Economia

Quem tem medo da crise?

Baixo crescimento mundial pode reduzir o ritmo da alta de preços de commodities, mas deve afetar pouco o agronegócio brasileiro

Quem tem medo da crise?

arte: rodrigo sicuro

 

As previsões de um futuro sombrio nos países desenvolvidos estão por toda parte. As bolsas desabam, investidores em pânico procuram ativos seguros. A nova crise financeira global, refletindo desta vez a perspectiva de baixas taxas de crescimento mundial, ameaça o comércio internacional e provoca preocupações em relação aos efeitos sobre as exportações do agronegócio. Os preços internacionais das commodities agrícolas não ficaram imunes ao clima de incerteza. Muitos investidores financeiros, especialmente de fundos, compram contratos de commodities, sejam metais ou produtos agrícolas, como estratégia de diversificação de seus investimentos. Com os investidores financeiros direcionando seus recursos para ativos seguros, como títulos do governo americano, os preços dos contratos de commodities recuaram. Um indicador claro desse fenômeno foi a queda de 12% do preço do petróleo nas três primeiras semanas de agosto.

A reação das commodities agrícolas foi mais sutil, refletindo a expectativa de que dinheiro rural/083-setembro-2011 29 a demanda não seja tão fortemente afetada pela redução das taxas de crescimento nas principais economias. “A demanda por produtos agrícolas continuará forte em função do aumento da renda da população de países emergentes”, afirma o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues. A demanda por alimentos, por motivos óbvios, é bem menos sensível à redução das taxas de crescimento econômico do que a de produtos industrializados. “A crise é grave, mas não vejo um horizonte de redução significativa de preços que não seja o movimento determinado pela fuga de capitais especulativos”, diz Rodrigues.

O acerto dessa avaliação ficou claro no comportamento dos preços das principais commodities agrícolas. Nas três primeiras semanas de agosto, por exemplo, o preço da soja caiu apenas 1,5%, o do café, 1%, e o do cacau, 4%. A única commodity agrícola que sofreu mais do que o petróleo foi o suco de laranja, cujo preço caiu 18%. Ou seja: o efeito negativo da saída dos investidores financeiros não foi suficiente para ofuscar a previsão de continuidade da forte demanda internacional pelos produtos.

Economistas e empresários do agronegócio estão relativamente otimistas e acreditam que a nova crise internacional terá efeitos mais brandos do que a crise de 2008, quando houve uma retração de 10% das exportações brasileiras de produtos agrícolas. Para o gerente do departamento de agronegócio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Antônio Carlos Prado Costa, o cenário global continua muito favorável às exportações brasileiras. Costa cita alguns exemplos que garantem boa demanda pela soja, pelo milho e outros produtos brasileiros. Um deles é um superávit mundial de apenas 14 milhões de toneladas nos últimos dez anos da produção em relação ao consumo de grãos. “Isso representa menos de 10% da produção brasileira em um ano”, diz Costa. O outro fator importante é a continuidade do crescimento econômico da China, de mais de 9% neste ano, e da elevação dos padrões de alimentação de sua população, com o aumento do consumo de proteínas. “Os fundamentos garantem a sustentação dos preços nos níveis atuais e traçam uma perspectiva muito favorável para o superávit comercial do agronegócio brasileiro, que é o maior do mundo, de mais de US$ 68 bilhões”, afirma. A Fiesp prevê que o superávit da balança comercial do agronegócio se repita neste ano.

 

Essa posição é reforçada pelo comportamento da demanda pelos principais produtos agrícolas. O presidente da Coamo, do Paraná, a maior cooperativa agrícola brasileira, José Aroldo Gallassini, por exemplo, afirma que até agora não há sinais de arrefecimento das exportações de soja e milho. “Não sentimos nenhum efeito da crise até agora”, diz Gallassini. O ímpeto do principal comprador de soja no mundo, a China, continua forte. Embora os preços internacionais da soja tenham caído nas últimas semanas, continuam em níveis historicamente altos, por conta dos estoques internacionais baixos. “O preço de US$ 14 por bushel é um dos mais elevados dos últimos tempos”, afirma Gallassini. De fato, entre janeiro e julho, os preços internacionais da soja subiram 26% em relação ao mesmo período do ano anterior. A previsão é de que parem de subir agora, mas não de que tenham recuo expressivo.

O otimismo do presidente da Coamo é compartilhado por outras lideranças do setor. O diretor da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), Sérgio Mendes, mantém a previsão feita antes da crise de que o País exportará 30 milhões de toneladas de soja e de sete a oito milhões de toneladas de milho neste ano. “A maior parte da exportação de grãos está voltada para a China, o que compensa uma eventual redução de demanda da União Europeia, que está sendo mais afetada pela crise”, diz Mendes. O aumento da participação da China nas exportações agrícolas brasileiras nos últimos anos, aliás, é um fator de proteção. Nos últimos dez anos, Europa e Estados Unidos, duas das regiões que se transformaram em epicentros das turbulências, reduziram bastante sua participação na compra de produtos brasileiros, de 60% para 34% do total. Em contrapartida, a China, que há dez anos adquiria apenas 3% das exportações agrícolas brasileiras, absorve 14% e é a maior compradora individual da produção agrícola do País.

Roberto Rodrigues Para o ex-ministro da Agricultura, a demanda internacional pelos produtos agrícolas não será afetada pela redução do crescimento econômico mundial

José Aroldo Gallassini O presidente da Coamo afirma que os embarques de soja e milho continuam nos mesmos níveis de antes da crise e que os preços estão historicamente altos

Embora a demanda chinesa represente, em princípio, uma garantia de que os efeitos da crise internacional sobre as exportações de grãos serão brandos, o mesmo não vale para outros produtos, alerta a economista Amaryllis Romano, da consultoria Tendências. “A maior preocupação é com o complexo carnes, que tem uma dependência maior da Europa e América do Norte”, diz. Além da forte desaceleração dos países europeus, grandes consumidores da carne brasileira, as exportações também estão sendo afetadas pelo embargo da Rússia (leia a matéria na página 40). O suco de laranja também pode sofrer um pouco mais, pelo grande volume de vendas para os Estados Unidos.

A reação relativamente tranquila aos primeiros solavancos da crise internacional também não quer dizer que não haja riscos à frente. O exministro Roberto Rodrigues acredita que a probabilidade é pequena, mas um eventual agravamento do cenário internacional, especialmente se houver uma crise bancária na Europa, pode provocar um efeito maior sobre a demanda de produtos agrícolas. “Um efeito dominó no sistema financeiro poderia ter um impacto mais sério sobre o crescimento dos países emergentes”, diz Rodrigues. “Aí, sim, provocaria uma mudança de fundamentos que afetaria mais as commodities agrícolas.” No campo e nos escritórios dos executivos do agronegócio, a torcida é grande para que esse cenário não se concretize.