Economia

O leite da discórdia

Produtores nacionais reclamam do crescimento das importações de Argentina, Chile e Uruguai. Só no primeiro semestre, o País já comprou fora mais do que em todo o ano passado

A rivalidade entre o Brasil e a Argentina vai muito além dos campos de futebol. Pelo menos nos últimos anos, intensificaram-se as trocas de acusações entre os dois países no campo do setor industrial. No ano passado, os fabricantes brasileiros e argentinos sofreram restrições para a entrada de produtos em ambos os paises. Na Páscoa deste ano, por exemplo, as cargas de caminhões brasileiros abastecidos com ovos de chocolate foram perdidas devido à demora para serem liberados na alfândega argentina. Em maio, foi a vez de os brasileiros darem o troco. Em princípio, as barreiras à importação de carros era estendida aos membros do Mercosul, mas foi vista como uma retaliação à Argentina. Mais recentemente, a discussão chegou ao leite em pó.

Derivados: crescimento da importação de queijos e soro de leite aumenta a especulação

Desta vez a polêmica, que acontece desde 2002, não envolve apenas os produtores argentinos, mas também os chilenos e os uruguaios. De um lado, os exportadores querem aumentar o volume de leite em pó comprado pelo Brasil, dentro de um acordo dos países do Mercosul. O argumento usado por eles é que a quantidade adquirida é pequena diante dos níveis de produção, no Brasil. Do outro lado, os produtores nacionais, alegam que o leite em pó desses países prejudica o mercado interno, levando à redução de preços. A queda de sua remuneração, raciocinam, associada à alta dos custos de produção, poderia causar desestímulo à atividade leiteira local.

“No ano passado, os países fecharam um acordo que limitou o comércio de leite em pó da Argentina para o Brasil, em três mil toneladas por mês”, diz Darlan Palharini, secretário-executivo do Sindicato das Indústrias de Laticínios do Rio Grande do Sul (Sindilat). A queixa que motivou o acordo foi que los hermanos vendiam leite para o Brasil a preços inferiores aos praticados no mercado internacional. Segundo Palharini, o que ocorre neste ano é que o volume da importação de Argentina, Uruguai e Chile aumentou além da conta. No ano passado, entre os meses de janeiro e julho, o País comprou 29 mil toneladas. “Neste ano, no período, já foram 50 mil toneladas de leite em pó”, afirma. Além disso, mostra Palharini, ocorreu também significativo aumento na importação de queijos. Nos primeiros seis meses de 2010, foram 9,6 mil toneladas e neste ano já foram contabilizadas 16 mil toneladas de importação do produto – um crescimento de 66,6%.

“Estamos em estado de alerta para evitar que aconteça novamente a triangulação do produto”

Jorge Rubez, presidente da Leite Brasil

Para os fabricantes do setor, o acordo com a Argentina tem sido respeitado para o leite em pó, uma vez que o governo brasileiro não autoriza entrada de mais do que o permitido. No entanto, no caso do queijo e do soro de leite entra mais do que os produtores nacionais acreditam ser o razoável, por não haver um acordo de cotas de importação. “Precisamos acertar com os parceiros, eles estão abertos ao diálogo”, diz Palharini. Na opinião de Jorge Rubez, presidente da Associação Brasileira de Produtores de Leite (Leite Brasil), o País tem um tratado com o Mercosul no qual seus membros podem vender livremente dentro do bloco econômico. “O que aconteceu neste ano é que o Uruguai e o Chile mandaram mais leite para o Brasil”, diz Rubez. O temor dos produtores brasileiros é de uma concorrência desleal e isso já aconteceu no passado, prejudicando os produtores dos maiores Estados leiteiros, como Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina e Goiás. “Estamos em estado de alerta para evitar que aconteça novamente a triangulação do produto”, diz Rubez. No passado, lembra ele, foi uma prática comum na Argentina a compra de leite de países europeus, que subsidiam o produto, para vender ao Brasil.”

O presidente da Comissão Nacional de Pecuária de Leite da Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA), Rodrigo Alvim, diz que as importações prejudicam o produtor brasileiro, principalmente quando entra no País uma enxurrada de produtos. “O novo ministro da Agricultura já se mostrou sensível à questão.” Segundo Alvim, o Brasil fechará este ano com recorde de gastos em importações de produtos lácteos. No primeiro semestre de 2011, o País já comprou US$ 371 milhões com essa categoria de produtos, valor que representa 13% de aumento em relação a todas as aquisições do ano passado, que somaram US$ 326 milhões.