Economia

O PAC do agronegócio

Em entrevista exclusiva à DINHEIRO RURAL, o ministro Reinhold Stephanes adianta as medidas do pacote que irá beneficiar os agricultores e os pecuaristas

O ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, é um gestor. Isso basta para entender seu primeiro grande projeto dentro da pasta, que tenta superar a crise dos últimos dois anos. Stephanes quer lançar um Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) agrícola, que, na avaliação dele, seria fundamental para atacar as origens da crise. Mas, afinal, em que Stephanes difere dos antecessores? Ele mesmo responde: “Os que me antecederam abriram as portas, nosso trabalho é atravessar”, diz ele, em entrevista à DINHEIRO RURAL, logo depois de divulgar o novo recorde da safra de cana-de-açúcar. O plantio subiu para 6,62 enmilhões de hectares e a colheita será de 528 milhões de toneladas, 11,20% maior do que a safra 2006/2007.

O ministro conta que o PAC agrícola está sendo tratado diretamente com o presidente Lula, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, e o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Ao todo são oito pontos, que vão desde a quebra do monopólio dos estaleiros brasileiros a um fundo anticatástrofes. Com a mesma voz calma e o jeito pausado de falar, o ministro culpa os juros altos e o a valorização do real pela queda na renda do agricultor, mas acredita que com a melhora na infra-estrutura boa parte dos problemas será resolvida. “Pagamos o preço da nossa ineficiência”, diz. A seguir, sua entrevista.

DINHEIRO RURAL – O sr. tem defendido um PAC agrícola. Ele sai do papel?

REINHOLD STEPHANES – O próprio presidente pediu para que eu estudasse medidas estruturantes a médio e longo prazo. O Brasil vem se fixando no mercado mundial como grande exportador e o mercado mundial mostra, para os próximos 20, 30 anos, uma condição muito favorável para os produtores de carnes e de grãos. O Brasil precisa se estruturar para isso. Não para que ele seja um grande produtor, mas para que ele traga renda para o produtor. No momento, temos uma produção excepcional, mas isso não está trazendo renda para o agricultor.

RURAL – Por quê?

STEPHANES – Por causa da taxa de juros elevada. Além disso, temos uma infra-estrutura cara, uma dívida agrícola alta, barreiras internacionais e subsídios dos países que distorcem os volumes de mercadorias colocadas no mercado e, claro, isso tem influência no preço. Também temos problemas climáticos e não há políticas anticatástrofes e anticíclicas. Então temos várias questões que são estruturantes para um país como o nosso.

RURAL – E o que o governo pode fazer?

STEPHANES – É nesse sentido que estamos analisando. Temos dois grupos que já começaram a trabalhar sob a coordenação do Palácio do Planalto e da Casa Civil.

RURAL – Em quais medidas eles estão trabalhando?

STEPHANES – Nós fizemos uma agenda com oito pontos. Um dos grupos vai estudar a questão da infra-estrutura do Centro-Oeste, que é a mais crítica das cinco regiões. O problema é que todo o deslocamento de grãos e de carnes se deu para o Centro-Oeste e a infra- estrutura e a logística são extremamente caras, precárias e difíceis. Insisto, há produção, mas não renda.

RURAL – O que o segundo grupo fará?

STEPHANES – Vão estudar a cabotagem. Não sobre o problema, porque o problema já foi estudado, mas vão encaminhar decisões. Essa questão é extremamente importante. Hoje é mais barato mandar um produto do Porto de Santos até a China do que eu mandar para os portos no Nordeste.

“A PRODUÇÃO DE GRÃOS SE DESLOCOU PARA O CERRADO, MAS AINDA FALTA LOGÍSTICA”

RURAL – O que explica isso?

STEPHANES – O custo da nossa cabotagem. E há outras razões na estruturação da nossa cabotagem. Primeiro, porque é um monopólio, ela só pode ser nacional. Segundo, os armadores que pretendem criar uma empresa de transportes só podem comprar navios de estaleiros nacionais, que não são eficientes nem no prazo nem no preço.

RURAL – Qual a sugestão do sr.? Acabar com o monopólio?

STEPHANES – Claro. Os estaleiros têm que abrir para quem quiser se transformar num armador nacional poder comprar um navio competitivo. Nós pagamos os custos da ineficiência.

RURAL – E as outras medidas?

STEPHANES – Nós temos a questão dos juros e nós temos a questão da dívida dos agricultores, que vem sendo renegociada há 17 anos. O que nós desejamos é que se avance mais nesse estudo, para estruturar melhor a questão da dívida, porque a simples prorrogação constante não vai resolver o problema. Daqui a dez anos nós vamos continuar prorrogando dívidas.

RURAL – O que fazer, então?

STEPHANES – Até hoje, as medidas têm sido estruturais e não estruturantes. Surge o problema, o governo prorroga e a dívida vai crescendo, sem que haja uma solução. Evidentemente que temos que casar isso com uma outra medida anticatástrofe, porque se houver dois, três, quatro, cinco anos de boa produção, possivelmente o panorama da dívida será muito diferente do período de um, dois, três anos com colheita ruim e baixa produção.

“VAMOS LANÇAR SEGURO CONTRA CATÁSTROFES, COMO AS SECAS QUE ATINGIRAM O SUL DO PAÍS”

RURAL – O sr. está defendendo um fundo anticatástrofe?

STEPHANES – Também. Se o Centro- Oeste tiver uma boa infra-estrutura, as condições para o pagamento da dívida serão muito diferentes das que existem hoje, quando o custo do transporte é extremamente elevado e a renda do produtor cai muito. São várias coisas que estão interligadas. Temos que tratar do fundo anti-catástrofe, temos que cuidar da dívida, da logística e temos que tratar dos juros.

RURAL – E o câmbio?

STEPHANES – É uma questão de governo. Se eu tenho um câmbio de R$ 2,20, R$ 2,30, não vou nem dizer de R$ 3, a renda é uma. Quando o câmbio cai para R$ 1,95 a renda é outra. E aí começa um outro problema. Tem um outro problema estrutural muito sério que é a questão dos cartéis e o monopólio de empresas atuando em insumos, fertilizantes e defensivos. Estamos caminhando contra isso nos defensivos genéricos, mas ainda não há uma equação positiva nos outros setores.

RURAL – O sr. conseguirá resolver esses problemas durante a sua gestão?

STEPHANES – Nós fizemos uma agenda e vamos avançar. Vamos investir muito em defesa sanitária animal e vegetal. Eu tenho a impressão de que o caminho já foi aberto por outros ministros no passado e as coisas estão menos difíceis agora. O fundo para catástrofes está praticamente pronto e já temos a lei que vai regulamentá-lo.

RURAL – Como será esse fundo?

STEPHANES – Inicialmente o fundo tem que ser feito com recursos públicos. Depois, à medida que o fundo se sustentar, as seguradoras vão começar a entrar no mercado. Mas, até que esteja funcionando como uma política anticíclica, nós teremos uns quatro a cinco anos pela frente.

RURAL – O sr. falou da defesa sanitária. Haverá contingenciamento?

STEPHANES – Não. Os recursos já estão à disposição. Estávamos gastando cerca de R$ 120 milhões por ano e vamos gastar agora R$ 200 milhões. Talvez no ano que vem um pouco mais. Isso é suficiente. Também não vamos dobrar os recursos nessa área, mesmo porque existem questões que são operacionais. Estamos fazendo acordos com todos os países da nossa fronteira, como Bolívia, Paraguai e Argentina.

RURAL – Há alguma compensação pela valorização do real em estudo?

STEPHANES – O câmbio é uma questão delicada. O problema é que as medidas de compensação são de médio e longo prazo. É claro que a queda de juros pode ajudar, porque ela pode diminuir o custo. Eventualmente uma redução de tributos também seria positiva. O que aconteceu, e em parte foi favorável, é que os preços da soja e do milho estão subindo no mercado internacional. Mas, quando se faz a conversação de dólar para real, o ganho é consumido pela valorização do real.

 

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