Finanças

A força dos silos

Investir em armazenagem pode ser a diferença entre o produtor refém do mercado e aquele que trabalha os próprios preços. Em qual lado você pretende estar?

A força dos silos

Investir sempre demanda do agricultor um bom planejamento estratégico, ainda mais se o dinheiro vier de recursos próprios. Mas quando se trata de armazenagem, ter seu próprio silo significa não mais ser refém dos preços.

Com um lugar para guardar a produção, o produtor pode esperar o melhor momento para vender seu produto. Dessa forma, ele se livra da boca de safra, período de baixa do valor das commodities, e pode comercializar na entressafra, época de preços mais aquecidos. Só para se ter uma ideia, na safra 2006/2007, em fevereiro, que é o segundo mês de colheita da soja, a saca da oleaginosa em Sorriso, em Mato Grosso, foi negociada a R$ 24,49.

Oito meses depois, o produto estava valendo R$ 32,69, uma diferença de R$ 8,2 por saca. Numa propriedade de mil hectares, com uma colheita de 55 sacas, isso significa R$ 451 mil a mais. “É um investimento que não só compensa como é necessário para quem quer crescer na agricultura”, diz Gilberto Darci Bernardi, produtor de soja e milho na cidade de Dourados, em Mato Grosso do Sul.

Proprietário da fazenda Proteiro Guassu, Bernardi planta 1.400 hectares de soja na safra de verão e 600 hectares de milho na safra de inverno. Por ano, produz 2,5 mil toneladas de grãos e decidiu implantar o sistema de armazenagem há sete anos. “Eu comecei em 2003, mas só concluí no ano passado, porque fiz tudo com recursos próprios”, diz. Mas o sacrifício valeu a pena.

Além de poder vender na entressafra, o agricultor agora economiza no frete. “Eu estou distante 50 quilômetros em estrada de terra do armazém mais próximo. Quando chovia, atolava e o custo do frete ficava elevado porque eu tinha que escoar no ápice da safra”, explica.

E as vantagens não param por aí. Em média, os donos de armazéns cobram R$ 0,4 a R$ 1 por saca/mês. Para um agricultor de cinco mil sacas este valor representaria de R$ 2 mil a R$ 5 mil a menos na conta.

Estratégia: guardar a safra para vender no melhor momento pode ser a grande diferença entre um ano vitorioso e uma safra ruim

No caso de Bernardi, hoje sua situação é bem mais confortável. “Pelas minhas contas, quem tem seu próprio silo tem 8% de sobrepreço em relação a quem guarda a produção em armazéns de terceiros”, diz. Fora o diferencial de comercialização, o agricultor ganha agilidade na colheita e no beneficiamento.

“Um sistema de armazenagem não é só silo. Tem o secador para tirar a umidade, tem a máquina para retirar as impurezas”, explica Alex Borges, gerente comercial no segmento de grãos da GSI Brasil. “Você tem a segurança de ter o produto na sua casa, o que permite comercializar diretamente com o exportador brasileiro, o que diminui o risco de não pagamento”, diz Bernardi.

Outro ponto positivo em ter seu próprio armazém é a certeza do bom tratamento do produto. “Estamos falando de soja, milho, arroz, produtos destinados à indústria de alimentos e a garantia de qualidade é fundamental na definição do preço”, diz Wilfried Toth, diretor comercial da Kepler Weber, líder de mercado no segmento.

O agricultor também ganha com a segregação de lotes de grãos. “Tem gente pagando mais por milho e soja não transgênica. Se ele puder separar, vai ganhar um prêmio a mais por isso”, diz Toth. A boa notícia é que há silos para todo porte de produtor. Para os pequenos, a menor estrutura comporta cinco mil sacas de soja; para os grandes, já há construções para um milhão de sacas da oleaginosa.

O valor depende do projeto e do preço do aço, que é a principal matéria-prima para a construção dos silos (vide tabela). A Kepler Weber não declarou valores por ser uma empresa de capital aberto. “Só posso dizer que o menor silo, que é o de cinco mil sacas de soja, tem o valor de uma picape, que é a primeira coisa que o agricultor compra quando tem uma boa safra”, diz Toth.

De qualquer forma, as companhias do setor são unânimes em afirmar que, em pouco tempo, o dinheiro volta para o produtor. “O retorno do investimento, quando o aporte sai do bolso do agricultor, demora de cinco a sete anos.

Mas se ele conseguir financiamento do governo, com a diferença que irá receber na hora da venda, ele paga as prestações”, explica Borges. E o tempo para ver o retorno do dinheiro pode ser ainda menor, se o agricultor, além de armazenar para ele, prestar serviço a terceiros.

Outra opção para o produtor é solicitar um financiamento. O crédito com o menor juro do mercado, 4,5% ao ano, é do Programa de Sustentação ao Desenvolvimento (PSI), do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Essa linha contempla tanto pessoas físicas quanto pequenas, médias e grandes empresas. São dez anos para pagar, incluindo três anos de carência. O fato é que não há escapatória. Se o agricultor quiser ter o domínio da situação, ele terá que ter o próprio sistema de armazenagem.

Mesmo porque, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o déficit de estocagem no Brasil é de 60%. Ou seja, não há capacidade física para armazenar toda a produção e quem tem um espaço “sobrando” em seu silo vai cobrar caro por isso.