Economia

Os heróis da imigração japonesa

A fantástica história dos imigrantes que, em um século, revolucionaram a agricultura brasileira e criaram verdadeiros impérios no agronegócio

Este mês comemoram-se 100 anos da chegada do Kasato Maru, navio que trouxe os primeiros imigrantes japoneses ao Brasil. O momento traz à tona uma série de contribuições nipônicas à cultura brasileira, entre elas muitos serviços prestados à agricultura. Além de muita esperança, esses imigrantes de corpo franzino trouxeram em suas malas sementes de frutas, verduras, oleaginosas e flores que muito contribuíram para o avanço da agricultura nacional. As terras cultivadas por eles não se caracterizam pela extensão, mas pela diversificação de culturas. Outra peculiaridade é a disciplina para o melhoramento genético de plantas (leia quadro nas páginas 36 e 38).

“O desafio de inventar uma máquina ficou no coração do meu avô, que a partir disso criou a Jacto, hoje uma grande empresa”

JORGE NISHIMURA, neto de Shunji Nishimura, 97 anos, retratado ao lado

O legado japonês à agricultura brasileira é tão vasto que em uma única reportagem seria impossível esmiuçálo. Por isso, a equipe da DINHEIRO RURAL escolheu dois personagens como forma de homenagear a todos que, com seu suor e sacrifício, contribuíram para o agronegócio brasileiro. Takayuki Maeda, filho de Tsuzaenamon Maeda, é um deles. Em 1927, com quatro anos de idade, chegou ao Brasil com os pais. “Meu avô não era o primogênito e, pela tradição japonesa, é o mais velho que herda os bens da família. Então resolveu se virar e adotou o Brasil como pátria”, lembra Jorge Maeda, terceira geração da família e atual CEO do poderoso grupo algodoeiro que leva o nome da família. Muito carismático, Tsuzaenamon logo conquistou a confiança do barão de café na fazenda em que trabalhava, na região de Franca-SP. Depois foi meeiro, arrendatário, até conseguir comprar a primeira propriedade, a Fazenda Cachoeira, em Ituverava-SP. Nessa época, o clã se dedicava à plantação de arroz e algodão e o pequeno Takayuki tinha de andar 20 km a cavalo para chegar até a escola. Como a família a família não tinha dinheiro, o jovem acordava mais cedo, colhia alface e vendia antes do início das aulas para conseguir comprar sua refeição. Todo sacrifício não lhe tirava o ânimo. Takayuki era o melhor aluno da sala, mas não pôde levar os estudos adiante, pois foi ajudar o pai na lavoura. Com 18 anos, assumiu todo o comando dos negócios.

Sempre que possível, ia comprando terras, mas ao contrário da maioria, que procurava áreas férteis, ele queria ganhar em escala, o que lhe rendeu o apelido de “Sebastião Cerrado” por apostar na região em uma época que o cerrado não era o oásis de grãos que é hoje. Nos anos 70, começou o processo de verticalização com a inauguração de diversas usinas de beneficiamento de algodão. Hoje, a Maeda é considerada a maior cadeia verticalizada da cultura no mundo, com atuação desde a genética das sementes até a fiação. No ano passado, o grupo teve uma receita líquida de R$ 223,9 milhões e um lucro bruto de R$ 32,1 milhões.

Outra história emblemática é a do fundador da Jacto, Shunji Nishimura, hoje com 97 anos. Ele deixou o Japão rumo ao Brasil em 1932. Consigo, levava apenas US$ 100, uma Bíblia e o diploma de técnico mecânico. Como a maioria dos imigrantes japoneses, seu primeiro trabalho foi na lavoura de café. Depois, foi garçom no Rio de Janeiro, mecânico em São Paulo. Mas se cansou da capital paulista e pegou o trem com a família com destino à última estação na cidade de Pompéia- SP e lá ficou. Alugou uma casa e colocou uma placa na porta com os dizeres: “Conserta-se tudo”. Persistente, ele realmente encontrava solução para tudo. Mas em 1948 um amigo que revendia produtos químicos lançou o desafio que mudaria sua vida. “Por que o senhor não inventa uma máquina para aplicar os defensivos nas lavouras brasileiras?”

“Meu pai não era o filho mais velho, por isso não ficou com a herança familiar. Veio ao Brasil e se tornou produtor”

JORGE MAEDA, presidente do Grupo Maeda, maior processador de algodão

“A pergunta ficou no coração dele e despertou seu espírito empreendedor. Assim surgiu a primeira polvilhadeira”, conta Jorge Nishimura, filho de Nishimura e presidente do conselho de administração da Jacto. A invenção que deu origem à Jacto foi feita com uma lata de querosene e um mecanismo de ventilação. Embora rudimentar, ela foi o pontapé inicial para uma série de invenções. Mas o fato que determinou o progresso da empresa data de 1964. Nessa época, Nishimura viu num catálogo um pulverizador com tanque de plástico e resolveu ir à Europa ver como funcionava a tecnologia, já que os seus enfrentavam problemas de corrosão. A decisão foi importar, mas havia um problema. Pela lei, o empresário teria que depositar ao governo brasileiro um imposto compulsório no valor da máquina sopradora de plástico, o que tornaria o negócio inviável. Por isso, Nishimura foi a Brasília e em uma audiência com o presidente Castelo Branco conseguiu a isenção da tarifa. Daí em diante, a Jacto não parou de crescer e, em 1979, ganhou renome internacional ao lançar a primeira colhedeira de café do mundo. Na Agrishow deste ano, a empresa anunciou que, em 2009, colocará no mercado a primeira colhedeira de laranja.

Shunji Nishimura ficou à frente dos negócios até o fim da década de 70. Depois passou o comando aos filhos e dedicou-se a um novo projeto: agradecer ao Brasil o acolhimento que recebeu aqui. A forma encontrada foi a educação. Assim nasceu a Escola Técnica Agrícola Pompéia e outros centros educacionais da Jacto.

No mundo globalizado de hoje, a Maeda e a Jacto enfrentam novos desafios. A primeira decidiu que irá se desfazer dos negócios de fiação. “Achamos que o espaço do Brasil está na produção de matérias-primas”, diz Jorge Maeda. Já a Jacto está prestes a inaugurar uma fábrica no continente asiático. “Na Tailândia estamos montando uma base de manufatura em resposta à dificuldade das empresas brasileiras de competirem neste mercado”, finaliza Jorge Nishimura.

CURIOSIDADES DO PAÍS DO SOL NASCENTE

SOJA: as sementes trazidas nas malas dos imigrantes para as comidas típicas “missô”, “nattô” e “tofu” serviram de material para o melhoramento da soja feito pelo Instituto Agronômico de Campinas, que perdura até hoje.

BATATA: por volta de 1913, os imigrantes japoneses, que se mudaram das fazendas de café do interior paulista para os arredores da capital, começaram a se dedicar à bataticultura e desenvolveram sementes bem-sucedidas. Exemplo: “Paraná-ouro”.

UVA RUBI: em 1973, Kotaro Okuyama, produtor de Bandeirantes (PR) notou uma variação colorida de uva Itália na sua plantação. Conseguiu multiplicá-la e a nomeou como “Rubi Okuyama”, nascendo assim, uma importante uva de mesa.

CAQUI: originária do Japão, a variedade doce da fruta foi introduzida em 1916 pelos imigrantes Matsumoto. Em 1923, Yoshioka, Nishioka, Watanabe e outros trouxeram as variedades “Fuyu” e “Jiro”.

PIMENTA DO REINO: chegou ao Brasil em 1933 por conta da morte de um imigrante a bordo do navio da Cia. e Colonização da América Latina (Nantaku). A embarcação estava próxima de Cingapura e Makinossuke Ussui, representante da Nantaku, atracou para cremar o corpo e pegou 20 mudas de pimenta-do-reino, que foram levadas para o Pará.

ABÓBORA JAPONESA: introduzida na década de 70, a variedade “Tetsukabuto” logo ganhou adeptos por conta da dupla aptidão. Ao contrário das abóboras até então cultivadas no Brasil, ela pode ser usada tanto para sopas quanto para doces.

PONCÃ: natural da Índia, a fruta chegou ao Brasil pelas mãos de imigrantes japoneses. Em 1929, Kyujiro Kuwabara enxertou em um limoeiro nativo duas mudas de poncã que trouxera do Japão.