Economia

Quem ganha com a alta do feijão

Muitos produtores continuam com o bolso vazio, apesar de o grão ter se tornado o vilão da vez na mesa do consumidor

Quem ganha com a alta do feijão

Preferência nacional: a saca da variedade carioca, a mais prejudicada pelo clima, chegou a R$ 550 foto: Alf Ribeiro/Folhapress

Com os preços em alta, o feijão tem sido o vilão da vez para o consumidor. Mas isso não fez dele o herói do bolso do produtor. Pelo menos é o que garantem os agricultores e especialistas no mercado desse alimento tratado quase como um símbolo nacional. Nos últimos meses, a saca de 60 quilos da variedade carioca, a mais consumida no País, chegou a R$ 550 em algumas praças de São Paulo e do Paraná, de acordo com o Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses (Ibrafe). No varejo, os dados do Índice de Preços ao Consumidor – Amplo 15 (IPCA-15), do IBGE, mostram que somente na primeira quinzena de julho o preço do feijão subiu 58%. A cidade de Goiânia liderou a escalada com 81,03%, com o quilo em cerca de R$ 15. Não muito longe da capital do Estado de Goiás, no município mineiro de Paracatu, onde está a maior área de culturas irrigadas do País, o produtor João Alves da Fonseca diz que não tem participado dessa festa de preços altamente remuneradores ao produtor. “O valor só chegou a esse patamar quando a maioria de nós não tinha mais feijão para vender”, afirma. “Se alguém ganhou, são uns poucos, seja entre produtores ou negociadores.” Na safra passada, o preço da saca de feijão era de cerca de R$ 110. Além do grão, Fonseca cultiva arroz, abóbora, soja e milho para semente e comercial. 

Eduardo Medeiros, produtor e presidente do sindicato rural do município de Castro (PR), afirma que nos Campos Gerais paranaenses, o preço pago ao produtor subiu na mesma proporção da queda de produtividade em sua região. Ela foi de até 40%, em função de intempéries que prejudicaram as duas safras do grão, das três realizadas no País. Medeiros cultiva feijão, além de soja e milho, desde os anos 1980, e diz que a decisão do produtor no momento do plantio não é fácil. “O feijão é uma cultura sensível, com mais riscos que o milho e a soja.” Em todo o País, de acordo com a Conab, a queda da produção na safra 2015/2016 foi de 16%, com 2,7 milhões de toneladas colhidas, ante 3,2 milhões na safra anterior. A produção média, por hectare, despencou quase 10%, ficando em 955 quilos.  Há pelo menos quatro safras, a produtividade não ficava abaixo de mil quilos.


“A alta do preço da variedade carioca poderia servir para diversificar essa cadeia” Luders, presidente da Abrafe

O Brasil é o maior produtor e consumidor de feijão do mundo, seguido pela Índia, China e México. Mas, até o início do próximo ano, a tendência é de escassez do produto. Causada por problemas climáticos relacionados ao fenômeno conhecido como El Niño, a seca é apontada como a principal causa para a escassez de feijão. João Ricardo Albanez, do Centro de Inteligência do Feijão, diz que a terceira safra deve aliviar um pouco a situação, mas os preços tendem a recuar somente com a primeira safra do ano que vem. Ele lembra que a última safra de 2016, cuja colheita será em outubro, depende de irrigação. Porém, os reservatórios das principais regiões produtoras de Minas Gerais, Goiás, São Paulo e no entorno do Distrito Federal continuam com baixo nível de água. “Por isso, o cenário para os agricultores especializados em grãos será positivo no ano que vem”, Albanez.  “Feijão, milho e soja estarão com preços favoráveis.”

De acordo com o presidente do Ibrafe, Marcelo Lüders, é preciso cautela nesse momento. O desabastecimento de feijão está concentrado na variedade carioca, que responde por 63% da produção, seguido pelo feijão caupi com 19% e pelo preto, com 18%. “A situação se agrava porque a variedade é uma exclusividade brasileira: se há excesso de produção, não há outros países para os quais o grão pode ser vendido, e, se a produção nacional não for suficiente para suprir a demanda interna, não há como recorrer ao mercado internacional”, diz Lüders. “Mas a alta do preço do carioca poderia servir para diversificar essa cadeia, com o consumidor introduzindo em sua dieta outros feijões, como o branco, o vermelho e o rajado.”

Para o pesquisador da Embrapa Arroz e Feijão, Alcido Wander, além de novas variedades que agradem o consumidor, o agricultor precisa de uma política de preços mínimos, estabelecida pelo governo, que remunere a cultura. No início de julho, os preços mínimos das culturas de verão da safra 2016/2017 foram reajustados, mas ainda muito longe do mercado. 

A saca do feijão carioca e demais coloridos passou de R$ 78 para R$ 84,60; o preto, de R$ 87,00 para R$ 94,80;e o caupi, de R$ 50,40 para R$ 52,80.  “É preciso critérios de preços que leve em conta não somente os custos de produção, mas também a relação com os preços dos outros grãos que são opções ao feijão, para o agricultor, como a soja e o milho produtor”,afirma Wander. Enquanto isso não ocorrer, a cada problema de safra o mercado entrará em ebulição.