Economia

Trigo sem padrão

O Ministério da Agricultura transfere para 2012 a nova classificação para o cereal, mantendo sem solução os problemas de qualidade da produção nacional

Regras: para Reino Rae, assessor da Abitrigo, com a normativa, indústrias e produtores poderão negociar melhor

Já virou conto da carochinha: somente na safra de 1986 o Brasil foi autossustentável na produção de trigo. Desde então, nos últimos 25 anos, embalado pelo consumo maior do que a capacidade de produção das lavouras do cereal, o País esteve condenado à dependência das importações. Nesse período, iniciou-se uma queda de braço entre os triticultores e os moinhos brasileiros, que parece não ter fim.

A indústria quer um produto de melhor qualidade, que os produtores nacionais não conseguem entregar. Para amenizar a situação, o governo sinalizou uma saída. Em novembro do ano passado, o Ministério da Agricultura propôs novas regras, capazes de elevar os padrões qualitativos do trigo, para vigorar a partir de julho deste ano.

No entanto, entidades ligadas ao setor produtivo entraram em um acordo pelo adiamento da vigência da nova classificação, para 1º de julho de 2012, ao contrário do que pretendia o governo federal. “Essa normativa poderá realmente nos trazer uma melhor convivência no setor, mas precisamos de tempo para nos adequar”, diz Rui Polidoro Pinto, presidente da Federação das Cooperativas Agropecuárias do Rio Grande do Sul (Fecoagro).

A denominada instrução normativa (IN) nº 16, de 7 de abril deste ano, altera o início da vigência das regras de identidade, qualidade, amostragem e rotulagem do cereal, estabelecidas na IN 38, de 2010. Segundo as entidades ligadas aos triticultores, se adotadas imediatamente, essas exigências poderiam inviabilizar a produção do cereal neste ano. No Paraná, por exemplo, os agricultores já haviam comprado todos os insumos necessários e iniciado o plantio da atual safra, no final do ano passado. O novo regulamento determina que o trigo será classificado em cinco tipos, conforme a concentração de glúten no grão. A substância é importante no processo industrial, porque ajuda no crescimento das massas, como as de pães e as de biscoitos de cereais.

Além da classificação por glúten, as variedades de cultivares também serão ordenadas. Para Karina Fontes Coelho Leandro, do departamento de divisão de normas técnicas do Ministério da Agricultura, a nova classificação também está relacionada à qualidade do grão quanto ao uso direto na alimentação humana ou para a moagem. “A norma determina o percentual máximo de impureza, umidade e defeitos dos grãos”, diz. O trigo que não estiver de acordo com o novo padrão será desclassificado e não poderá ser comercializado.

De acordo com a Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), que terá que esperar por mais um ano até que a normativa passe a valer, o setor de panificação continuará a exigir qualidade para o cereal. “O trigo nacional apresenta certas impurezas, como restos de palha, areia e outros grãos, que dificultam a negociação com o produtor”, diz Reino Pécala Rae, assessor técnico da Abitrigo. “Com regras para a qualidade, poderemos negociar melhor”, diz. Para os representantes dos produtores rurais, as reclamações da indústria são exageradas, pois estaria ocorrendo uma evolução no quesito qualidade na triticultura.

Peso: Flávio Turra, gerente técnico da Ocepar, diz que antes o trigo era vendido por quantidade. Hoje se prioriza a qualidade

“Antigamente, o triticultor vendia sua safra de grãos pensando somente na quantidade e não na qualidade da produção”, diz Flávio Turra, gerente técnico da Organização das Cooperativas do Estado do Paraná. Segundo ele, esse cenário mudou, pois há muitos produtores que investem em qualidade, ao mesmo tempo que as entidades de pesquisa passaram a desenvolver produtos mais adaptados às várias regiões do País. “Porém, ainda temos condições desfavoráveis, como o clima, que prejudica a qualidade do trigo nacional”, afirma Turra.

Em relação ao cumprimento das normas, o consultor técnico da Fecoagro, Tarcísio Minetto, diz que o produtor já vinha se adequando às exigências do mercado, mas de maneira informal. “O que realmente se espera com a normativa é que haja uma diferenciação do preço pago ao produtor, pela qualidade, um prêmio que nunca existiu como regra para todos”, diz Minetto. De acordo com o ministério, com a prorrogação da IN, os triticultores terão tempo para comprar as variedades de sementes de trigo, adaptadas às novas normas. Eliana Guarienti, pesquisadora da Embrapa Trigo, em Passo Fundo (RS), afirma que neste mês de agosto será divulgada uma pesquisa realizada pela instituição, de reenquadramento das variedades de sementes para atender a essa normativa.

Reino: Rui Polidoro Pinto, presidente da Fecoagro, diz que é preciso tempo para que todos se ajustem às regras

“Trata-se de um trabalho de regionalização dessas cultivares que foram classificadas.” Guariente diz que cada área de produção do País terá um mapa de quais cultivares são mais adequadas ao solo e clima local. Entre as novas alternativas está a variedade de trigo BRS Pardela, uma boa opção para o pão francês, devido à alta concentração de glúten. Essa cultivar é recomendada para o Paraná. Outra variedade, a BRS 328, seria mais adequada à produção no Rio Grande do Sul.

A estimativa da Conab para os dois Estados é de 4,9 milhões de toneladas de trigo para a safra 2011/2012. Esse volume representa 90% da estimativa para todo o País, que é de 5,4 milhões de toneladas para esta safra. As importações devem alcançar 6,6 milhões de toneladas – 90% desse total é fornecido pelos vizinhos argentinos.