Economia

Safra em jogo

Não é a produtividade em nem o clima que têm preocupado o agronegócio. O fiel da balança para o sucesso da produção é um só: o preço do dólar

Safra em jogo

Em queda: o rendimento de 50,6 quilos por hectare da safra de soja em Mato Grosso está 2,96% menor em relação a safra 2014/2015 FOTO: CELSO JUNIOR/AE

Mesmo com a iminência de um novo recorde da safra brasileira de grãos, muitos produtores estão perdendo o sono. Pelo quarto balanço da Companhia Nacional de Abastecimento, divulgado no início do mês passado, o Brasil colheria 210,5 milhões de toneladas, 1,4% a mais do que a temporada anterior. “Mas ainda é muito cedo para termos um resultado concreto”, diz o agricultor Endrigo Dalcin, presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso. Além da falta de chuvas, que atrasou o plantio da soja em diversas regiões do País, especialmente em Mato Grosso, o excesso dela também pode atrapalhar o andamento da safra no Sul do País. Mas nenhum desses problemas será mais prejudicial caso o dólar caia, segundo o economista e pesquisador Lucilio Alves, do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), de Piracicaba, no interior de São Paulo. “Por enquanto, o câmbio está em alta, mas se cair antes do término da safra, vai derrubar a rentabilidade do produtor”, diz.

Desde setembro, quando começaram os preparativos para a safra 2015/2016, a cotação do dólar subiu 13%, saindo de R$ 3,67 para R$ 4,15, no dia 21 de janeiro, de acordo com o Banco Central. Se por um lado o câmbio trouxe competitividade aos grãos brasileiros no mercado internacional, por outro aumentou consideravelmente os custos. E é justamente nesse aspecto que mora o perigo, pois o produtor teve seus custos atrelados ao dólar, pagando mais para plantar. Se a moeda cair, ele vai receber muito menos. “A questão é que a cotação da moeda não caia, por exemplo, para a casa dos R$ 3,5 ou R$ 3”, diz Alves.

Em comparação com a safra passada, a temporada 2015/2016 já registra uma alta de até 25% sobre o investimento de cultivo nas lavouras de soja, milho e algodão. Dependendo da região do País, por exemplo, o custo por hectare da soja gira entre R$ 2,3 mil a R$ 2,8 mil. Para o milho, o investimento é semelhante: R$ 2,3 mil a R$ 2,7 mil por hectare. No caso do algodão, cultura que exige maior investimento, dependendo da tecnologia utilizada e da região, os custos por hectare variam de R$ 6 mil a R$ 8 mil. “Por ser uma lavoura mais cara, os produtores de algodão poderão ser mais penalizados, caso o quadro do câmbio se
inverta”, diz Alves.


“Tivemos até de buscar uma permissão do governo para estender o nosso plantio” endrigo dalcin, presidente da aprosoja MT

ATRASOS  No caso do Estado de Mato Grosso, o maior produtor de soja do País, com uma área de 9,2 milhões de hectares, cerca de 28% das terras cultivadas com a oleaginosa nacionalmente, os plantios que tinham de terminar até o início de dezembro, no ano passado, tiveram de ser postergados até a primeira quinzena do mês passado. “Tivemos de até buscar uma permissão do governo para estender o nosso plantio”, diz Dalcin. A falta de chuvas não permitiu o início tradicional no Estado. Segundo dados do Instituto Matogrossense de Economia Agropecuária (Imea), na primeira quinzena de janeiro, cerca de 2% da área cultivada foi colhida. No mesmo período do ano passado, o porcentual era de 4%. “Os atrasos de plantio e colheita podem acarretar em atrasos de entrega do produto. Em Mato Grosso, alguns produtores já sinalizam atrasar a entrega da soja no porto”, diz Alves.

Além dos atrasos, a falta de chuva no maior polo de produção da soja do País, já dá indícios de queda de produtividade. De acordo com o Imea, a produtividade média 50,6 quilos por hectare está 2,96% menor em relação a safra 2014/2015. Na região Sul, é o excesso de chuvas que vem dando dor de cabeça segundo o pesquisador do Cepea. “Isso acarreta numa baixa produtividade e má qualidade de grãos, além de elevar a incidência de doenças na lavoura”, diz Alves. No Paraná, o segundo maior Estado produtor de soja do País, são cultivados 5,3 milhões de hectares com o grão. De acordo com o Departamento de Economia Rural, ligado ao governo paranaense, 14,2% dessa área em condições ruins e médias. “Em todo caso, ainda tem tempo para a safra brasileira se recuperar”, diz Alves.


Margens apertadas: para Lucilio Alves, do Cepea, se o dólar cair para a casa dos R$ 3 a R$ 3,50, a rentabilidade será comprometida