Economia

O nó da cana

Expansão desenfreada da cultura canavieira põe vários municípios em estado de alerta e alguns deles já começam até a criar leis para limitar o seu plantio

O cenário é triste. Milhares de produtores rurais desempregados. Gente que nasceu e cresceu lidando com a terra, mas que agora foi substituída por modernas máquinas agrícolas, bem mais eficientes. Esta história pode parecer exagerada, mas é exatamente o que vem acontecendo nos últimos anos, em grande parte devido ao aumento do plantio da cana-de-açúcar, extremamente valorizada após o “boom” do álcool combustível.

A situação, no entanto, só tende a piorar nos próximos anos. Com dinheiro na mão e precisando de mais terras para aumentar a produção, centenas de usinas espalhadas pelo Brasil vêm arrendando terras férteis e deixando os trabalhadores na mão. Os donos das propriedades comemoram, uma vez que faturam alto sem trabalhar, mas muitas vezes nem se dão conta do tamanho do problema que estão criando.

Além de acabar com empregos, o avanço da cana também pode comprometer a agricultura brasileira em geral. Grandes áreas antes destinadas ao plantio de grãos estão sendo tomadas pela cana e pelo lucrativo mercado do etanol. De olho nisso, o governo federal já estuda fazer um rigoroso zoneamento, vetando a gramínea em algumas regiões e protegendo certas áreas mais delicadas, como a Amazônia e o Pantanal, por exemplo.

Este mapeamento já está em discussão, mas só deve ser colocado em prática em setembro de 2008. “Ainda que haja microclimas propícios para plantação de cana na Amazônia, o cultivo nessa região será restringido”, garante o ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Reinhold Stephanes, acrescentando que a produção será incentivada nas áreas já degradadas por pastagens.

Hoje o plantio da cana-de-açúcar já cobre 7,3 milhões de hectares de terras em todo o Brasil, mas vem crescendo em um ritmo alucinante. Só em 2006 houve um aumento de 600 mil hectares, ou quase 9% em relação a 2005, e, ao que tudo indica, o crescimento deve se manter forte nos próximos anos.

Preocupadas com a situação, algumas cidades se anteciparam ao Governo Federal e já vêm tomando algumas medidas preventivas. O melhor exemplo é o município de Rio Verde, em Goiás, um dos maiores produtores de soja do País, que limitou a plantação da cana-de-açúcar em 50 mil hectares. “Nós não proibimos nada. Apenas limitamos para não quebrar o agronegócio na região”, explica Avelar Morais Macedo, secretário da Indústria e Comércio de Rio Verde.

“A cana-de-açúcar é uma tragédia social. A falência de um município. Isto já vem acontecendo no interior de São Paulo e tende a alcançar o resto do Brasil, pois a cana vai ser cada vez mais mecanizada, utilizando cada vez menos mão-deobra”, completa o secretário, citando os altos índices de desemprego gerados pela cana. De acordo com Macedo, todas as 21 usinas de álcool e açúcar da região de Ribeirão Preto empregam em torno de oito mil pessoas, enquanto apenas uma indústria de processamento de soja em Rio Verde gera 7.600 empregos. Seguindo os passos de Rio Verde, a cidade de Mineiros-GO também já estuda limitar o plantio da cana-de-açúcar.

Prestes a receber duas novas usinas – com capacidade para processar até três milhões de toneladas cada uma –, o município já teme pelo futuro de seus agricultores.

50 MIL HECTARES é o limite para o plantio da cana-de-açúcar na cidade de Rio Verde-GO

Mas é preciso ter pressa, uma vez que a primeira usina entrará em operação em 2009 e a outra em 2010.

AVELAR MORAIS MACEDO, SECRETÁRIO DA INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE RIO VERDE-GO

“Nós não proibimos nada. Apenas limitamos a produção para não quebrar o agronegócio na região. A cana-de-açúcar é uma tragédia social, a falência de um município. Isto já vem acontecendo em São Paulo e tende a alcançar o resto do Brasil”