Economia

O tempero é argentino, mas a carne…

Como a política argentina levou o país, conhecido por produzir a melhor carne do mundo, a se tornar importador

É brasileira. Pode parecer piada e, de fato, muitos acharam que era. No final do ano passado, quando começaram os rumores de que a Argentina importaria carne brasileira, os consultores do setor não deram crédito. Eles acharam que o alarde era apenas uma forma de os pecuaristas argentinos pressionarem o governo. Mas estavam enganados. Não se tratava de mais um drama argentino, mas de uma austera realidade decorrente de três fatores: políticas públicas, efeito clima e localização geográfica da pecuária. Mas o fato é que, a partir do ano que vem, se os argentinos quiserem manter o consumo per capita de 68 quilos de carne ao ano, não terão escapatória: precisarão recorrer à carne brasileira.

De acordo com a Federação Agrária Argentina (FAA), o país deve fechar 2009 com um rebanho de 47,9 milhões de cabeças, volume equivalente ao da primeira metade da década de 60. A baixa se deve a uma série de fatores. O principal deles é a política intervencionista da presidente Cristina Kirchner. Desde que assumiu o governo, ela sobretaxou as exportações de carne na tentativa de evitar a alta dos preços do produto no mercado interno.

“O péssimo direcionamento da política pública argentina é um exemplo de como um setor sólido e com tradição de exportação há mais de 100 anos pode evaporar do dia para a noite”, diz Otávio Hermont Cançado, diretor-executivo da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec). Somado a isso, a pecuária argentina está migrando para a região norte do país.

A agricultura, sobretudo a soja, tem invadido os Pampas úmidos, área de fertilidade excepcional, antes voltada à criação de gado. “Os argentinos tinham um custo baixíssimo por causa dessa área. Com a migração para o norte, eles precisarão fazer correção do solo e o manejo ficará mais caro e complexo”, diz José Vicente Ferraz, diretor técnico do Instituto AgraFNP. Além disso, a Argentina está sofrendo a pior estiagem dos últimos 50 anos. A seca arrasou as pastagens e a soja, principal grão do país, deve ter perdas na casa dos US$ 3,6 milhões.

A Secretaria de Agricultura da Argentina divulgou um relatório que aponta que a produção de carne bovina despencará de 3,11 milhões de toneladas este ano para 2,67 milhões em 2010. Se isso se confirmar, o país, conhecido por produzir a melhor carne do mundo, passará de exportador a importador.

O impasse argentino representa uma grande oportunidade para o Brasil. “Eles devem importar a carne barata do Brasil para abastecer a demanda doméstica e deixar a produção própria para suprir o mercado externo”, diz Ferraz. Para Cançado, este procedimento seria uma solução razoável. “O mesmo já acontece nos EUA. É uma alternativa boa para a Argentina não perder clientes. Afinal, reabrir é bem mais difícil do que abrir”, diz.

A Argentina já estuda um plano para regular as importações. Segundo o secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, as importações poderão começar em dezembro, por causa do aumento do consumo em decorrência das festas de fim de ano. Moreno aventou a possibilidade de o governo premiar com a cota Hilton, parcela de exportação de carne bovina de alta qualidade que a União Europeia outorga a países produtores, os frigoríficos que garantirem o abastecimento do mercado interno.

O secretário ainda ressaltou que a Oficina Nacional de Controle de Comércio Agropecuário (Onnca, em espanhol) está elaborando o Registro Obrigatório de Importação (ROI), um documento que será exigido de quem quiser exportar cortes de alto valor. Neste cenário, os frigoríficos brasileiros JBS Friboi e Marfrig levam vantagens, já que estão presentes em solo argentino. É, pelo visto, os argentinos terão que engolir o orgulho e saborear a carne bovina brasileira.