A queda dos preços das commodities vai comprometer a renda do produtor?

REINHOLD STEPHANES – Vai. Se ele esperava uma rentabilidade maior, vai ter uma menor ou vai empatar. Mas vamos garantir a renda mínima ao produtor, porque nós queremos que ele continue plantando no ano seguinte. A agricultura no Brasil não pode parar, porque ela tem um impacto muito grande dentro da economia, tem um impacto muito grande no setor de exportações e na formação do saldo da balança comercial.

RURAL – O que se deve esperar para 2009?

STEPHANES – Que a demanda mundial se mantenha pelo menos no ritmo atual. Os milhões de chineses, que passaram a se alimentar melhor, vão continuar comendo. A Rússia deve continuar importando carnes nos níveis de hoje. Em princípio, nós teremos a manutenção dos preços atuais. Nós estamos trabalhando em dois momentos diferentes. Primeiro, no plantio. Depois na comercialização.

NÃO À CRISE: ministro garante que, se for necessário, tomará outras medidas

RURAL – Haverá redução da área plantada?

STEPHANES – Ainda não. Haverá queda de produtividade. Não só por causa do insumo, mas porque dificilmente nós vamos repetir uma condição climática tão favorável como tivemos no ano passado. Nós contamos com uma produção idêntica à do ano passado ou ligeiramente superior. Não teremos um crescimento de 4%.

RURAL – As condições para o plantio também não são as mesmas.

STEPHANES – Muitos problemas surgiram, como restrição ao crédito, mas sabemos que o produtor vai plantar e vamos fornecer as condições para que ele plante.

RURAL – Dá para acreditar que os bancos vão mudar a classificação de risco dos produtores?

STEPHANES – O Banco Central mandou enquadrar em outra resolução e ponto. Então, se antes ele rebaixou a classificação, ele tem que voltar atrás. O banco tem que fazer isso. O Gerardo Fontelles (assessor especial de assuntos agrícolas do Ministério da Fazenda) é o homem que mais entende desse assunto no Brasil. Ele me garantiu que a resolução resolve. Agora, evidentemente, se isso não garantir o acesso ao crédito, nós tomaremos novas ações na próxima semana. Isso está sendo rastreado todos os dias.

RURAL – Os produtores chegaram a ameaçar que não pagariam os 40% da primeira parcela da renegociação da dívida por falta de acesso ao crédito. O que aconteceu, na realidade, diante dos números?

STEPHANES – A inadimplência foi de menos de 7%. Isso mostra que adiar o pagamento não é o caminho a ser seguido pelo campo.

RURAL – A situação do produtor não está tão periclitante como se apresenta?

STEPHANES – Eu não estou dizendo que a situação é boa. Estou apenas dizendo que a gente procura acompanhar e a realidade na ponta nem sempre é a que nos trazem. Nós acompanhamos diariamente os preços dos produtos agrícolas. Quando se analisa no período de 24 meses, todos se mantêm no patamar superior ao que estavam quando surgiu o fenômeno de aumento de preços.

RURAL – Como o governo está tratando a questão dos fertilizantes?

STEPHANES – No final do ano vamos divulgar um relatório com as nossas metas. No caso do potássio, nós vamos nos tornar auto-suficientes em dez anos, nos fosfatados, em seis anos, e nos nitrogenados, em cinco anos. No limite, podemos até criar uma nova estatal. O governo está acompanhando todos os cenários e vai manter a agricultura rodando, porque o governo deseja que esse setor continue sendo um setor dinâmico dentro da economia.